sexta-feira, 31 de julho de 2020

Deixa-me ser

Quando vieres vigiar em mim
as nuvens e as sombras de passagem,
estaca.
Não atravesses o jardim.
Deixa-me ser silêncio.
Selvagem frenesim do vento.
Tempestade.
Calmaria.
Chuva e sol.
Névoa tardia.
Semente que cresce
e livre floresce
dia a dia.


Só se contemplam os caminhos que não atravessamos.


 



 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Noite

Abraça-te negra a noite
sobre as águas
e dorme a Lua.
Flutua a mística e a beleza...
tela nua.
Invicta de encanto e pureza
melíflua.


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domingo, 19 de julho de 2020

Porto

Não trago nada nos bolsos
e a alma é vasta.
Os olhos, outrora vagos, crescem,
emergem, cintilam, transbordam
das margens sulcadas
que me traçam, em cruz, o peito
e a luz:
D'ouro, meus sonhos de sol a sol
descalços, caminham rectos
pela desordem que trago de "lugar nenhum".
Tardias são as ruas
que me devolvem
(já depois de mim)
aos lugares a quem sempre pertenci,
anterior a qualquer transformação
violenta e precoce
e ao frenesim
da inquietação de não caber
no espaço de onde vim...


Porto:
leve e descalça, sem nada nos bolsos,
porque é na alma que tudo carrego.


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A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...