Ainda me dizem: "Vem por aqui"
Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).
A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.
Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"
"E nunca vou por ali"...
Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).
Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.
A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.
O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.
Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".
Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.
O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.
Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.