quarta-feira, 31 de março de 2021

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"Estou sempre a começar", sejam dez, dezoito, quaisquer vintes ou agora trinta e dois. Começo e, por vezes, recomeço, na força do prefixo que me agarra e me empurra para diante. Pisar linhas de partida, tantas vezes escritas na curva da imprevisibilidade da vida, não nos restitui a lugar nenhum no tempo, onde já possamos ter estado. Ao invés, adverte-nos para a necessidade de revisitar tempos e espaços (sem os reinventar ou rescrever) a fim de lhes entender sombras e luz para, assim, seguir o caminho de quem somos.
Um ano passou e tenho a sensação que muitos anos se passaram dentro dele (e com ele). De tudo aconteceu um pouco. Bom ou menos bom, não interessa agora, tanto menos à maioria.
Certo é que nos dirigimos para um lugar novo e desconhecido, sobre o qual não sabe ninguém, por mais ruído que se faça ou se ouça na caminhada que fazemos, sem que dela demos conta. Claro, há sempre tanta coisa a dizer... Trazemos todos tantas palavras barulhentas que, pasmemo-nos, nem a nós próprios nos ouvimos. Deixo falar, deixo que quase se nos ensurdeçam o peito e os olhos de ver, mas deixo, sobretudo, no meu recorrente começar, silêncio. Silêncio nos passos, silêncio por onde passo e silêncio atrás de mim. Silêncio para que pensem, para que se pense, para que consiga pensar e fazer pensar.
Novas realidades exigem novas criações, talento e pensamento, visões, caminho e recomeços.


E eu, que "estou sempre a começar", não sei ver a direito na curva do horizonte.

domingo, 28 de março de 2021

Aos profissionais de saúde

Não sei se foram as mãos que me disseram
que ali dentro havia gente.
De capa e espada, branca bravura 
dos Lírios de armadura, na frente de batalha. 
Sobre o caos da vida, quilómetros de mortalha
e peitos mordidos pelo cansaço,
Sem abrigo humano, ou braços de aço onde se recolher.
Se ao menos um olhar bastasse... 

Não sei se foram as mãos que me disseram, 
que era gente quem na frente se erguia, 
noite e dia, contra a morte, e persistia 
ao alto, de pé: a imponente coragem sem rosto
e o coração disposto à salvação do mundo. 
Mas sei que foram, ante o céu, em prece, 
as mãos brancas dos Lírios, na esperança que cresce, 
quem trabalhou a bonança e se fez ponte de aliança 
sobre a humanidade. Sei de quem foram as mãos.

sábado, 27 de março de 2021

A política, o indivíduo e a sociedade

Ainda me dizem: "Vem por aqui"


Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).


A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.


Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"


"E nunca vou por ali"...


Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).


Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.


A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.


O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.


Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".


Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.


O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.


Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.


 

sábado, 13 de março de 2021

Princípio do Pressuposto

"Princípio do Pressuposto II" é a última obra do artista plástico Flávio Horta.
Atribuído por mim, a convite, o título é extensível ao poema que acompanha a pintura, por lhe retratar traços e história, em representação do imaginário de Flávio, traduzido por mim, em verso. 
"Princípio do Pressuposto" seguirá, em breve, para a Casa das Artes de Arcos de Valdevez, onde integrará uma exposição aberta ao público. 


 


Princípio do Pressuposto


Sem olhar, ante o espelho, a própria face.
Louco que julga saber ser o outro,
à força de não ter
vontade nem prazer
de, aos demais, o lugar entender.
Além mundo, a sua porta...
e nada mais suporta.
Que importa?
O olhar emprestado,
a voz de todos sem ninguém:
o princípio do pressuposto
por intuir ser suposto
seguir e estar disposto
ao raciocínio de outrém.
Sem a frágil piedade,
por coração de quem cedeu,
fala o Homem sobre a vida,
sobre a história e a divisa,
sobre o que nunca conheceu.
Lugar comum, o seu,
se fácil é a explicação,
ante a incompreensão,
de quem sofreu.


 


Poema: Rita Palma Nascimento
Princípio do Pressuposto II”
Acrílico sobre tela, (80x90) 2021
Modelo: Mariana Lampreia
Pintura: F. Horta


 


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terça-feira, 9 de março de 2021

As Valas

 


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(Escrito em 2017 e republicado hoje, porque a História não se apaga nem se reescreve, de acordo com aquilo que se pretende - à data, por conveniência - que ela seja ou tenha sido. A História é o que é, é o que foi, é o que somos). 



Ao longe, tiros e rebentamentos. A coluna onde eu seguia, já para lá da saída de Cufeu, pára. Pelo rádio, o oficial da Companhia que vinha ao nosso encontro solicitava ajuda à aviação. Haviam caído numa emboscada e estavam a ser dizimados pelo inimigo.
Foi o apelo mais dramático de que me recordo, durante toda a Guerra Colonial. O oficial apelava à aviação: que se bombardeasse tudo. Incluindo a Companhia. A situação tornara-se humanamente insustentável e o inimigo avançava em número bastante superior.

Quis Deus, que a aviação negasse o pedido. Perante terrenos minados e cheios de tantos outros obstáculos mortíferos, quaisquer quatro quilómetros se tornavam intransponíveis. Partir em socorro dos camaradas emboscados não passaria de miragem. Mas seguimos. Quem a bordo das viaturas se encontrava, saltou para o chão e a coluna avançou a bom ritmo, queríamos chegar a Guidage antes do anoitecer.


Um rebentamento. Dois rebentamentos. Três rebentamentos. Minas. Duas baixas irreconhecíveis e menos um pé. No local da emboscada mortos, mortos às dezenas. Menos trinta e uma vidas, das nossas.


À chegada a Guidaje, fomos presenteados com água, algum alimento e gritos. Tantos!! Mas estes de alegria. Disseram-me, porque já não os distinguia. Gritos de alegria, o que quer que isso fosse. Desses, só conheci os da tua mãe enquanto, no limite das suas forças, se esvaia em sangue cor de júbilo para te dar a conhecer a luz do dia.
Ali, o sangue era outro. Sangravam as nossas Colónias e cheirava a perecimento e as lágrimas, mais pesadas que todo o armamento. Lágrimas que sabiam a luto, ódio e potrefação.


Com a noite descemos às valas, que era onde se dormia, em Guidaje. E depois da morte, também.
Fomos bombardeados três vezes durante a madrugada. Rebentavam projeteis, vidas e os ouvidos de quem ainda se mantinha alerta. A nossa artilharia respondeu e parou o ataque. Fizemos a contagem, quatro vozes não responderam. Uma delas, a do jovem soldado Raimundo, meu companheiro e conterrâneo desde tenra idade. A sua voz nasceu e morreu comigo.
O nascer do dia descobriu o sol, que por sua vez iluminou os rostos de tristeza. Era preciso reagir.
Sabes João Pedro, a morte é como o amor, aprendemos a conviver com ela de perto, ou à distância. Só é necessário arranjar uma maneira de nos irmos iludindo.


Nas valas não se dorme. E quando se dorme é para sempre.

(Baseado em 3 testemunhos reais, relatados na primeira pessoa).


domingo, 7 de março de 2021

P'los Campos da Escravidão

Um homem sabedor incomoda.
Um homem de direitos não se quer.
Um homem instruído é uma maçada!
Os homens de leis são infiéis.
Quer-se aquele, o que nos bolsos nada trás,
para lá do tecido roto onde jaz
o próprio ser...
que cai 
à noite,
como a noite,
sobre os sulcos do colchão de guerra
sujo
moribundo
fraco
e sombrio.
Querem-no a ele e aos outros iguais
em terra d'ouro, em mãos marginais.
Em tecto mouro,
é interdito, tudo o que é dito,
pouco podem compreender!
Além, o dever:
labutar
aceitar
sucumbir
esquecer.
As mãos, doridas e gastas,
incapazes de segurar no pão que há-de vir...
duro! Tanto quanto o chão onde cresce
e onde, à sorte, padece, 
entregue aos restos de ração.
Na pele queimada do sol, arde-lhes a vida
e a planta dos pés, sem rumo.
Restam as solas no piso defunto,
onde morrem.
E morrem de todas as maneiras, 
todos os dias,
pelo menos uma vez.
Morrem.
À dignidade, a viuvez.
Morrem. 
Vazios de tudo, anteriores à idade,
sem identidade, 
ou palavra na boca,
sem nada na mão,
sem nada no bolso,
sem nada na alma,
nada no coração...
Nada!
Nem Liberdade.


São estes os filhos da escravidão. 



 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...