segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Quando o Homem Quiser

 

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão.

 

- Ary dos Santos -

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Para não mais me esquecer

Dizem-me que há outros mares, outras terras;
outras flores e searas desertas;
jardins perdidos e descobertas
nas ruas insertas do coração.
Falam-me da melancolia
no olhar da oleografia,
sempre que chove docemente,
na parede intensa da lembrança.
E revelam-me o que a poesia, de mim, não sabe
porque nela não cabe o tempo que ainda não passou…
(virá…)

Mas eu, que abraço longa a esperança
em terno jeito de criança,
hoje sorrio contigo nos olhos
para não mais me esquecer.

sábado, 24 de novembro de 2018

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

Uma carruagem lotada num comboio que parou. O contraste entre o tom elevado das vozes e os sofridos nós nas gargantas. 

Respirava-se sofregamente, mastigando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura da liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver? O choro de uma criança que, percebi, não reconhia o batom da mãe que, num vermelho escarlate lhe gritava o atraso. E ao fundo, à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. 

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

O revisor anunciava: “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era também o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado, eras tu quem o ocupava.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A morte da verdade

Ninguém a viu morrer…
em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,  
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.

Ninguém viu a verdade morrer.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

(Im)perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados e limpos;
apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas
que se arrastam
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado,
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária,
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Carimbo Escolha do Editor

Os domingos melancólicos deste outono, entre folhas breves e dançantes, parecem começar a ser momentos de boas e inesperadas revelações. Sou novamente Carimbo Escolha do Editor, e não poderia ficar mais reconhecida à Obvious.

Por vezes, a vida é um emaranhado de emoções e acontecimentos desconexos, de difícil digestão. Percorremos ruas desertas, colidímos com o muro avesso de um beco sem saída, ou tropeçamos no lancil de um passeio duvidoso. A luz ausenta-se e a noite prolonga-se para lá do nascer do sol, atravessando-nos o peito e aninhando-se clandestinamente em nós. É-nos difícil cortar todas as ervas daninhas e retornar às sementes das flores que virão a florir, uma após a outra, à medida que REGRESSAMOS AO LUGAR ONDE VERDAIRAMENTE NOS SOMOS.

Gratidão 💛


http://obviousmag.org/olhos_no_mundo/2018/regressaremos-sempre-ao-lugar-onde-verdadeiramente-nos-somos.html

 

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domingo, 11 de novembro de 2018

Reflexão - 22

Não sou mais, nem para além de subtis pegadas da poesia, que descalça caminha pelas ruas do coração.

 

sábado, 10 de novembro de 2018

Muda a vida num instante

[Canção]
Muda a vida num instante,

qualquer dia normal,
por passo certo ou trilho errante,
história breve ou redundante
na esquina, ou no jornal.
Muda a vida num instante,
a mulher e o amante,
o vizinho é traficante
e o empresário elegante
veste conduta irracional.
Muda a casa, muda a hora,
o carro e a demora
do local habitual.
Muda a lei, muda o interesse,
o jurista e o inocente,
o julgado e a moral.
Muda o meio, mantém-se o fim,
o teatro e o arlequim,
a verdade e o Latim
dos que governam Portugal.
Muda a sentença e a diligência,
a transparência e a vigência
de um contrato cabal.
Muda a troca e a moeda,
sobe ao colo, desce em queda
(liberdade condicional).
Muda a vida num instante,
o banal e o interessante,
a cunha e o cessante,
a ternura conjugal.
Mudam-se tempos e vontades,
mares revoltos e tempestades,
mostram-se corpos e vaidades,
cai-se no godo – facilidades
de uma Era virtual.

Muda a vida num instante,
já vai sendo habitual.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Reflexão - 21

Depois, surge do caos o necessário, e as palavras, que não são o que dizem, mas sim o que queremos que elas signifiquem, voltam a desenhar luzes no céu. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sonho clandestino

Desce, a lua cálida,
sobre as águas inquietas da lembrança
que dança no teu lugar.
Descalça, a fonte entorna-me
os passos do olvido amor,
sobre a folhagem seca das ruas solitárias
que vagueiam em mim.
Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente - de onde vim?

Na carruagem do fim, viajas tu
em contra-tempo, 
correndo por um momento
de pensamento...
presença em mim.

 

 

 

 

 

domingo, 4 de novembro de 2018

(A)mar não acaba

Amar não acaba...
e eu sou breve e trausente,
do peito ao jeito da lembrança
que se olvida no olhar de quem passa,
ausente de mim. Lá fora, na solidão
vagabunda dos peitos morredouros,
existem rostos, crianças antigas 
pela mão da veraz honestidade
da infância perdida.
Amar não acaba...
e o meu vestido desfolhado,
a nu me deixou o peito amargurado
e singelamente desfeito,
no leito triste da prevaricação do homem
passageiro de si.
Amar não acaba...
e as paredes transbordam de mim;
no lugar de quem se foi, de quem me fui,
sentou-se a saudade ao pôr do sol,
içada pelo mistério da lua 
que te abraça a janela estreita.
Amar não acaba...
e o esquecimento tudo me aviva
veloz, na pele dos recomeços, 
à deriva... 

O (a)mar não acaba...
E eu... com ele me findei.

 

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Libertação

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
De toda a passagem 
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura. 

Da verdade não se olvida a hora, 
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça 
ao lado certo da vida. 

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.

domingo, 28 de outubro de 2018

Para me fazer lembrar...

Hoje estou triste. Cobrindo-me a alma, a retalhada manta melancólica do calendário que passou e não levou, na sua destreza ilusionista de dar o dito por não dito, o passado que não passou.
Hoje estou triste e a apatia que me rasga a roupa e expõe a alma, cresce e trespassa-me a calma que julgo ter, sempre que a mim regressas, vindo por becos e travessas, virando avenidas às avessas para, tão distante quanto o coração de ninguém, me envolveres em memórias agitadas.
Hoje estou triste e nem o velho tic-tac do coração suspenso, no pêndulo do relógio tenso, oiço marcar o compasso do dia. Arrasta-se o domingo dentro e fora de mim, como se o fim não coubesse na hora, na data ou na demora do abraço que não se tem.
Hoje estou triste, por qualquer coisa que ficou de um poema. Estou triste e a minha razão lamenta, o que meu coração guardou.

Hoje estou triste, ainda é longe e faz-se tarde para regressar ao lugar das memórias que fizemos e plantar, no seu lugar, flores que me façam lembrar o meu sabor a Primavera.

sábado, 27 de outubro de 2018

Escolha do Editor

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E porque "A Possibilidade dos Recomeços" também é isso, despertar numa manhã outonal, aparentemente igual a tantas outras, e constatar que sou, uma vez mais e após um ano de ausência nesta plataforma, carimbo "escolha do editor".

Gratificante e reconstrutor, assim defino o meu sentimento, depois dos tumultuosos caminhos que, tantas vezes comuns a vários, sem que isso represente fraqueza ou vergonha, inadvertidamente nos distanciam de nós. Apenas a vida, as suas vicissitudes e contratempos, diria.

"A Possibilidade dos Recomeços" a todos pertence e a todos é devida. Aqui, como escolha do editor, representa um sorriso meu.

 

Para leitura:
A Possibilidade dos Recomeços

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Tudo o que o amor não é

 

Que não se confunda amor com abuso, manipulação e posse, situações que não são tão raras assim. Após a fase inicial do enamoramento, do deslumbre e da conquista, do encanamento e demonstrações de afecto e apreço, da paixão que brota e assalta o coração, cai a mascara e os sinais revelam o que anteriormente não era possível percepcionar. 

 

Cativar...

«XXI

Foi então que apareceu a raposa.
– Olá, bom dia! – disse a raposa.
– Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.
– Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.
– Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. – Estou triste…
– Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou…
– Ah! Então, desculpa! – disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar.
– “Cativar” quer dizer o quê?
– Vê-se logo que não és de cá – disse a raposa. – De que andas tu à procura?
– Ando à procura dos homens – disse o principezinho. – “Cativar” quer dizer o quê?
– Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É um grande inconveniente! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. – Ando à procura de amigos. “Cativar” quer dizer o quê?
– É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…
– Criar laços?
-Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
– Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho. – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…
– É bem possível – disse a raposa. – Vê-se cada coisa cá na Terra…
– Oh! Mas não é na Terra! – disse o principezinho.
A raposa pareceu muito intrigada.
– Então, é noutro planeta?
– É.
– E nesse planeta há caçadores?
– Não.
– Começo a achar-lhe alguma graça… E galinhas?
– Não.
– Não há beleza sem senão… – suspirou a raposa.


Mas voltou a insistir na mesma ideia:
– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…


A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo…
– Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.
– Eu bem gostava – respondeu o principezinho, – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e um bocado de coisas para conhecer…
– Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
– E tenho que fazer o quê? – disse o principezinho.
– Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto…

 

O principezinho voltou no dia seguinte.

– Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.
– O que é um ritual? – disse o principezinho.
– Também é uma coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
– Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…
– Pois pedi – disse a raposa.
– Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
– Pois vou – disse a raposa.
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai ganhei, sim, senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
E acrescentou:
– Anda, vai ver as rosas outras vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

 

O principezinho foi ver as rosas outras vez.
– Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. – Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.
E as rosas ficaram bastante arreliadas.
– Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

 

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:
– Adeus…
– Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos…
– O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
– Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…
– Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.»


O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Joana Morais Varela, Ed. Presença, pp. 66-74)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Falácias do amor

Cheira o orvalho ao teu perfume
e a tua boca ao aroma do café da manhã
que me acorda, com ciúme
do cantar do rouxinol que no galho assume,
os contornos do canto do teu corpo de pagã.

Queria eu cantar-te assim 
e tocar-te, pauta de cinco sentidos
entre os lábios
com gestos sábios dos dedos molhados
que em ti deslizam, como proas de barcos
salgados no Tejo ao sol poente.
Como são fáceis de alcançar
os tectos da cidade que há em ti,
quando me inundas de estrelato
o palato da boca que crepuscula
nos teus seios
abrindo portas a noturnos devaneios
a que me entrego no teu jardim.
Entre lençóis de luar e cetim
num frenesim de corpos suados
e condenados no fim
às falácias do amor.

Foi já sem sabor, que ele lhe bebeu
nos lábios desnudos de rubor,
o esfriar do último café. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos

Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos.

Depois do naufrágio, da tempestade que se abate e não se prevê, da névoa duvidosa nos inquietos caminhos do coração que nos levam ora atrás, ora adiante.




É frequente, e acima de tudo humano, sofrer. E nas relações, sabemo-lo, nunca a isenção da dor e dos maus momentos é garantia. Contudo, não deixarmos de ser (quem somos) é determinante para a minimização das feridas que possam um dia ser abertas, por motivos diversos e que nos são comuns a todos.
Ser, honesta e integralmente quem somos, para nós e para os demais, jamais deverá ser sinónimo de culpa ou sentimento de inferioridade, mesmo que não nos tenham sabido sentir, viver, amar, acarinhar, respeitar e cuidar. Dar, é um dos pilares cujas fundações, bem profundas, garantem a sustentabilidade das relações pessoais e emocionais, sendo fundamental para a harmonia e equilíbrio, tanto da individualidade, como do casal.

Li, por aí, que “precisamos de morrer algumas vezes de amor para percebermos o que queremos da pessoa ao nosso lado e o que é que temos para lhe dar.” Para mim, que me assumo pouco sabedora da “ciência” do amor, amar reside no dar e nao no receber, embora sem partilha uma relação não possa coexistir. 


Contudo, é também neste ponto da doação que assenta a perigosidade de podermos deixar de nos ser, aos poucos, em relações que não entendemos, no seu início, serem unilaterais. Chamemos-lhe relações egoístas, na medida em que uma parte apenas dá e a outra se limita a receber.
Não raras são as vezes em que estas relações se estabelecem entre pólos opostos: um alguém manipulador e outro puramente honesto e sensível, um ser emocional se assim quisermos, em que o primeiro estuda o segundo para que se possa moldar inequivocamente à sua medida e daí, pouco a pouco, conseguir retirar dele tudo aquilo de que a sua alma e vida carecem. A imagem que o manipulador alimenta no ser emocional, cria elos profundos e desperta emoções e sentimentos genuínos como a empatia, a atração, a amizade, a confiança, o respeito, a admiração, o amor… Na verdade, este quase se revê a si na imagem criada.
Não é vergonha assumi-lo. Não é vergonha afirmar que se amou alguém que, afinal, nunca existiu. Chorar sobre os bocadinhos de si próprio caídos no chão, sempre que, inadvertidamente, se vê desmoronar um ideal enraizado do lado de dentro do coração, é humano e puro.



Dá-se. Dá-se sempre mais e procura-se dar ainda mais sempre que a relação não está bem, para que o equilíbrio do parceiro estabilize o barco que, um sozinho, dificilmente faz mover. Sem se dar conta, o ser emocional reduz-se sempre que se constata ser necessário caber nos ideais, vontades, caprichos ou necessidades do manipulador. Cede com frequência e, mesmo quando se impõe, perante situações em que os seus valores são colocados em causa ou estremecem, acaba sempre por apresentar um pedido de desculpa, apenas para ter o prazer de ver o parceiro sorrir e poder sentir a paz reinar novamente. (No fundo, e embora duro de aceitar, são esses momentos em que o outro sorri, ri, se demonstra saciado de amor e transparece bem-estar que dão alimento ao primeiro).
E enquanto de barriga cheia segue um, vai o outro ficando sem si, até ao limite em que deixa de ser e se perde…


Habituado a viver numa solidão assistida, vai ficando até não mais ser possível. Aqui, das duas uma, ou é libertado (ou se liberta) para que se possa restabelecer e (ou não) voltar depois, com mais para dar, ou poderá ser descartado e culpabilizado pelo fracasso da relação. Podendo, também, em alguns casos, ser utilizado como o "mau da fita" na relação seguinte, garantido a explicação para a suposta fragilidade do manipulador que, assim, garante a repulsa do novo manipulado para com o anterior, abrindo espaço para jogar com duas peças sempre que isso se justificar. 

Desengane-se quem julga que situações destas apenas acontecem aos patetas ou pessoas mais frágeis, porque um dia, sem esperarmos, podemos ser nós. Os mesmos que hoje dizemos "isso comigo não aconteceria". Basta ter coração e permitir que este se sobreponha à razão. Por mais inteligentes que possamos ser, o nosso lado emocional também nos comanda, boqueia ou liberta, de acordo com as circunstâncias. Do coração, poucas razões lhe conhecemos.

“As relações mais importantes são profundamente frágeis, porque estão sempre debaixo de um sufrágio muito apertado da nossa parte.” (Professor Eduardo Sá) 

Mas, e porque há sempre um mas… Regressaremos sempre ao lugar onde verdadeiramente nos somos: a nós!


 


 


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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Para lá do poente

As nossas ruas já tiveram a delicadeza dos meus vestidos
e as sombras da luz em sobressalto nos teus olhos.
O temor das madrugadas no teu rosto
que me bebia o sossego suave do amor,
em eco deposto,
na tua triste e fatal solidão.
Já encostámos ao ouvido as arcaicas palavras do búzio
que, demoradamente, nos falava ao coração,
relembrando o começo infinito dos rios que correm,
mas que nunca atestam o (a)mar.
(Na paixão que não transborda, fica tudo por viver…)

Já te esperei para lá do poente
e antes de haver vida,
nas prolongadas demoras do teu ser ausente.
Não sendo senão cela de saudade,
tombava o meu corpo sobre o teu, já frio,
matando-te a sede; o luar da minha boca
acostumada à intermitência da ausência
que aprendi a suportar.

Ensinei ao peito o silêncio do amor
e a demora da espera à Primavera em flor.
E do vestido que agora tomba
como mortalha carmim, sobre mim,
fizeste casa…


E por fim,
o teu corpo caiu morto sobre o meu,
renascendo agora às mãos da condenação de mais uma mulher.

Quem és?

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Névoa

Há, fora do tempo, 
outro tempo que nos fazia; 
no território das horas inatingíveis,
à boleia do navegar de um veleiro
p'lo tecido azul da tarde.


À proa da névoa, em manto branco envolto,
o alongar do deserto fez-se certo em meu peito.
E p'la sombra prolongada,

morria a lua dilacerada, à noite na baía.
Não podia, porém, saber que era meu o cadáver
que ali sorria,
com a memória da lembrança adiada,
dos sonhos que ainda trazia.


Hoje, trago a roupa cansada 
da solidão deste quarto.
E os sapatos, de sola ausente, gritam
elevando-se ao silêncio das letras 
que à meia-noite me confortam, 
sempre que me vem à boca a saudade dos beijos que já não dei...
no seu travo a licor amargo
de um amor que não se cumpriu.


Heresia ou eco de um destino breve,
que cedo e agreste
a bordo de um veleiro anónimo partiu.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Travessia

Atravessar a humanidade deserta
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela, 
que pela janela,
baixa-mar dos meus olhos,
entra serena. 
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram? 
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada. 
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina, 
gritar como o silêncio 
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo. 
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes, 
o luar, o amor e o acreditar que 
externa, do lado oposto do mundo, 
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos 
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

domingo, 14 de outubro de 2018

Quero

Quero querer, ou será que queria, 
um dia... 
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver...
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência, 
em que a distância é lugar onde habito, 
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste? 
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma? 
Viva.
Deambulas tu pelos dias vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria? 
Antes que morra e te leve comigo,
quero!


 

sábado, 13 de outubro de 2018

O arroz doce da vida

(Das boas e doces memórias... Porque recordar, por vezes, também é viver.)


 


Comi o amor e bebi a saudade, num prato de mar, em frente à vida...


 


Comi o amor.
Quente e intenso, como se quer o café da manhã. E único, como o teu coração quando, ao cheiro do pão, se derrete pelo queijo fundido da vida.
Comi o amor e lambuzei-me. Voltei a comer e a lambuzar-me outra vez.
Doce e com canela, na medida certa, como o arroz da tua alegria.


 


Porque o amor, afinal, também é fazer pão com queijo e café, e servir, na dose certa em pequenas taças de alma aberta, o arroz doce da vida.


 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Vem sentar-te comigo à beira-Tejo

Vem sentar-te comigo à beira-Tejo,
futuro, que se faz tarde; 
e o por do sol anoitece
no limiar de um peito que arrefece
às mãos do solstício da saudade.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Todas as folhas de Outono são histórias de amor

Tudo são histórias de amor
amarelas e caducas, 
leves e secas, dançando nos braços do vento
ao som da cidade agitada. 
Hão-de guiar-me...
na inflexão da história dos nossos passos,
pelas ruas que existem em ti;
nas horas paradas das tardes de outono
para me agasalhar no teu peito.
Doce jeito de me consertar…
(folha seca caída, no chão estendida e pronta a estalar).




Todas as folhas amarelas e caducas



que renascem



... são histórias de amor que perfazem.


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Tudo em ti é naufrágio


Em ti tudo é naufrágio,
abandonado o cais da lisura,
nenhum regresso ensejes.Arde a candura inflamada
nos peitos ilusos,
por teu marear clandestino, desfeitos.
Obtusos caminhos e desejos,
onde ardem candeias fúnebres;
cemitério de almas puras e corpos sinceros…
Oh ilha, de solidão cercada,
em ti tudo é naufrágio!
Temor do esquecimento que te avassala
e despedaça, como copo de cristal nas mãos
vazas de uma criança.
Estala, coração tártaro!
De deslustre em deslustre,
derrocada por desonra: peito, leito e travesseiro adúltero.


Na infância da negritude teu ser ferido,
carrega em braços a cruz do amor impuro
que não prospera.
Porão de escombros,
homem perdido,
olhar de assombros,
corpo encardido,
mortalha de tantas mulheres...


Impuro. 
Tudo em ti é naufrágio.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Bolsonaro e poder de empoderamento das campanhas "anti"

Um post não habitual no que concerne às genese deste blog, mas representativo do que vou escrevendo/expressando por outras paragens. 


Em jeito de desabafo, e para que possa receber os vossos pontos de vista, optei por partilhar as linhas seguintes aqui, no Conta-me Histórias, a casa da poesia por excelência mas, também, um abrigo para esta mente inquieta...


 


 


Creio que o mundo não tenha compreendido ou aprendido a lição que as últimas eleições Americanas nos concederam. A eleição de Trump, como sabemos, e para além de outros meandros, teve por base o empoderamento que as campanhas “contra” lhe atribuíram.
À semelhança do que sucedeu com o actual presidente dos EUA, também Bolsonaro está, hoje, a beneficiar de uma enorme campanha política e avassaladora visibilidade, através da hastag "ele não" (não utilizei o # propositadamente) e dos inúmeros eventos “anti” que se têm realizado.


 


De pouco nos vale preconizar a nossa repulsa contra algo ou alguém, se a forma como o fazemos determina o resultado que não desejamos.
A atribuição de poder através da palavra “não” é uma realidade, quando falamos em linguagem energética. Esta, não enfatiza a descrença, mas sim a quantidade de energia reunida em torno da questão. Assim, todos quantos “contra” nos manifestamos, publica e conjuntamente, estamos, na verdade, a reunir em torno de Bolsonaro a força necessária à sua vitória.
A meu ver, a única forma de combate a este candidato, seria a proclamação do que se deseja ver realizado e que o próprio não defende. A repetição constante dos nomes que defendem essas causas, a campanha a favor deles e dos direitos, dos valores, das medidas certas e concretas para o povo brasileiro, a fim de que estas possam alcançar a força e visibilidade necessárias à vitória.
Fazer campanha pelo “não” é contraproducente.
Donald Trump é exemplo vivo de que o populismo leva à conquista, ou não fossem investidos mundo e fundos em campanhas e publicidade. O cérebro humano retém a informação que mais ouve e vê e, por isso, são tão perigosas as demonstrações massivas de discordância para com Bolsonaro. Na hora de votar, muitos serão os cidadãos que, sem a cultura, formação e informação devidas, colocarão a cruz no nome mais sonante. Não só por ser aquele que retêm, mas por lhes conferir a falsa segurança de que “se se fala, tem poder. Os outros não conheço”.


 


Posto isto, invertam a vossa forma de fazer campanha, por favor!


 


o-populismo-de-esquerda-ou-de-direita-tanto-faz-po


 


 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…

Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…
Sombra de quem?
Lança-me vapores cálidos e húmidos aromas, da terra fértil
de onde vens.
Respira-me, meu bem, o perfume das ilusões enamoradas
por onde vagueio e encalço o gozo do enlaço
das estrelas que deténs.


A cada dia mais longo, contemplo lascivamente
o ínfimo horizonte da verde espera,
para de novo tombar sob a visão imaginada
docemente, em teus bolsos transportada,
da semente mal fadada
que me detém; flor.

Pútridos passos teus…
Névoa? Fogo? Fumo ou pó?
Amor dos sonhos meus, não te demores, tão longe…
Por onde vens?
Arrasta-me e apressa-te, respiraremos juntos o inverno
que me invade a cama…
… deserta de crimes e paixão sideral.

Do lugar fúnebre das lembranças,
nada tragas!
Porque as cinzas, já findas, das histórias passadas,
arderão de novo:
corpo e alma, lenha e fogo,
ardente e louco
(a)mar…


Esse mar que só há depois de amar,
para nos queimar outra vez.


Não te demores, em lugar tão longínquo, amor…

sábado, 29 de setembro de 2018

Antes Existir

Passos frios,
de pedra em pedra, calçada
desgastada pelas solas do silêncio
amargo e profundo.


Mel no olhar derramado
lentamente, à passagem das mãos vazias
pelos dias.
Vai tudo dormir.
Ouve-se o reflexo da lua no mar
r e v o l t o. E o amor antigo 
que os cascos dos navios fazem 
com a tempestade.
Vai tudo dormir.
Os jardins descansam.
Cheira a melancolia.
Travo a estrelas cadentes.
Nos bolsos guardado,
enjeitado sonho taciturno...
passeio noturno
pelo calçadão da vida. 
Vai tudo dormir...
... quando, um dia, se abate
o lençol de pedra sem arte:



- Antes existir!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Falsos profetas e outras marionetas

Naquela manhã comum, todos se pareciam com bonecas de corda. Bem vestidos, cara lavada, cabelo escovado e alinhado, focados e rodopiando sem desvios em torno de si próprios.


Nós aplaudíamos - assim nos ensinaram - levados pela melodia das histórias feitas, ensaiadas e tão poucas vezes verdadeira e honestamente vividas. 
Vinte minutos era o espaço de tempo decorrido entre o puxar da corda e a vénia final. Na verdade, cada um dos oradores presentes a isso se resumia, vinte minutos de palco. E o que é um orador de histórias contratadas se não, apenas, o tempo que as demora a contar? Não nasceu antes, nem morrerá depois. Foi ali criado, aliciado pela nova tendência de debitar palavras emotivas. Sinceramente, não as entendo. Às palavras. Não aos oradores. Esses são de corda, como as bonecas, vestem a dança e morrem no instante em que falácia finda. Nem antes, nem depois. Exatamente ali.


 


No meu tempo enforcavam-se com palavras, é certo. Não sei se será a mesma coisa - corda por corda - mas julgo que sim.


 


Voltando às palavras, dizia eu que não as entendo. Deram em emotivas? Essas modas que agora seguem. Ali estão enquanto servem, usadas e abusadas por quem escreve e lê e por quem fala e ouve. Depois, cai a moda e abrem-se valas comuns onde se enterram as ditas, já desgastadas. Mas, tal como é costume nas boas modas, logo estarão outras de volta, aquelas que já anteriormente haviam sido usadas e que, mais adiante, voltarão sê-lo.


 


Das modas e das palavras já sabe que vão e vêm.


 


Fazem-me lembrar os namoros de hoje em dia. Já o disse à minha neta. Correm, correm, correm que se farta. Estão sempre cheios de pressa. Para chegar onde? Ainda não entendi. Todos se parecem perder pelo caminho. Quando voltam, já trazem outro pelo braço. Ainda a semana passada lhe perguntei se era ruim o piso do caminho de agora, tão coxos que os vejo do coração. É no que dão as pressas!
Namorados e oradores são todos bonecas de corda. Bem ensaiadas. Em vinte minutos, que é o tempo que tenho até morrer.


 


Derramem-me o castanho da capa de um livro por cima, deixem-no inundar a manta com que à noite me tapo e permitam-me cheirar a terra fértil molhada.


Não me fechem já o caixão! Ainda não! Quero a última dança. O meu palco final é castanho e a vida só dura vinte minutos.


 

sábado, 22 de setembro de 2018

(Des) ilusões

A sala está vazia, quase tanto como a fotografia do homem que não se revela.
Não entro. Não tenho espaço em lugares ausentes.
Uma certa estranheza, sinto que a vida não passou por ali.


Transborda uma história, por meia moldura ja cansada. Se a fixo, esvai-se num ápice, sem que o ângulo do instante ancorado em mim possua tempo e me recorde, página por página, o album que nunca se fez. Afinal, do enredo nu e vazio, só eu me vesti de verdade. 


 


O nada é lugar suficiente para arrumar as memórias que não se fizeram.


 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Olvido-te

Quero esquecer-me de tudo.
E varrer a caruma do caminho velho,
que a leva, em voo vazante e esquecido,
para lá da minha lembrança.
Quero esquecer-me da voz
que já não oiço, porque me mente:
eco displicente e taciturno
dos passos decompostos que te trouxeram.
Quero esquecer-me dos lugares que não existem,
senão mais no ensaio do que não foi.
E quero que a cinza, ardida a história,
se dilua nos braços das primeiras chuvas.
Inglória memória, para que te quero?
Arrasta-me, como a corrente do rio onde nasci,
para lá da margem que me atravessou o peito,
por punhal e rosas desfeito.
Quero esquecer-me de ti.


Quem és?


Se mais poder encerra a poesia do que as armas,
hoje é o esquecimento quem te leva para lá da poesia.


Olvido-te.


 


 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Do primeiro andar dos meus sonhos

Do primeiro andar dos meus sonhos, sobre o íntimo da manhã que se abre sobre as asas livres e flutuantes dos pardais, vai a minha esperança, por distância ao coração exposta, rumo aos lugares ainda sem nome, supostos ou por inventar; julgados impossíveis por quem ao peito não trás o querer das vertiginantes viagens infinitas, a que chamo acreditar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Fogo, a água e a confiança

"Era uma vez... o FOGO, a ÁGUA e a CONFIANÇA. Entraram numa floresta escura e o fogo disse:


- Se eu me perder procurem o fumo, pois onde há fumo, há fogo!


 


A água disse:


- Se eu me perder procurem a humidade, pois onde há humidade há água!


 


Então a confiança disse:


- Se eu me perder não me procurem, pois uma vez perdida nunca mais me encontrarão. "

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Descansa agora desse teu crónico cansaço

O dia nascerá, e não serás ninguém.
Não te restarão, em mim, traços, sentidos ou memórias.
Serás como névoa pálida que se esfuma e desintegra,
e esvair-te-ás letra a letra, por entre a putrefação cadavérica
de cada uma das figuras do engodo,
tombadas às mãos da verdade. Vencidas.
Sem nome, nada serás!
Uma história anónima não se escreve,
não se faz, nem se vive.
De mim, irás ao nascer do dia virgem, como livro em branco, seco e velho,
que em poeira se desfaz.


Não serás ninguém!
Por tantos tais que em ti surgiam, ninguém soubeste ser.
Nada fica.
E o que vai, não chegou a ser
senão mais do que ilusão do meu querer.
Pinto-te transparente numa tela,
expondo-a na parede ausente da lembrança, e deixo-te lá, onde nem o tempo se recorda de o ter sido.
Descansa agora, desse teu crónico cansaço


de não seres mais que patranhas, de ninguém me seres,
de nada mais seres, 
porque...
O dia nascerá, mas tu não.

Uma história anónima não se escreve.

Não principia, não tem meio, nem fim. Inexiste. 
Como tu em mim. 
Como tudo em ti. 


 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Nas ruas manuscritas do meu peito

Como mortalha que avança e cobre a noite,
assim se estendem as ruas manuscritas do meu peito,
pelo rubro dos teus passos ausentes.
Tu que persentes quando me atraso ou adianto,
e à esquina do meu pensar, por espanto,
te insurges indecifravelmente só…
Onde estás?

Ardem até ao fim, as velas breves dos sinais, e o céu,
por estrelas rejeitado, não aclama por nós.
Invariavelmente sós, os teus olhos já não vêem
nos meus a ternura dos silêncios conjugados.
Calaram-se os sonhos, o carinho, o amor e a corrente de gente
que nos arrasta e desgasta, em pontas opostas de um mesmo laço,
pelo desalento do mundo.  
Onde está o teu abraço?

Reconheço-te nas pedras do caminho
a sombra da dilação;
a luz confundiu a aurora do teu coração cego
e sedento de alma. Basta-te nela, o toque frágil.
Sobrando-te, agora, o doloroso tacto da ausência.
Se a penumbra é carência,
acende-me outra vez!

E afirmarei, no fim, a quem me quiser ouvir,
a quem me quiser escutar, sentir ou admoestar
sobre razões que o meu coração desconhece:
- É preciso que o amor baste!

Acende-me outra vez!


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

sábado, 8 de setembro de 2018

No cais que me fiz

Atravessa-me um barco vão
e a velha bruma da delonga
antecipada...
da partida, o adeus sem volta
retorta, apenas ida.


No cais que me fiz, permaneço...
prolongada.


 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Encosta o teu silêncio no meu

Sei que ainda aí estás. Vestindo a ausência magoada sobre a pele de silêncios. Foi lá que nos encontrei, na ausência do ruído, depois das palavras, lado a lado sem incómodo. Dois silêncios em rima branca completos, versos soltos por escrever. Se o nosso lugar falasse, diria que nos completávamos por silêncios e nos (des)encontrávamos nas palavras.
Sei que ainda aí estás e me procuras na quietude dos fins de tarde, na verdadeira solidão das horas velhas. Podes entrar. Não fiques ao relento da vida, sob o casaco azul cansado de ombros caídos. Puxa uma cadeira e encosta o teu silêncio no meu.

Ainda há para além de ti um doce sonhar, onde descalça dancei. Um jardim por arranjar, onde flor me fizeste, e um céu melancólico por explorar docemente. Do mar negro e revolto em que te vais, recolhi as vagas vorazes que te desfizeram, e joguei-me em salvamento. Fui eu quem morreu no final, mas sei que ainda aqui vens para te encontrar nas sementes que deixei.

(Hão-de receber-nos, essas ruas da saudade, à vista de toda a gente.)

Luz em ti o que em ti fui. E escurece tudo o quanto não mais consegui ser, descalça e de alma nua… Não fiques às escuras, entra e puxa uma cadeira, encosta o teu (uni)verso no meu.
Sei que ainda aí estás e que aqui vens para te encontrar, quando todos os sons do mundo se elevam em demasia. É fácil trocar palavras, difícil é ser-se inteiro, em silêncio.

Por todos os cantos da vida esperei por quem me calasse as palavras, permanecendo.
Encosta o teu silêncio no meu. Sei que ainda aqui vens. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Lembranças: um rasgo de tinta e flores

Uma lembrança cai da estante sobre a minha mão e penetra-me a carne macia, onde ainda se entranha e remexe, se aprofunda e permanece junto ao coração.
Como castelo de cartas ao vento, assim me sinto, assim me voo – em asas de memórias inadequadas ao sossego. O som estanca e do ventre de um movimento suspenso paira o momento sobre si, permanecendo muito mais do que ele próprio. O tempo não é corrigido e eu, deformada nas dobras das horas, dos dias e das lembranças, eternizo-o. Suspenso no silêncio que inerte se faz marcha rumo a mim.
Quando a alma se deita sobre a cama de núpcias do mutismo, o mundo está cheio de mais para falar…
Cais-me, memória a memória, da estante onde me propus guardar-te. Sem nome, sem rosto, nem formas, só verso a verso: a poesia que em ti eu li --  do mar ao abismo, da flor ao tormento, do amor ao lamento.
Perco-te o mundo ao adormecer, mas ganho-me em Universo.
Resta-me que amanheça. Essa é a hora em que tudo é puro e translúcido, é a hora em que apenas a luz se move e nos reacende.

Um rasgo de tinta e flores.

As memórias são inadequadas ao sossego. 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Put Your Arms Around Me...

“That's what people do who love you. They put their arms around you and love you when you're not so lovable.”


- Deb Caletti -

sábado, 25 de agosto de 2018

Da verdade, não se olvida a hora

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura,
de toda a passagem
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura.

Da verdade, não se olvida a hora,
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça
ao lado certo da vida.

O dia abre mão,
de tudo o que passa.
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Linhas soltas

O espaço vazio.
A manhã seguinte.
A cama exausta, por ossos doridos.
Na parede ausente, um abraço de nada.
Um calendário anónimo que partiu.
Que dia é hoje? Não há presente.
Da hora ausente, só a tua memória ficou.
A música toca, para me enganar as entranhas.
Não se sobrepõe ao silêncio das minhas frágeis divisões e não avança para mim.
O soalho não range. Já não caminho.
Fico para trás,
na história ilógica, nos braços do fim.
Do abismo que nos separa,
quero as minhas asas.
Cai e finda-te, ou sobe-me ao dorso e abraça-me o voo.


Hei-de dar luz às flores,
Hei-de regressar Primavera.


 


Acorda-me amanhã.


Hoje nada ..


 


 

domingo, 19 de agosto de 2018

Recomeçar

Não importa onde você parou…

em que momento da vida você cansou…

o que importa é que sempre é possível e

necessário “Recomeçar”.

 

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…

é renovar as esperanças na vida e o mais importante…

acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?

foi aprendizado…

Chorou muito?

foi limpeza da alma…

 

Ficou com raiva das pessoas?

foi para perdoá-las um dia…

 

Sentiu-se só por diversas vezes?

é porque fechaste a porta até para os anjos…

Acreditou que tudo estava perdido?

era o início da tua melhora…

Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz…

de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal

Um corte de cabelo arrojado…diferente?

Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a

pintar…desenhar…dominar o computador…

ou qualquer outra coisa…

 

Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te

esperando.

 

Tá se sentindo sozinho?

besteira…tem tanta gente que você afastou com o

seu “período de isolamento”…

tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu

para “chegar” perto de você.

 

Quando nos trancamos na tristeza…

nem nós mesmos nos suportamos…

ficamos horríveis…

o mal humor vai comendo nosso fígado…

até a boca fica amarga.

Recomeçar…hoje é um bom dia para começar novos

desafios.

Onde você quer chegar? ir alto…sonhe alto… queira o

melhor do melhor… queira coisas boas para a vida… pensando assim

trazemos prá nós aquilo que desejamos… se pensamos pequeno…

coisas pequenas teremos…

já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente

lutarmos pelo melhor…

o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental…

joga fora tudo que te prende ao passado… ao mundinho

de coisas tristes…

fotos…peças de roupa, papel de bala…ingressos de

cinema, bilhetes de viagens… e toda aquela tranqueira que guardamos

quando nos julgamos apaixonados… jogue tudo fora… mas principalmente… esvazie seu coração… fique pronto para a vida… para um novo amor… Lembre-se somos apaixonáveis… somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes… afinal de contas… Nós somos o “Amor”…

” Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do

tamanho da minha altura.”


 

Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 18 de agosto de 2018

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Das frágeis gavetas do coração

A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…

A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Reflexão -19


No fundo, somos como os lugares. Existem milhões e, entre eles, os especiais, aqueles pelos quais vale a pena esperar o momento da descoberta.


 


sábado, 11 de agosto de 2018

Não Coube na Vida

(...)
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.


 


Um alfaiate não cose vidas.


 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Sobre Mim

A escrita é uma reta que me toca na curva, sem me cortar e com a qual partilho todo o universo de um ponto em comum. A escrita é uma tangente de mim.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Meu amor pequenino


Sentindo como quem mente,
partiu ou morreu de repente
ainda antes de ser…
Meu amor pequenino,
semente no meu caminho,
que não chegou a nascer.


Tormentos foram, de te imaginar
perfeitinho e devagar,
na insegurança das horas claras…
nos meus olhos, e por meus braços
de afecto e eternos laços,
embalado ao teu choro primeiro.


Quis a vida que não viesses,
botão meu que não se fez flor;
Pardas estrelas que cedo tecem,
minhas dores que entardecem
no solstício do amor.


 


 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Hei-de Levar-te Lá

Tropeçar nas cores do arco-íris
e colher, no céu, pétalas de estrelas.
E das rosas, que são prosas
que habitam o jardim que sou,
beber-lhes as asas...
Com elas, visitaremos os astros
e pousaremos, amantes, na paixão da lua cheia.


Hei-de levar-te lá,
à tela branca e simples,
para que me pintes assim...
sempre que a janela se abrir, leve
sobre os recantos de mim.
Hei-de mostrar-te os barcos na bruma
e o amor que, sem pressa, navega
na ilusão breve das cores
das asas das borboletas.
Hei-de abraçar-te,
na rua onde te habitam os sonhos
e hei-de encontrar-te,
na esquina do acaso da ternura
sem urgência.
É lá, que ao tempo decai a premência
e os dias se abrem como camélias sem estação...
à medida do que somos:


Cartas de afeição que o vento leva...
sem resposta,
do meu ao teu coração.


 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Agora, Apodrecer


Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...
...mas apodrecer.


Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...
... mas apodrecer.


Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,
Sim, apodrecer ...
"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...
... mas apodrecer!


Sujar estrelas.


 


José Gomes Ferreira

Amor Azul

Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã. 
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida. 
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.


A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.
Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és. 
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.


Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele? 
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.


Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.

domingo, 29 de julho de 2018

Quem Sou? Sou...

Gostava de saber quem sou!
Confesso, não me conheço.
Se ontem era real,
Hoje sou sonho onde adormeço.


Há dias, no meu deserto isolada,
Sem mim, sem nada, sem ninguém...
Noutros, percorro a calçada
Da enorme cidade apressada,
Caminhos que eu mesma criei.


Se penso demais, já lá estou!
Cheguei,
Antes do tempo que me há-de alcançar,
Nos dias em que sem vontade do mundo,
No meu silêncio me deixo ficar.
Se não penso,
Ai se não penso… como posso eu não pensar?
Se penso um pouco menos, não chego
Aí... tão longe;
Onde e quanto me propus a chegar.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Fizemos o mar...

Não tenho mais do que o sonho em que adormeço. E que me envolve, apertando seguro, o peito que aberto arde. Invariavelmente diferentes, os versos que me fazem, a ti os dei, como o mar oferece à Lua o seu reflexo.
Éramos só nós. Inconfundivelmente desenhados no cândido voo das gaivotas livres, manchando o céu, despertando a aurora do amor. Nos teus braços de poeta, rimou o meu coração com as histórias enamoradas onde nos encontrei. Nascíamos ao pôr-do-sol, ao ritmo das estrelas claras e adormecíamos no horizonte do amanhã, depois do breve, mas lento momento em que o céu e o mar se fundiam.
Navegadores ao largo, fizemos o mar.
De marés vivi, assolada pelas ondas marginais de um amor que me fez naufrago o peito. Faz frio. O vento corta e o coração arrefece, padece, falece…
Não tenho mais do que as memórias, nuvens e insónias de tudo o quanto de nós ficou. Nada nos deixa, tudo se transforma, na medida extacta das asas das gaivotas, agora em terra.
Abortados os voos, permaneço ao largo, na praia que existe em mim. Neste repetir do verso final que sou. De peito aberto e ferido…



Dói-me o amor.


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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Pertença


Deixei que a paz me entardecesse.

Aqui. Queita.
Entre a melodia das coisas miúdas.

Da flauta pastorícia soluçam notas,
e eu sou fuga para a harpa do vento,
solta e incerta.
A  água corre entre as pedras
e som das raízes desperta
para o silêncio das cores.
Se fores,
deixo que o fim da tarde me suje de azul…

Noturnam-me claras, as águas;
e o fim do mar anoitece.
Padece a monocromia, no peito
que se acende à prata do céu.
Se fores,
deixo que a janela enluteça
e não mais amanheça a tela lírica dos pardais.

Não tenho terra
onde me pertença mais do que a mim.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Fissura

Regresso ao tormento
Como ao alimento que me dás.
Arde-me o peito no inverno
da ternura.
Pura, a água do cântaro deserto.
Seca-me a garganta
e o amor já não canta.
--- Fissura 


Em mim, só resta a secura.


 


 


 


 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Morro-te

Morro-te. Não te cumpri. 
Passaste por mim e eu não te vi
amar à sombra da m'nha madrugada
de negro pintada, envergando uma tela
de um amor à janela
que nunca vivi.
Emoldurada, escureci
numa entrega às mãos erradas
que por estradas cortadas, 
me desviaram de ti.


Morres-me. Não me cumpriste.
Por dentro, não me sentiste
entregue ao teu desalento
de um amor sangrento 
que viste partir.


Morremos. Não nos cumprimos. 
Nem sei se algum dia nos vimos
demorada e profundamente, num olhar. 
Renasce! Agora! Passa por mim!
Procura-me no teu jardim,
(e como grão de polén em estigma de jasmim)
fecunda o amor
e faz-me flor
até ao fim dos teus dias...

... Meu amor!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Reflexão -18


O silêncio não mente nem diz a verdade, não promete nem finge ser o que não é, não chora, não sorri, não ama nem pratica a indiferença, não fala e tão pouco emudece. O silêncio é-o, ao que - de uno - fica de cada instante.


 


Deixem-me Chorar

 


Deixem-me chorar as notas, as letras e as cores das memórias onde me deito.
Deixem-me chorar a dor, o vestido azul, o abraço e a ternura do lençol onde naufrago.
Deixem-me chorar o tempo e o sofrimento decidido. Deixem-me ficar latente, a definhar na almofada dos sonhos desfeitos.
É, por vezes, preciso soluçar o rio da angústia para a poder suportar.
Sigo em noctívagos prantos, tateando e tropeçando no que foi. Ainda não sei andar por aqui... por vielas estreitas e caminhos sozinhos onde os meus olhos, consumidos pelo grito da lágrima quente, perderam a luz.


Ah…! Deixem-me chorar o que não foi e tudo o que ficou por ser. O mais que viria, tudo quanto sabia que tinha raízes para se erguer. Deixem-me chorar o amor.
Deixem-me aqui, chorando de mim e comigo. Deixem que me doa. Que me rasgue. Que me mate. Que me consuma o rastilho e me dinamite o coração. Deixem-me estar só.


Sem murmúrios. Só o silêncio, eu e a dor.


 

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Espero por Ti ao Pé da Ponte

Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos,
te visse vinte e nove passos apressada.



Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar 
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.


Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam, 
onde as flores encantam 
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim, 
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
- enquanto te esperava do lado de cá -
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter. 
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer. 
Vem sentar-te nas minhas costas 
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.


Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.


Plenitude

Quero o silêncio.
Só.
A ausência plena de tudo:
do tempo e das demoras,
das angústias e das auroras,
das paredes de murmúrios pulsantes,
dos tropeços e começos,
dos encontros enviosantes
e desconcertantes memórias,
das alegorias de bandeja,
e da frívola sombra
que sobeja de mim.


Quero o silêncio
Só.
das palavras mudas,
da respiração suspensa,
da pulsação que não sinto
e do grito em que minto o meu nome.
Quero o silêncio.
Só.
O completo mutismo da quietação,
a ataraxia do coração
e a tua solidão por companhia.


Plenitude:
Para te amar, não preciso de nada além do silêncio.


 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poeira d'amor

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, nos intervalos curtos
do tempo lotado que nos roubou a vida...

Pudesse eu ser partícula de estrelas
e preencher o manto negro derramado
sobre o já cansado e inabitado
espaço livre do teu céu...

Pudesse eu caber inteira
no vácuo da pressa do relógio
que se esgota sem nos levar
à plenitude da calma,
p'las asas da alma,
ao refúgio do amor. 

Pudesse eu ser grão de poeira infinita
e caber, inteira, em ti...

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...