quarta-feira, 30 de abril de 2025

O dia depois de ontem

Acordado o país, após apagão, as posições sobre o acontecimento parecem dividir-se e opor-se. Imagine-se, até extremar-se, como "bom" sinal dos tempos.

De um lado a paz e o sorriso tranquilo daqueles para quem o dia foi de libertação, de regresso à base da vida, à tranquilidade, à família, aos cheiros e sabores de outrora, ao tempo para ter tempo, aos sons e vozes desconhecidos - quantas vezes inaudiveis no correr dos dias - ao passo calmo nas ruas, parques e paredões, à partilha e comunhão com vizinhos e à possibilidade consentida de desligamento. Contudo, conscientes dos desafios enfrentados, dos constrangimentos causados, do desdobramento de meios humanos nas várias frentes onde se exigia acção e onde nada parou, nem podia parar. 

Do outro lado, por oposição, a exaltação e o descontentamento imponente, perante a romanização dos primeiros face a um evento caótico, à falha das comunicações, ao açambarcamento nos supermercados, à inactividade tecnológica, à impossibilidade de estar "on" e no controlo descontrolado de um mundo ao segundo, de não saber o "depois" por exposição ao imprevisto mas, também, e especialmente, a revolta por haver quem tenha, apesar de tudo, preferido ver, sentir e viver o lado mais positivo do "blackout".

Claro que poetizar o evento não será sensato, até porque o prolongar da situação teria impactos irreversíveis, contudo, parece-me, reflectir sim, é necessário. 

Reflectir sobre a extrema dependência energética e tecnológica dos nossos dias, reflectir sobre a forma como os vivemos e estamos sistematicamente ligados a tudo e a todos, excepto a nós. Reflectir sobre a forma como se tornou um vício controlar tudo à nossa volta - e dar por nós constantemente a fazê-lo. Reflectir sobre o quanto isso é apanágio do medo do desconhecido e efeito placebo para o tanto que não controlamos.

Vivemos a fugir do desconforto de não estar a par, principalmente do que acontece no mundo, agarrados a uma falsa sensação de segurança trazida pelo imediatismo da informação ao segundo, ainda que, essa mesma informação possa não ser fidedigna, confirmada, transparente ou total. Porque sim, apesar da torrente, aquilo que sabemos ou julgamos saber é uma ínfima parte da realidade do mundo. Todos somos vulneráveis e insignificantes se expostos à escala da História e contexto Mundiais.

Certo é que, ontem, as nossas inseguranças tiveram espaço para se fazer sentir. Demos-lhe palco, ao invés de as retrair ou camuflar através dos ecrãs, da falta de tempo, de espaço e da azáfama diária. Mas a vida é isso, é exatamente aquilo que não controlamos, um círculo bem mais lato. 

E creio que sim, que andamos todos a correr como loucos, para chegar não sabemos onde, num passo desmedido, numa ânsia desenfreada por encontrar respostas e soluções para tudo, sem perceber que o efeito é contrário e perdendo o essencial pelo caminho: a saúde, os momentos, as pessoas, os gestos, o tempo, o sabor da passagem e o seu significado. 

Ontem, apesar de todos os apesares - e onde incluo todos quantos foram chamados a agir na frente de batalha, nos mais diversos sectores e circunstâncias - foram muitos os que tiveram a oportunidade que raramente têm, no correr dos dias, de usufruir da sensação de paz do desligamento, da presença dos seus, da liberdade da rua, das vozes de vizinhos e estranhos, do barulho das crianças ao lar livre - cada vez mais raro, dos sons sem ruído, dos cheiros antigos e do daquilo que a vida é quando se resume ao simples e essencial.

Isto não é romantizar, é constatar que a humanidade caminha no sentido errado e que é necessário equilibrar. 

 

 

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