São-nos necessários alguns anos, lutas, chagas e tropeços para compreender que a nossa maior riqueza é a evolução, o sentimento de realização e a paz que isso nos tráz.
Da mesma forma, são-nos necessários alguns capítulos de vida para que possamos atingir uma certeza fundamental: a maior pobreza é a de espírito e a necessidade de afirmação pelo lado material. Não, não é ao acaso que todos conhecemos a expressão "existem pessoas tão pobres que a única coisa que têm é dinheiro".
O caminho, mais ou menos sinuoso, vem ensinar-nos que a maturidade é saber valorizar cada conquista e o sacrifício a ela inerente, agradecer cada obstáculo e as lições retiradas dos momentos mais difíceis. É saber valorizar apenas e só o essencial, o leve, o verdadeiro e puro, o que se faz sentir e que, por isso, faz sentido. É saber seguir a direção certa e o caminho da verdade interior. É saber fazer o certo e ser, amanhã, melhor do que hoje. É seguir o fluxo sem o desgaste de lutar contra a maré, porque com o tempo tudo se acerta.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Tudo nos é necessário
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Tenho um baloiço de corda suspenso numa nuvem
Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes.
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.
Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira não me permitia olhar além, para lá do horizonte comum. Aprendi, então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão é uma das mais-valias destes sapatos.
Hei-de mostrar-tos, quando me cruzar contigo num final de dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.
É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.
Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois.
É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.
Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos subimos mais alto e tocamos o céu.
Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. Tu reparas. E sorris ao interpelar-me:
- Não me mostraste os sapatos!
- Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.
A normalização como absolvição colectiva
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...