segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Para não mais me esquecer

Dizem-me que há outros mares, outras terras;
outras flores e searas desertas;
jardins perdidos e descobertas
nas ruas insertas do coração.
Falam-me da melancolia
no olhar da oleografia,
sempre que chove docemente,
na parede intensa da lembrança.
E revelam-me o que a poesia, de mim, não sabe
porque nela não cabe o tempo que ainda não passou…
(virá…)

Mas eu, que abraço longa a esperança
em terno jeito de criança,
hoje sorrio contigo nos olhos
para não mais me esquecer.

sábado, 24 de novembro de 2018

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

Uma carruagem lotada num comboio que parou. O contraste entre o tom elevado das vozes e os sofridos nós nas gargantas. 

Respirava-se sofregamente, mastigando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura da liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver? O choro de uma criança que, percebi, não reconhia o batom da mãe que, num vermelho escarlate lhe gritava o atraso. E ao fundo, à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. 

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

O revisor anunciava: “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era também o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado, eras tu quem o ocupava.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A morte da verdade

Ninguém a viu morrer…
em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,  
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.

Ninguém viu a verdade morrer.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

(Im)perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados e limpos;
apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas
que se arrastam
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado,
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária,
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Carimbo Escolha do Editor

Os domingos melancólicos deste outono, entre folhas breves e dançantes, parecem começar a ser momentos de boas e inesperadas revelações. Sou novamente Carimbo Escolha do Editor, e não poderia ficar mais reconhecida à Obvious.

Por vezes, a vida é um emaranhado de emoções e acontecimentos desconexos, de difícil digestão. Percorremos ruas desertas, colidímos com o muro avesso de um beco sem saída, ou tropeçamos no lancil de um passeio duvidoso. A luz ausenta-se e a noite prolonga-se para lá do nascer do sol, atravessando-nos o peito e aninhando-se clandestinamente em nós. É-nos difícil cortar todas as ervas daninhas e retornar às sementes das flores que virão a florir, uma após a outra, à medida que REGRESSAMOS AO LUGAR ONDE VERDAIRAMENTE NOS SOMOS.

Gratidão 💛


http://obviousmag.org/olhos_no_mundo/2018/regressaremos-sempre-ao-lugar-onde-verdadeiramente-nos-somos.html

 

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domingo, 11 de novembro de 2018

Reflexão - 22

Não sou mais, nem para além de subtis pegadas da poesia, que descalça caminha pelas ruas do coração.

 

sábado, 10 de novembro de 2018

Muda a vida num instante

[Canção]
Muda a vida num instante,

qualquer dia normal,
por passo certo ou trilho errante,
história breve ou redundante
na esquina, ou no jornal.
Muda a vida num instante,
a mulher e o amante,
o vizinho é traficante
e o empresário elegante
veste conduta irracional.
Muda a casa, muda a hora,
o carro e a demora
do local habitual.
Muda a lei, muda o interesse,
o jurista e o inocente,
o julgado e a moral.
Muda o meio, mantém-se o fim,
o teatro e o arlequim,
a verdade e o Latim
dos que governam Portugal.
Muda a sentença e a diligência,
a transparência e a vigência
de um contrato cabal.
Muda a troca e a moeda,
sobe ao colo, desce em queda
(liberdade condicional).
Muda a vida num instante,
o banal e o interessante,
a cunha e o cessante,
a ternura conjugal.
Mudam-se tempos e vontades,
mares revoltos e tempestades,
mostram-se corpos e vaidades,
cai-se no godo – facilidades
de uma Era virtual.

Muda a vida num instante,
já vai sendo habitual.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Reflexão - 21

Depois, surge do caos o necessário, e as palavras, que não são o que dizem, mas sim o que queremos que elas signifiquem, voltam a desenhar luzes no céu. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sonho clandestino

Desce, a lua cálida,
sobre as águas inquietas da lembrança
que dança no teu lugar.
Descalça, a fonte entorna-me
os passos do olvido amor,
sobre a folhagem seca das ruas solitárias
que vagueiam em mim.
Faz frio e os meus ossos quebram,
os sapatos estão velhos
e o abraço do asfalto que me espera,
acelera a tua imagem, num tropeço inesperado,
pelo sonho transportado
clandestinamente - de onde vim?

Na carruagem do fim, viajas tu
em contra-tempo, 
correndo por um momento
de pensamento...
presença em mim.

 

 

 

 

 

domingo, 4 de novembro de 2018

(A)mar não acaba

Amar não acaba...
e eu sou breve e trausente,
do peito ao jeito da lembrança
que se olvida no olhar de quem passa,
ausente de mim. Lá fora, na solidão
vagabunda dos peitos morredouros,
existem rostos, crianças antigas 
pela mão da veraz honestidade
da infância perdida.
Amar não acaba...
e o meu vestido desfolhado,
a nu me deixou o peito amargurado
e singelamente desfeito,
no leito triste da prevaricação do homem
passageiro de si.
Amar não acaba...
e as paredes transbordam de mim;
no lugar de quem se foi, de quem me fui,
sentou-se a saudade ao pôr do sol,
içada pelo mistério da lua 
que te abraça a janela estreita.
Amar não acaba...
e o esquecimento tudo me aviva
veloz, na pele dos recomeços, 
à deriva... 

O (a)mar não acaba...
E eu... com ele me findei.

 

 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...