domingo, 29 de novembro de 2020

Viver

Na escola onde aprendi a Primavera também chovia
e os trovões emergiam dos percalços.
Entre clareiras, destroços e joelhos magoados,
os homens corriam desalmados
pela vida fora...
Procuravam e perdiam
o que tão velozmente seguravam
nas mãos grandes e vazias.
Rasgavam e remendavam as flores do campo
enquanto um desconhecido
chegava de mala à cidade,
instalando o seu canteiro
à esquina da mocidade.
Na escola onde aprendi a Primavera
as palavras não aconteciam desfazadas
das manhãs que nos trazem o jornal.
Diziam, pois, coisas diferentes
deixando, por vezes, contentes
túlipas e malvas de quintal.

E sobre tais flores de vaso,
falam-me os homens, sem atraso,
em línguas que não compreendo...
Aqui e ali,
primariamente selvagens
temendo passagens,
Obras, trechos e bagagens
que trago: sementes por terras além de mim.

Na escola onde aprendi a Primavera,
passou-me por dentro um Inverno qu'inda não clamou o fim.

[viver]

 

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Desigual

[Canção]


Era o sol nascente,
mais uma manhã,
num mundo exigente
puxando a corrente
futuro presente,
cela de amanhã.

Era a agitação fiel
e o burburinho,
o canto das aves sempre baixinho
e as flores já não davam mel.
Era o trânsito arrastado,
homens de olhar apagado,
mulheres de rosto cansado
e crianças sem brincar.
Eram janelas estridentes
vozes iradas, descontentes
horas tardias, negligentes
apatia do luar.
E sempre que o mundo
no horizonte se punha,
era o cansaço quem se impunha,
era tempo de abrandar.

Era uma manhã desigual
adiada a rotina
mal lida sina
p'la cigana ao passar.
Eram quatro, as paredes
lotadas de gente
de outra gente carente,
varandas por quintal.
As lojas fechadas,
grades nas fachadas
dos prédios elegantes
nascidos de fronte para o céu.
E é agora réu todo o afecto
que não sob o tecto
do coração que sustém o véu
à noite insone.
Paira uma nuvem de incerteza
sobre cada cabeça;
tudo deixou de ser colorido.
E num futuro dorido,
não ficará tudo bem.

O telefone toca,
a televisão alerta,
o medo disperta
e o trabalho de ontem ainda está por fazer.
Os miúdos não comem,
são tantos os que morrem!!!
É preciso não esquecer
que outros há, ao relento
sem pão, sem alento
nem abraços onde se recolher.
Ninguém nas ruas
tudo deixou de ser...
e parecem já suas
as razões do anoitecer.

- Mãe, como é que cabem tantos mortos no céu?

 

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Raíz

O Alentejo tudo devolve à terra:
A raíz e o chão
a alma cansada e o tempo do pão,
a vida em pousio e o áspero fermento da espera
que em mãos antigas macera
o futuro: quimera
daquele que vem e que passa,
do que não vem, mas que fica
e do que vindo como quem passa
regressa puro à sua graça
e à semente que edifica.

 

domingo, 8 de novembro de 2020

Fado de Mim


Guardo um tesouro antigo, 

em náufrago e incerto navio.
Momentos e histórias que vivi,
contos, poemas que escrevi,
linhas inúteis de utilidade controversa
se perversa é a afeição do coração
sem pressa de cantar.

Fala por gestos e sorrisos d’olhar,
palpitares indiscretos, arritmias d’amar.
Dá de si, sem por defeito esperar, 
que ao fundo do navio se possa chegar
levemente...

Guardo um tesouro antigo,
sonhos de ouro
que teimo em sonhar;
livros não lidos, por não serem escritos,
por não revelar…
de mulher desejos, intensos sobejos
de mares por explorar;
céus moribundos, de estrelas defuntos,
astros por inventar.

Ao fundo de mim não vou!
Que nem me quero,
onde me acabo,
poder encontrar.
Porque, no fim de me ser,
mais que infinito,
ao fundo de mim
não te vi chegar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Fado de uma Saudade


Aminha saudade veste fato,

agitado por estro profundo.
Ávida do mundo, prende-me
num livro de folhas impossíveis, 
que se abre para dentro
sobre ideias complexas
e palavras desconexas 
de um poeta, homem sozinho. 


A minha saudade veste sonhos 
e encantos - tantos - de menino,
calça outros quereres e ambições,
marca o compasso, faz o caminho.


A minha saudade inquieta,
à noite de solidão trajada, 
duramente e sem entrega,
por coração que não sossega, 
traz a alma desolada. 


A minha saudade tem rosto, 
passos largos e o amanhã na voz.
castanhos enredos, entre os dedos,
amores, nascentes e foz.


A minha saudade tem nome
que se bebe sábio nos lábios idos...
E traz poesia no bolso, 
d'amor sentido, sem nele entrar.
A minha saudade é desgosto
de um sonho vivido e por inventar.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...