sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Opiniões à parte, a que horas há jornalismo?

Disse-o Oscar Wilde “O jornalismo moderno tem uma coisa a seu favor. Ao oferecer a opinião dos deseducados, mantém-nos em dia com a ignorância da comunidade.”

Notória será a decadência deontológica e a acentuada deriva para o sensacionalismo presentes na Comunicação Social global.

O espetáculo, o escândalo, a violência e a tragédia em directo, a ânsia de se ser o primeiro a chegar, a mostrar, a impressionar.

 Os jornalistas deixaram de pertencer à imprensa escrita, rádio ou televisão, são antes profissionais “todo-o-terreno” ou agentes multimédia e protagonistas, se assim se quiser, movidos pela tirania das audiências e pressão das entidades a operar no sector.

Conseguir público e notícias são demandas, mesmo que o preço a pagar seja a perda de rigor informativo, de imparcialidade, da verdade e da ética, ou que se misture informação e entretenimento num fenómeno já bem conhecido, o "infotainment".

Mas não só a actividade jornalística tem vindo a ser afectada pelos avanços tecnológicos e digitais, também as sociedades democráticas contemporâneas o foram, sendo, sobretudo, fortemente impactadas pelo alastrar da desinformação e pela forma como cada cidadão se relaciona com o mar de informação disponível. É disto exemplo o negócio das fake news, assente no click bait por via de conteúdo enganoso e/ou sensacionalista, apetecível a quem navega e se deixa levar sem critério.

A dificuldade em legislar nos meios digitais é evidente, até pelo perigo de limitar liberdades e princípios fundamentais, contudo, parece-me, não deverá ser a mediação algorítmica a determinar as regras do jogo.

Dos conteúdos que diariamente nos chegam, é cada vez mais ténue a linha que separa a opinião do factual, a inquisição da investigação, a alegação do jornalismo. As fontes são maioritariamente anónimas ou insuficientes e os factos não são mais do que hipérboles que acentuam e limitam um determinado ponto de vista ou, pelo contrário, inexistentes se incómodos.

 Caem assim por terra os valores fundamentais do jornalismo e os princípios expressos no artigo 9º do Código de Ética do Jornalista.

Repare-se que há muito que a imprensa deixou de participar de forma isenta e imparcial no espaço público. A objectividade deixou de ser critério, abrindo cada vez o espectro ao espaço de opinião, que é legítimo, mas que não pode condicionar o entendimento do debate. Até porque esse debate não substitui a informação e a diversidade ideológica é uma particularidade da Democracia.

A figura do comentador - tanto mais ou menos especialista em assuntos mediáticos - cada vez mais presente no meio, será, por isso, continuamente moldada pelos suas vivências e contextos sociais, políticos, religiosos, étnicos, espirituais, assim como pelas estreitas relações pessoais e isto é necessário manter presente, sempre que nos questionamos sobre o motivo pelo qual as narrativas não mudam.

E neste ponto de inflexão não é necessário que os media perteçam ao Estado para que a independência jornalística seja colocada em causa, perante a pressão de figuras superiores. O mesmo acontece quando o detentor de um órgão de comunicação social é uma empresa ou grupo económico ou mesmo através das agências de publicidade que, como sabemos, financiam os meios “podendo” ditar as regras.

Talvez a reflexão passe por entender que empresas de comunicação social e jornalismo já não convergem na mesma realidade e que, apesar dos monopólios e do negócio da informação, ainda existem jornais e jornalistas éticos e de referência. Talvez uma parte dessa reflexão se prenda com a necessidade de revisão do modelo de negócio informativo, tornando-o mais sustentável por forma a permitir que os próprios jornalistas possam exercer de forma livre, independente e plural. E isto não passa por contratos publicitários, mas sim, talvez, quem sabe, com o leitor. E para isso é preciso voltar a ganhar a sua confiança, recuperando credibilidade e respeitando os princípios primordiais do jornalismo.

Dizia Eça de Queiroz, “Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações - mesmo as boas.”

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...