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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização.
Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comentado, criticado e debatido, mas deixa-se de agir sobre ele. É nesse momento que a normalização deixa de ser um fenómeno psicológico para se tornar um fenómeno social, político e moral.

Um dos exemplos mais evidentes do nosso tempo é a degradação do discurso público.
A mentira deliberada, a agressividade permanente, a simplificação de problemas complexos, a substituição do argumento pelo insulto ou a transformação do adversário em inimigo. Nenhum destes fenómenos é novo. A novidade reside na sua amplificação e na rapidez com que nos habituámos à sua presença.

Comportamentos que, há algumas décadas, teriam provocado indignação prolongada, hoje cingem-se a curtos ciclos noticiosos. O escândalo é substituído pelo escândalo seguinte, a transgressão pela transgressão seguinte, o caso mediático de hoje pelo caso mediático do dia seguinte. Isto acontece não porque a gravidade se extinga, mas porque a familiaridade atenua a reação coletiva que anteriormente produziria consequências. E quando a indignação desaparece, há um factor que desaparece com ela, a exigência.

Esta supressão da exigência está igualmente patente naquilo que a sociedade espera dos seus representantes, dos meios de comunicação, das instituições e até daquilo que os cidadãos esperam uns dos outros. Quando essas expectativas se degradam, a democracia degrada-se com elas. Basta pensar que a democracia não assenta apenas em eleições livres, instituições sólidas ou separação de poderes. Assenta também nas expectativas colectivas que os cidadãos constroem acerca do funcionamento dessas instituições.

Percebemos, pois, que o verdadeiro perigo da degradação do discurso público não reside apenas na qualidade do debate. Reside no impacto que essa degradação produz sobre as próprias democracias. Quando essas fronteiras se tornam difusas, não desaparece apenas a qualidade do debate, diminui a confiança, enfraquece o escrutínio, reduz-se a participação cívica e o espaço público torna-se progressivamente mais vulnerável à manipulação emocional do que à argumentação racional.

Esta preocupação não é meramente teórica. A própria OCDE tem vindo a alertar para os riscos que a desinformação, a polarização e a degradação da integridade do espaço informativo representam para as democracias contemporâneas. No relatório Facts not Fakes, a organização identifica a erosão da confiança nas instituições, a dificuldade crescente em construir consensos sobre problemas colectivos e o enfraquecimento da capacidade das sociedades responderem a desafios complexos, como algumas das consequências associadas à degradação do ambiente informativo.

A questão é particularmente relevante na medida em que o sistema democrático carece de uma realidade minimamente partilhada que permita aos cidadãos discordar sobre soluções sem deixarem de concordar sobre os factos fundamentais.

Nesta perspectiva, a capacidade de estranhar constitui uma forma de vigilância democrática. Afinal, os padrões que uma sociedade normaliza acabam, inevitavelmente, por se institucionalizar. Quando deixamos de esperar elevação no debate, deixamos também de a procurar, adaptando-nos progressivamente à sua erosão.

Em suma, uma sociedade que se limita a adaptar-se perde gradualmente a capacidade de se transformar. É aqui que a normalização produz o seu efeito mais profundo: alterar os horizontes do possível. Por outras palavras, leva a sociedade a confundir aquilo que é frequente com aquilo que é legítimo.


"Ver aquilo que está diante do nosso nariz exige uma luta constante."
- George Orwell - 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Aquieta-te

Remete-te ao silêncio,
se não são de paz, as palavras.
Subjuga-te, entrega-te, aquieta-te
se alumiar não consegues e prossegues
ultrajando razões de assim não ser.
Remete-te ao silêncio do pensamento,
sem insultos,
sem julgar ou apontar, das mãos,
os dedos infusos
sem noção ou condição de acurar
o chão presente.
Dorme sobre as trevas e limpa a vidraça.
Olha para dentro, para trás, para o espelho.
Aquieta-te!
No eco do ruído desmedido
o mundo estremece e tudo acontece,
ante o nada e o que parece ser.

Palavras e punhais,
quem salvais?
Remete-te ao silêncio!

domingo, 21 de dezembro de 2025

Os outros, nós e a empatia

🖊 Estranhos são os tempos que atravessamos, onde a capacidade empática parece assumir o comando das habilidades a desenvolver, para que nos mantenhamos à tona e possamos auxiliar outros nesse processo.

Falar de empatia é, muito provavelmente, falar de uma das funções mais importantes da inteligência humana, intimamente relacionada com a maturidade de cada um e com a gestão das emoções.

Ser empático é poder usar a capacidade de abertura para conhecer a realidade do outro e conseguir intepretá-la, assim como compreender tudo o que é comunicado e expresso através de palavras, ou de formas de expressão não verbais. Não é necessário que se tenha, em algum momento, experienciado, sentido ou vivido um capítulo idêntico, é apenas necessário estar disponível à conexão.

Sem praticar o julgamento precipitado, um ser empático procura auxiliar e compreender o comportamento alheio, em fragilidade, conseguindo estabelecer entre o próprio e o outro um equilíbrio entre aquilo que dele se espera e aquilo que esse alguém lhe poderá, efetivamente, oferecer. Colocar-se no lugar do outro, por outras palavras; o que não é tão fácil quanto possa parecer, embora nos seja, diaria e repetitivamente, imposto.

Ao longo da História, a humanidade sempre evidenciou dificuldade em lidar com a diferença, criando, nas sociedades onde se insere, lugares cativos que crê serem apenas destinados a outros, desde logo às minorias. Por consequência, tanto a alteridade como a empatia, por serem habilidades complexas com necessidade de desenvolvimento e trabalho ao longo da vida, dão lugar à facilidade e à necessidade recorrente de classificar cada qual nesse seu lugar diferente.

E que lugar é esse? É o lugar dos fracos, da mulher, dos pretos, dos brancos, dos homossexuais, dos inválidos, dos inteligentes, dos menos dotados, dos doentes, dos loucos, dos diferentes - resida a diferença naquilo que for.

Para que nos seja possível a colocação num outro lugar, que não o da nossa situação e condição, é-nos absolutamente necessária a abertura, a consciência e a racionalidade. Sem elas nunca nos será possível o auxílio, a compreensão de comportamentos, sentimentos e emoções.
Com clareza, não nos será possível saber nada a respeito de experiências que não foram por nós vivenciadas. Todavia, será sempre possível estar disponível a acolher e ouvir a experiência do outro, permitindo que a pessoa se mostre como é e seja quem ela é, aceitando que os resultados das acções e das experiências dependem de vectores diversos com influência no nosso caminho e não apenas de factores individuais, como a responsabilidade pessoal e a determinação.

E se fosse contigo?

 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

O dia depois de ontem

Acordado o país, após apagão, as posições sobre o acontecimento parecem dividir-se e opor-se. Imagine-se, até extremar-se, como "bom" sinal dos tempos.

De um lado a paz e o sorriso tranquilo daqueles para quem o dia foi de libertação, de regresso à base da vida, à tranquilidade, à família, aos cheiros e sabores de outrora, ao tempo para ter tempo, aos sons e vozes desconhecidos - quantas vezes inaudiveis no correr dos dias - ao passo calmo nas ruas, parques e paredões, à partilha e comunhão com vizinhos e à possibilidade consentida de desligamento. Contudo, conscientes dos desafios enfrentados, dos constrangimentos causados, do desdobramento de meios humanos nas várias frentes onde se exigia acção e onde nada parou, nem podia parar. 

Do outro lado, por oposição, a exaltação e o descontentamento imponente, perante a romanização dos primeiros face a um evento caótico, à falha das comunicações, ao açambarcamento nos supermercados, à inactividade tecnológica, à impossibilidade de estar "on" e no controlo descontrolado de um mundo ao segundo, de não saber o "depois" por exposição ao imprevisto mas, também, e especialmente, a revolta por haver quem tenha, apesar de tudo, preferido ver, sentir e viver o lado mais positivo do "blackout".

Claro que poetizar o evento não será sensato, até porque o prolongar da situação teria impactos irreversíveis, contudo, parece-me, reflectir sim, é necessário. 

Reflectir sobre a extrema dependência energética e tecnológica dos nossos dias, reflectir sobre a forma como os vivemos e estamos sistematicamente ligados a tudo e a todos, excepto a nós. Reflectir sobre a forma como se tornou um vício controlar tudo à nossa volta - e dar por nós constantemente a fazê-lo. Reflectir sobre o quanto isso é apanágio do medo do desconhecido e efeito placebo para o tanto que não controlamos.

Vivemos a fugir do desconforto de não estar a par, principalmente do que acontece no mundo, agarrados a uma falsa sensação de segurança trazida pelo imediatismo da informação ao segundo, ainda que, essa mesma informação possa não ser fidedigna, confirmada, transparente ou total. Porque sim, apesar da torrente, aquilo que sabemos ou julgamos saber é uma ínfima parte da realidade do mundo. Todos somos vulneráveis e insignificantes se expostos à escala da História e contexto Mundiais.

Certo é que, ontem, as nossas inseguranças tiveram espaço para se fazer sentir. Demos-lhe palco, ao invés de as retrair ou camuflar através dos ecrãs, da falta de tempo, de espaço e da azáfama diária. Mas a vida é isso, é exatamente aquilo que não controlamos, um círculo bem mais lato. 

E creio que sim, que andamos todos a correr como loucos, para chegar não sabemos onde, num passo desmedido, numa ânsia desenfreada por encontrar respostas e soluções para tudo, sem perceber que o efeito é contrário e perdendo o essencial pelo caminho: a saúde, os momentos, as pessoas, os gestos, o tempo, o sabor da passagem e o seu significado. 

Ontem, apesar de todos os apesares - e onde incluo todos quantos foram chamados a agir na frente de batalha, nos mais diversos sectores e circunstâncias - foram muitos os que tiveram a oportunidade que raramente têm, no correr dos dias, de usufruir da sensação de paz do desligamento, da presença dos seus, da liberdade da rua, das vozes de vizinhos e estranhos, do barulho das crianças ao lar livre - cada vez mais raro, dos sons sem ruído, dos cheiros antigos e do daquilo que a vida é quando se resume ao simples e essencial.

Isto não é romantizar, é constatar que a humanidade caminha no sentido errado e que é necessário equilibrar. 

 

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Claustrofobia Racional

 

"A minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro".

É cada vez mais frequente o ataque, a crítica infundada, o destilar ódio em todas as frentes, a retórica tantas vezes enfurecida com que se ataca uns e outros, no conforto das trincheiras, (atrás de um ecrã).

Num espaço sem rei nem lei (as redes sociais), onde a promoção da intolerância é gratuita e onde a supremacia às massas (nem sempre pensantes) pertence, o discurso incendiário a nada mais serve se não ao proveito político dos seus defensores, tanto em democracias liberais, como nos regimes autoritários.

Frequentemente confundida com liberdade de expressão, a maledicência padronizada e assente na desinformação e desrespeito pelos direitos e valores fundamentais, exacerba posições de resistência e/ou intolerância face ao "outro", sem que sobre espaço à reflexão sobre quem, afinal de contas, o é.

O "outro" somos nós, todos e cada um, numa ou em várias circunstâncias da vida. Com lugar atribuído, o "outro", que não é contrário à pluralidade humana, nem serve de base à violência irracional e defendida por quem se considera em patamar superior, vê-se estrangulado por críticas, ataques, ofensas directas, ameaças, suposições, boatos e inverdades lançadas à luz da nova Inquisição, num único propósito: o enfraquecimento, afastamento e silenciamento do "opositor" (enquanto o ruído mesquinho e crescente impede a voz da decência, da verdade e da informação).

O ódio sempre teve pressa e nunca soube respeitar lugares, tempos e espaços (à semelhança de alguns). Num atropelo voraz, avança sobre quem se lhe não agrada, diferencia, ou confronta, na ânsia de se lhe derrubar os pilares (falemos dos democráticos, familiares, profissionais ou outros).
É pois, óbvio, que em tempos que avançam, velozes, tecnológica e cientificamente, sem que acompanhá-los "em directo" seja possível, o Homem recue, numa irracionalidade gritante e preocupante, quantas vezes claustrofóbica e egocêntrica, corroendo os valores partilhados, a estabilidade e a dignidade humanas.

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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Porquê dos Porquês

Os acontecimentos recentes e repetitivos em sectores sensíveis do panorama nacional, têm criado, à semelhança do que temos visto acontecer noutros países, com maior ou menor grau de influência, um clima de insatisfação, contestação e suspeição relativo a instituições e figuras nacionais de relevo, que, face à sua posição e aos valores sociais que nos regem, seriam, à partida, por nós, colocados acima de qualquer suspeita.



A verdade é que somos, ainda, e apesar de tudo, um povo brando e romântico, sem prejuízo de, por vezes, se nos acender o pavio, esse que tão rapidamente se inflama e queima como se apaga. E é esta dualidade experimentada que nos tranca o pensamento, quantas vezes em becos sem saída, impedindo-nos de distinguir o principal do acessório, eliminando o segundo. Este confronto interno de chama rápida, que nos condiciona a lucidez para pensar de forma crítica, tem sido o alimento do populismo e do radicalismo ideológico sagaz, presente à hora certa no momento exacto, servindo de combustível à labareda inicial. A par disso, é notória a dificuldade com que olhamos e pensamos os acontecimentos de forma crítica, não colocando em causa o que vemos, lemos e ouvimos, numa óptica de afastamento para análise e compreensão naturalmente diferente, consoante a perspectiva e o contexto nacional ou internacional, de acordo com o presente da História. Porque sim, os ingredientes estão todos lá, há anos, mas a ignorância quase sempre se adianta e se apressa.


Certo é que nos é impossível tomar decisões acertadas sobre o que quer que seja que não conhecemos, assim como não nos é legítimo tomar ou não partido de algo sobre qual não se detém real conhecimento. E isto é válido, inclusive, para as avaliações e análises de “especialistas”, não extremistas, mas, por vezes, tendenciosas e pouco transparentes, que possam não ter por base o legítimo conhecimento de causa. Porque pensar que dominamos todos os assuntos e temáticas e que controlamos o ambiente à nossa volta é absolutamente falacioso.



Vivemos na Era virtual e instantânea, onde o rol de informação e conteúdos nos cresce nas mãos e onde os algoritmos estão montados para nos prender e sugar a atenção. Não há tempo para pensar pela própria cabeça nem para filtrar informação, assim como deixamos de estar disponíveis para a importância das percepções e da observação da realidade à nossa volta. Os ecrãs roubam-nos muito, desde o pensamento, à verdade, passando pelo poder de observação.

Porém, a evolução das sociedades não deixa de estar intimamente ligada aos meios de transmissão de informação, sobretudo digitais. Existisse esta capacidade de dissociar o principal do acessório, a verdade da inverdade, a propaganda da informação, a manipulação da fonte segura, a coerência do oportunismo e a sociedade ganharia maior consciência da sua irrelevância, ausência de influência e da sua falta de importância.

No entanto, sucede que as redes sociais colocam-nos a todos no mesmo patamar, igualando-nos, influenciando-nos a seguir as mesmas modas e tendências, desviando a nossa atenção para conteúdos virias pouco idóneos, permitindo que se diga tudo aquilo que se tem absoluta liberdade para dizer, sobrepondo-se esta liberdade à responsabilidade do acto e evitando a discussão de assuntos que importam e impactam a sociedade e que exigem, realmente, ser pensados. É inequívoco o contributo envenenado das redes sociais na uniformização do pensamento.


Isto leva-nos ao ponto seguinte que é o nosso entendimento sobre uma possível crise de valores, que nos parece tão antiga quanto inultrapassável, por ser de abordagem sistemática, mas sobre a qual não temos opinião firme. A verdade é que o conjunto de mudanças velozes e permanentes nos vários sistemas e tecidos sociais, políticos, profissionais, ideológicos e económicos nos afectam, criando um desequilíbrio ao nível do entendimento sobre quais são, efectivamente, os valores pelos quais nos regemos enquanto sociedade.


Será isto uma crise ou uma transformação? Será ela o apanágio da liberdade ou a sua ameaça enquanto sociedade democrática? Talvez nos seja apenas necessário mantê-la sob vigilância, enquanto as mutações vão acontecendo e o que tem que se acertar acerta, para que os valores e pilares fundamentais não cedam, por forma a tentar criar condições para fomentar uma cidadania activa consciente, baseada no conhecimento, na justiça, na solidariedade, na ética, no respeito e na inclusão. E aqui, o ensino assumirá sempre um papel preponderante, uma vez que é através da educação e da promoção da literacia que as sociedades evoluem construtivamente, adquirindo os mecanismos e ferramentas necessárias para lidar e enfrentar a mudança e o desconhecido.


Será, pois, então, verdade que, sobre o que não sabemos não perguntamos, mas será igualmente verdade que por sabermos, de antemão, algumas respostas, não formulamos as devidas perguntas. Porque acaso o fizéssemos, obteríamos as respostas que nos obrigariam a agir sobre a causa e é isso, em geral, que não queremos ou evitamos fazer.


Nas palavras de Valter Hugo Mãe "(...) podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. As ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. Não importam. As liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. Sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. É um dado adquirido (...)"



quinta-feira, 1 de julho de 2021

Pequenos Artistas e os Ciclos de Invisibilidade

A Arte é transversal à sociedade, não escolhe raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual. A Arte nasceu com o ser humano, não sendo anterior nem posterior a ele. Parte integrante da formação e desenvolvimento dos povos, possibilitou o diálogo entre os indivíduos, a começar pelas figuras rupestres presentes nas paredes das cavernas. Mutou-se, ao longo da História, influenciada pelas transformações sociais com impacto directo no acto da criação artística, impacto esse que varia (e variou) consoante as exigências económicas, sociais e políticas do momento ou contexto vivido.


Profícua, a Arte sempre possibilitou a aproximação entre o criador e o observador, dotada de uma componente pedagógica capaz de aguçar, promover e desenvolver o pensamento crítico e a abertura ao novo, ao próprio e ao outro.
Do tradicional ao contemporâneo, passando pelo digital, novos e inovadores objetos artísticos são criados diariamente, marcando e definindo a identidade de um povo: fale-se de um país, província, cidade, região ou território. Certo é que a Arte informa, denuncia, liberta, comunica, move e conecta. Mas, sobretudo, a Arte humaniza.


Limitar a Arte ou o artista, assim como limitar-lhes o acesso, seja em que contexto for, nada mais é do que limitar a Liberdade. A discriminação fere o âmago da essência humana. Tratar alguém de forma diferente simplesmente por ser quem é ou, quiçá, pelas suas convicções ou crenças é, também, perpetuar o preconceito baseado em conceitos de identidade. Esta necessidade de anular, silenciar ou censurar nasce, muitas vezes, da não pertença de um indivíduo a determinado grupo, não sendo necessariamente verdade que lhe seja oposto, porque a neutralidade é, em muitos casos, uma virtude.



O papel dos pequenos artistas, ou dos que não sendo pequenos não são apoiados (e entenda-se por pequeno o grau de projecção) é tão importante como o de outro qualquer. Fazerem-nos crer que qualidade é sinónimo de escolha, protecção, interesse ou perfilhamento, é errado. Tal como é errado limitar a Cultura de um território a duas ou três vertentes. Porque somos sempre mais do que aquilo que nos fazem crer. Somos o que temos, mas somos também o que teríamos acaso nos fosse permitido sê-lo. 
Difícil de entender? A falta de diversidade e a sub-representação de artistas locais é uma realidade. Não de agora, mas contínua. Tal como o são as desigualdades estruturais e a posição privilegiada de alguns (sem lhes retirar mérito, porque o têm. E não é isso que está em causa, tão pouco o valor do seu trabalho). Persistem as assimetrias na representação artística da região, é inquestionável. Sendo necessária e urgente uma acção contínua e sistemática, de forma a operar uma mudança estrutural e atenuar os efeitos de interesses camuflados.
Impõe-se não perpetuar um entendimento parcial da História da Arte e da actual produção artística (regional e nacional). A teimosa tendência de programação elitista tem a ela associada a clarividência de que a voz de uma parte significativa da população não interessa ser ouvida. E aqui, na mudança, todos os profissionais da arte têm responsabilidade. A consciencialização parte de todos e precisa de todos.


É urgente travar os ciclos de invisibilidade, a que não são alheios os mecanismos sociais de discriminação institucionalizada. É dever geral garantir a igualdade de oportunidades e de tratamento, a todos e para todos, independentemente da raça, etnia, nacionalidade, religião, convicções políticas e ideológicas, idade, género, identidade ou orientação sexual dos artistas.
A Cultura somos todos. A Cultura é para todos. E não somente para alguns.


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sábado, 27 de março de 2021

A política, o indivíduo e a sociedade

Ainda me dizem: "Vem por aqui"


Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).


A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.


Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"


"E nunca vou por ali"...


Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).


Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.


A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.


O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.


Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".


Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.


O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.


Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.


 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Aqui chegados, extraditemo-nos!

 


A propósito de um tema inflamável, e em debate público nos últimos dias, dizia Luís Pedro Nunes, no Eixo do Mal, que vivemos tempos onde o "ódio de trincheiras" é alimento das redes sociais.


E se, por um lado, é verdade que confinados a quatro paredes, com demasiado tempo livre, nos é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática nacional, também é verdade que nos remetemos, nós próprios, à condição limite de permanecermos "fechados em casa a olhar para o Facebook a destilar ódio de pouca razoabilidade".
Chegados a este ponto, talvez importe questionar e/ou reflectir sobre que sociedade e cidadania queremos ter e sobre aquela que efectivamente se nos apresenta (e que integramos).


Um dos pontos críticos da democracia portuguesa, sabemos, é a falta de sociedade civil ou, mais recentemente, da sua aparição (ou deverei dizer destruição?) nos espaços "livres" de discussão, como o são as redes sociais, elevando-as a um falso estatuto de espaço de intervenção social e político.


Numa esfera impessoal, será, todavia, mais fácil dizer-se qualquer coisa, inclusivamente "coisas" que jamais se diriam noutras circunstâncias, ou no exercício de uma cidadania activa, em verdadeiro espaço público de discussão e de intervenção para o efeito. Isto acontece porque, o que realmente ali se passa, não é um diálogo presencial entre dois ou mais seres humanos, não são pessoas quem ali se apresenta, não verdadeiramente. Na realidade, há também lugar a falsas identidades.


Nesta perspectiva, engane-se quem, adoptando semelhantes posturas, considera ser um cidadão activo no exercício dos seus direitos.
Nunca as redes trouxeram à tona o melhor das pessoas, mas sim o seu pior, sem que as próprias tenham a capacidade de o avaliar e perceber. Falta empatia, igualmente necessária à democracia.


Sob o olhar atento das "almas vigilantes", rara será a notícia ou a partilha noticiosa, onde não se encontre desde o mais estapafúrdio comentário, à ofença gratuita, à difusão do ódio, passando pela mais orgulhosa opinião descabida de razão ou conhecimento (não contendo, por isso, nada de construtivo, tão pouco uma aparente solução). O ataque a tudo e a todos ganhou terreno e claro, sabemos todos, onde isto irá parar.
Certo é que quanto mais tensão ideológoca se propaga nas redes, mais pessoas nelas circulam. Assiste-se, portanto, a uma polarização da sociedade, à produção e imposição de visões vada vez mais extremistas e à difusão de fake news, bastante convenientes àqueles que têm neste campo de batalha o seu espaço e voz política.


Mas o que mais me intriga, porque me é impossível passar ao lado de um fenómeno que a todos nos arrasta para onde, na verdade, não queremos assim tanto ir, não é constatar que quem mais dispara são aqueles que mais se rebelam contra as políticas de cancelamento que lhes possam limitar a liberdade de expressão, o chamado políticamente correcto que, tantas vezes, impede que se diga tudo aquilo que se pensa (ou que nem se pensa), e ainda bem. O que mais me intriga é assistir à contradição de posturas, conforme o tema ou situação, mais ou menos favorável aos ideais com que os atacantes se apresentam em palco público. Se por um lado se defende de forma acérrima a liberdade de expressão, por outro (e não quero aqui entrar em debate sobre o tema nem o vou alimentar) condena-se à extradição um cidadão português que ousa dizer aquilo que pensa, independentemente de qual seja a sua visão/posição/razão/opinião. Não estaremos nós a fazer o mesmo? Que coerência?


Ouso dizer que, quando só se vê bem ao perto, se perdem as perspectivas e a capacidade de ampliar o campo de visão. Não se sai da ilha para que a ilha se veja, como diria Saramago. Ao invés, segue-se a direito, contra tudo e todos, incluindo o próprio, sem que seja sua a verdadeira noção de assim o ser, de assim proceder.


Citando o jornalista Daniel Olivera numa frase que muito gostei, "Liberdade sem solidariedade é egoísmo".

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A crise e os Millennials: Não somos os filhos do azar

[Republicação]


Muito tem sido falado e discutido, nos últimos anos, sobre os Millennials (ou geração Y), nascidos nos anos 80 e 90. Uma geração que veio ao mundo já com a tecnologia no terreno, embora incipiente - e que cresceu de mãos dadas com o seu boom de desenvolvimento. A Internet permitiu-lhes a globalização, sendo - os Y - caracterizados por ela. Muito mais abertos à aquisição de conhecimentos e partilha de experiências, foram os impulsionadores de diversas mudanças de paradigma, desde logo ao nível da consciência social e do desenvolvimento de relações, ao nível comportamental, passando pelas causas ambientais e entrando em campos como  o consumo e a forma de consumir, a visão empresarial, o mercado de emprego, o turismo, a habitação e a aprendizagem.


São uma geração, na sua maioria, muito mais capacitada e qualificada do que a anterior, com um sem fim de possibilidades e oportunidades para vingar, mas que "por azar" - como tem sido escrito em variadíssimos artigos - enfrenta agora uma segunda crise económica no espaço de doze anos. "É inédito" - outra das expressões que muito se encontra -. É, de facto, inédito, mas também comprometedor. É inédito e desolador. É inédito e, "por azar" apanhou os mesmos, quando finalmente estavam a conseguir equilibrar-se num casco desgastado e fino, depois do confronto com uma longa tempestade que lhe toldou sonhos, metas e projectos de vida.


[A nossa voz]


2008 não ficou para a história. 2008 imortalizou-se na identidade de cada um de nós, nas nossas feridas e desesperos, na amputação do futuro, na reinvenção constante que nos foi sendo imposta e dal que fomos capazes, nas lágrimas dos nossos pais (ao verem cair por terra muito do que haviam ambicionado e construído para nós, através dos seus esforços e lutas).


Nós, os Millennials, somos uma geração fadada para a reinvenção, para os desafios e para a inovação, graças ao engenho e à arte de nos desdobrarmos sistemáticamente. Porém, é nosso o fado da "geração à rasca" - ou "rasca" como também nos designaram - que se viu a braços com a era dos recibos verdes, do desemprego jovem, da precariedade de trabalho, auferindo salários substancialmente mais baixos do que a anterior geração (para as mesmas funções). Uma geração sem horários e escrava do medo de não corresponder ao que é esperado por parte do empregador, embora consciente de que 6 meses de vínculo não lhe garantem fixação. Uma geração que conhece o sabor amargo da falsa independência e dos obstáculos, quantas vezes intransponíveis, que se lhes colocam a cada nova tentativa de conquista da independência, por exemplo, na aquisição de habitação. (Se há os acomodados, há os que aos 30 anos ainda não reunem garantias essênciais para abandonar a casa dos pais, seja por falta de condições económicas e profissionais para contrair crédito, seja pelo preço crescente da habitação, ou pelos valores praticados no mercado de arrendamento).
Diz-se, frequentemente, que não colocam alma e risco naquilo que fazem e que se propõem fazer, sendo esquecidas todas as marcas que trazem, todos os tombos, todas as nódoas negras ainda visíveis e todo o receio que os domina, fruto de vivências dolorosas. Diz-se que planeiam demasiado, que não arriscam sem ponderar excessivamente, que vivem o seu presente com restrições que lhes impedem o salto... mas, e todas as quedas, faltas, carências, dificuldades vividas, cujas marcas permanecem?


Foi violento o nosso começo de vida e violento serão os próximos tempos. Se há estudos que afirmam que são precisos dez anos para superar os efeitos nefastos de uma crise, "por azar" iremos precisar de vinte, ou não estejamos a falar de duas crises extremamente violentas num curto espaço de tempo. Vinte anos de uma guerra interior e sofrida, de aflição e momentos de dúvida e privação, vinte anos de dependência de outros (hajam pais), vinte anos de incerteza, de quedas consecutivas, de precariedade, desemprego, fome, de vida adiada de futuro hipotecado. Vinte anos...


"É inédito" e não somos "rascas", tão pouco filhos do "azar". Somos a geração que nasceu da mudança e para a mudança, onde habitam sonhos, horizontes, desejos e metas... novamente comprometidos.


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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Desigual

[Canção]


Era o sol nascente,
mais uma manhã,
num mundo exigente
puxando a corrente
futuro presente,
cela de amanhã.

Era a agitação fiel
e o burburinho,
o canto das aves sempre baixinho
e as flores já não davam mel.
Era o trânsito arrastado,
homens de olhar apagado,
mulheres de rosto cansado
e crianças sem brincar.
Eram janelas estridentes
vozes iradas, descontentes
horas tardias, negligentes
apatia do luar.
E sempre que o mundo
no horizonte se punha,
era o cansaço quem se impunha,
era tempo de abrandar.

Era uma manhã desigual
adiada a rotina
mal lida sina
p'la cigana ao passar.
Eram quatro, as paredes
lotadas de gente
de outra gente carente,
varandas por quintal.
As lojas fechadas,
grades nas fachadas
dos prédios elegantes
nascidos de fronte para o céu.
E é agora réu todo o afecto
que não sob o tecto
do coração que sustém o véu
à noite insone.
Paira uma nuvem de incerteza
sobre cada cabeça;
tudo deixou de ser colorido.
E num futuro dorido,
não ficará tudo bem.

O telefone toca,
a televisão alerta,
o medo disperta
e o trabalho de ontem ainda está por fazer.
Os miúdos não comem,
são tantos os que morrem!!!
É preciso não esquecer
que outros há, ao relento
sem pão, sem alento
nem abraços onde se recolher.
Ninguém nas ruas
tudo deixou de ser...
e parecem já suas
as razões do anoitecer.

- Mãe, como é que cabem tantos mortos no céu?

 

 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Norte e Alentejo, semelhanças nas diferenças

Sou uma alentejana apaixonada pelo norte. Especialmente pelo Porto e toda a região vitivinícola demarcada do Douro. Poderia escrever sobre isso, talvez ainda o venha a fazer, mas o que hoje me faz reflectir aqui, neste espaço de partilha, prende-se com a reportagem transmitida ontem pela TVI que, espantosamente, concluiu que em termos epidemiológicos a pobreza e a educação são factores preponderantes de transmissão de Covid-19, ilustrando a questionável reportagem com uma imagem da cidade do Porto.


Após leitura do post do Dr. Rui Moreira, em resposta a esta reportagem, cuja leitura aconselho (aqui), dei por mim embrulhada numa análise reflexiva sobre o quanto a região Norte e o meu Alentejo são semelhantes nas suas diferenças. E escrevi o seguinte:


 


No meu tempo (e neste tempo à deriva que passa diante de si próprio e não sei a quem pertence), havia um país pequenino à beira-mar plantado. Um país tão pequenino, que era possível percorrê-lo de norte a sul em cinco horas. Mas, também, um país, por vezes, tão mais pequeno que era possível, pelo senso rudimentar de alguns dos seus habitantes, reduzi-lo a uma área não superior aos metros quadrados da sua própria habitação. Um país tão pequenino, que era possível, imagine-se, ao poder político esquecer algumas das suas regiõe, por tão diminutas, subtraindo mais um bocadinho de terra sistematicamente.


Um país tão pequenino, que a própria comunicação social ousava fragmentar ainda mais, em tempos onde o tempo já não pertence a ninguém.
No meu tempo havia um norte trabalhador, suado, historicamente abandonado, educado, resiliente, entregue a si próprio e sustentado pelo investimento privado, pela visão, persistência, insistência e acção de alguns. Existia um norte cuja história não foge à realidade da história do sul. Deste meu Alentejo à deriva e descurado, tão grande e quase invisível. De gentes que lavram o próprio pão, que trabalham o triplo para conseguir alguma coisa, de suor e lágrimas, de persistência e igual resiliência, de superação e reinvenção em circuito permanente, mas sem a sorte de igual sustento, numa escala equalitária, por parte do investimento privado. Um Alentejo onde também não falta educação, visão, nem exemplos de acção, de vontade, de revolta e superação. Um Alentejo onde o sonho é sempre maior do que a sorte.


No meu tempo havia um país onde se tiravam conclusões epidemiológicas baseadas em premissas como educação e pobreza, transmitidas na televisão.
Um país onde, quantas vezes, é a pobreza, também ela, vítima de centralização. Sim, a pobreza de espírito. Um país onde a educação seja ela cultural, política, científica, emocional, educativa ou social (baseada nos princípios que defendem os Direitos Humanos e nos pressupostos da vivência numa sociedade democrática) deverá ser acessível a todos, de igual forma de norte a sul. Sob pena de se disseminarem, por falta dela, outras epidemias sociais e cívicas, quiçá, mais perigosamente atacantes e nacionalmente contagiosas.
Porque, não nos esqueçamos, num país tão pequenino, contempla-se o umbigo em Lisboa, põem-se os olhos a norte e as costas permanecem voltadas a sul.


Não. Não é a educação, nem a pobreza.
É a pequenez cada vez mais pequenina e poderosamente centralizada, em Portugal. 


 


 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Material vs Espiritual na superação da crise

AVISO: Leitura potencialmente perigosa, pela complexidade da mensagem reflexiva que se impõe.
Não aconselhável em caso de incompreensão da mensagem, via poética, que habitualmente trago.



Nodecorrer dos dias, e ao longo dos tempos, mantivemos com o “material” uma relação de dependência que, equivocamente, nos concedeu uma falsa sensação de poder, de posse ou de superioridade, como forma compensatória.
Vivendo exteriormente, para a imagem, para as rotinas e consequente recompensação, fomo-nos afastando de nós, dos nossos propósitos, daquilo que somos, do que gostamos, do que nos mantém unos, de tudo o que verdadeiramente nos impulsiona, acrescenta e atribui sentido à existência. Passámos a ser (porque também assim nos apresentamos) um determinado título, uma profissão, o vizinho do carro vermelho, o dono da empresa X, a mulher/marido de Y, o indivíduo que veste fato... mas quem somos, por trás do acessório?


A realidade que à data vivemos, entre outras premissas, veio mostrar-nos o quão frágeis e vulneráveis somos face a acontecimentos extrínsecos, incontroláveis e imprevisíveis. Veio fazer-nos pensar na insignificância do valor “material”, que em nada nos diferencia, diante de um cenário de pandemia que se abate e que a todos nos designou como alvo. Veio lembrar-nos da importância de nos questionarmos sobre três do mais importantes lugares da vida:


1 - Para onde nos dirigíamos?
2- Onde ficámos? Ou onde estamos?
3- Para onde queremos ir?


Veio fazer-nos sentir que o conforto se adquire materialmente, mas que, em confinamento, só nos confortará o que espiritualmente formos capazes de atingir (não por via religiosa), na procura pelo equilíbrio emocional. E isso não se compra.


Presentemente, desprotegidos, diante de uma ameaça invisível capaz de nos levar a nós e aos nossos, sem que exista um critério de escolha, fica o sabor amargo da impotência, perante o choque frontal com a constatação do quão verdadeiramente finitos e pequenos somos.


Resta-nos observar o mundo e observar-nos a nós. Caminhar para dentro e ser capazes de nos encontrarmos connosco, de nos conhecermos no escuro, como à semente que germina no interior da terra, em silêncio, antes de se mostrar planta à luz do dia.
Resta-nos saber olhar para o espelho e ver através dele. Não só o reflexo do presente, mas também o caminho já percorrido, para que, com firmeza, nos possamos questionar sobre o depois.
Resta-nos a esperança, feita de indignação e coragem. Indignação para que sejamos capazes de apreender o que não está bem e a coragem para que o possamos mudar o possível.
Resta-nos a criatividade e a arte da reinvenção.
Resta-nos a observação, sem somatizar a realidade circundante, uma vez que, só dessa forma, será possível reunir a energia (positiva) necessária à transformação do velho em novo.
Resta-nos a iluminação interior, conseguida através da consciência e clareza a respeito da nossa missão, assim como da conservação da vontade e honestidade do seu cumprimento.


Resta-nos ser, apenas, sem acessórios, para conseguir encontrar o caminho da superação, da libertação, do distanciamento a causas externas, mas também o rumo mais certo após a tempestade.
Porque o mundo, esse, continuará no mesmo lugar, mas a vida não.
O que ontem tínhamos por garantido (erroneamente), poderemos já não ter, e aquilo que pretendíamos alcançar poderá já não ser atingível ou real. A sociedade não será a mesma e a crise não será apenas económica, será sectorial e social, com toda a devastação e mudança que isso implica.


E se agora não é altura para nos dividirmos entre fortes e fracos, doravante prevalecerá a força interior. Essa força que vem de dentro e só cresce se ousarmos praticar o auto-conhecimento (por mais que nos assuste conhecermo-nos) . Essa força que só se revela se soubermos para onde vamos e por que vamos. Essa força quantas vezes desnutrida e enfraquecida, camuflada por aquilo que mostramos e/ou gostamos de parecer ser.
Essa força que é preciso alimentar. Essa força que não derruba ninguém, mas ajuda a levantar.


Essa força espiritual não assente no “material” nem na religião. Essa força. A força de cada um. A força de quem se é verdadeiramente.
A luz!


 

domingo, 5 de abril de 2020

Nem mais, nem menos (paradoxos e desigualdades em tempos de pandemia)

Poema reeditado, do qual me recordei após a leitura do artigo de Maria Clara Sottomayor sobre a dedigualdade social em tempos de pandemia. Um artigo cuja leitura aconselho, aqui.


Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco, que exista alguém que a mais se eleve,
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida.
Envolto no sopro de um cobertor de memórias,
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias,
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa de papel onde o coração dormita.

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo quanto por ela passa,
por ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça,
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem senãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita.

Frequentemente largo,
o amargo cheiro das pregas vazias:
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadamos os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu, mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
e os que muito sentem vivem às portas do céu.
- Centésimo andar a contar do vale dos mortos -
Não creio que tenhamos nós mais do quele eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir,
sem sentir que, todos nós temos alguma coisa,
entre nascer e morrer, esse espaço que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos,
mas temos.


 



 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Crise económica: Romantização vs Consequências


Penso, para com os meus botões, na romantização massiva da catástrofe a que temos assistido.



 



1- Deste logo as questões ambientais, cuja melhoria é indubitavelmente uma consequência positiva da paragem abrupta dos vários sectores económicos e da nossa própria rotina, mas que sabemos que não se manterá quando regressarmos à tão ansiada normalidade: necessitaremos de produzir e consumir, de nos deslocar e de produzir desperdício.



 



2- A par, a utópica ideia de que o Ser Humano atingirá o belo e assim permanecerá no pós-guerra, a residir numa espécie de paraíso de campanha. A ideia, compreendo, é necessariamente uma forma de nos mantermos unos no presente, mas não o será a posteriori, no momento em que as consequências sociais da crise se fizerem sentir sem demora.



 



3- Por último, a perigosidade do optimismo económico generalizado, gerado pela incapacidade de nos questionarmos, de analisarmos, de pensarmos e de prever. Consequentemente, de antecipar.



 



Senão vejamos:



 



Segundo a OCDE, a pandemia da covid-19 é o “terceiro choque económico, financeiro e social do século XXI, depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e da crise financeira global de 2008.” Nas previsões inicialmente feitas, a mesma OCDE equacionou o pior cenário: reduzir em metade o crescimento da economia mundial em 2020, situando-o em 1,5%, o que poderia levar à recessão de economias como a europeia e a japonesa. Porém já ultrapassámos consideravelmente o cenário previsto.



 



O Governo aprovou a suspensão, até Setembro, do pagamento de créditos à habitação e de créditos de empresas, para aqueles que comprovarem a quebra de rendimentos devido à crise actual, provocada pelo surto de covid-19. Óptimo. Mas…



 



Embora as moratórias permitam que a prestação (capital e juros) possa ser adiada na íntegra ou parcialmente durante seis meses, “os juros vencidos durante o período da suspensão passam a ser contabilizados automaticamente como capital em dívida.”



O que fará subir o valor de empréstimo, assim como dos respectivos encargos.



Questiono-me se, na altura, existirá disponibilidade financeira nas famílias e empresas, para fazer face a este aumento. Mas não só. Coloco também em questão se serão os portugueses capazes de poupar no entretanto, ou se, por libertação das obrigações mensais, gastarão mais, ou demasiado. Já assistimos ao açambarcar dos produtos alimentares nos supermercados, como um primeiro momento de reacção à situação actual. Seguir-se-à um segundo momento de irracionalidade, quando soar a ordem de soltura e a corrida às férias, aos restaurantes, às viagens, aos produtos de luxo e ao consumo por impulso, do qual estivemos privados, acontecer.



 



Também o mercado de trabalho não se manterá sem alterações. Sofrerá. E muito. Serão inúmeras as empresas que não resistirão. O aumento do desemprego acompanhar-nos-á e as dificuldades das famílias aumentarão. Isto porque muitas das empresas que assegurarem a sua continuidade, reduzirão postos de trabalho. E não existirão moratórias…



Será o salve-se quem puder. A competitividade tornar-nos-á muito menos humanos, muito menos unos, muito menos tolerantes, muito menos passivos e, obcecados com a sobrevivência, deixar-nos-emos guiar muitas vezes por esse mesmo instinto.



 



Relembrar a crise de 2008 talvez nos avive o significado de “olho por olho, dente por dente”.



Num mercado que se revelará selvagem, resistirá e permanecerá quem melhor e mais rápido se adaptar às mudanças.



 



E ainda estarão por pagar as moratórias…



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domingo, 22 de março de 2020

REFLECTINDO SOBRE: Hoje, a semana passada, quarentena, união, fracturação, famílias, individualidade, rotinas e outras coisas


Há uma semana atrás, era nossa a sensação de comando da vida. A sensação de que, se assim o entendêssemos, quase tudo seria alcançável e possível, mesmo quando nos desencontrávamos de nós próprios no meio da rotina, dos sonhos, da ambição ou o dia não nos corresse de feição.


Há uma semana atrás, também nos zangávamos, entristecíamos e gritávamos... mas sabíamos que também isso iria passar.
Há uma semana atrás, tínhamos inúmeros lugares para onde "fugir" de nós, dos outros e dos nossos. Era nossa a certeza de sermos donos do tempo. Era nossa a liberdade da fuga, com que enganávamos as contradições ou a infelicidade que nem sempre se querem combater, enfrentando-as, com tomadas de decisões, quantas vezes difíceis.


Há uma semana atrás, era nossa a certeza de um amanhã à nossa maneira, e de "um destes dias" fazer apenas o que apetece, de ter o tempo e o espaço individual necessário ao bem estar emocional ali à mão, o de saber que na nossa ausência alguém protegia e ensinava as crianças, lhes aturava as birras, lhes dava de comer, para que no final do dia fossem apenas nossos os melhores momentos, brincadeiras e abraços.


Há uma semana atrás, tínhamos a certeza de que as relações implicam cedências, respeito, partilha, adaptação, cumplicidade, amizade, concordância no direito de discordar, capacidade para enfrentar adversidades e o desconhecido. Mas, há uma semana atrás, também conhecíamos o sabor do desalento, do desencanto, do cansaço, da dúvida e da saturação...
Porém, mantínhamos activas as escapatórias possíveis. Afinal, a semana passada, era nossa a convicção da omnipotência.


E eis que, de súbito, sem que os pré-avisos vindos do Globo nos alertassem eficazmente para outro cenário, é nossa a incerteza, o medo, o desconhecido, a instabilidade, a zanga, a tristeza, a inquietação e a insegurança... mesmo dentro da nossa própria casa.


A imposição de uma quarentena trouxe-nos como novidade a necessidade absoluta de recolhimento em família, sem que outra escolha nos fosse apresentada. Sem que a rotina nos alimentasse a vida e nos desculpasse as faltas...


Hoje, é necessário satisfazer todas as necessidades básicas, emocionais e pedagógicas dos filhos, é necessário conhecê-los para além das actividades de fins-de-dia, das birras de supermercado, da sopa que não termina, dos heróis dos desenhos animados, da história antes de adormecer. É necessário suprir-lhes todas as ausências que também se lhes impuseram, controlar os medos, mantê-los saudáveis entre quatro paredes, sendo, para isso, também necessário dispor de doses extra de atenção, dedicação e amor.


Se já são adolescentes, é preciso, de rompante, saber entrar, compreender e viver com o mundo dos filhos, assim como ter estofo para lidar com todas as suas privações, frustrações, opiniões, conflitos, tentando impor-lhes convivência, rotina e hábitos caseiros a que nenhuma das partes estava habituada.


E, a par, vemo-nos a braços com uma relação confinada a um espaço reduzido, onde, se por um lado existe a oportunidade de a reinventar, mediante a descoberta no e do outro, da partilha do tempo outrora ausente, de momentos a dois, da divisão de tarefas, de aprendizagens conjuntas, do olhar mais demorado, da cumplicidade agora mais viva, da presença e das conversas adiadas ao longo dos tempos, é também verdade que o momento que se atravessa é propício a discórdias profundas sem fugas possíveis.


Desde logo a educação dos miúdos, passando pelos hábitos e pelo desmazelo de cada um, da culpabilização do outro, da gestão do tempo e dos recursos, do stress, da incerteza, do medo, da condição, do afastamento que mantinha a união... sem esquecer as fragilidades anteriores da relação, assim como (alguma) possibilidade de descontentamento, desalento, de dúvida, de infelicidade ou aparência...


Mas, pensamos, ainda a semana passada existíamos nós (o nosso eu) ... e o nosso tempo.
________________________


Quero com isto alertar para a necessidade, enquanto seres humanos e, por isso, racionais, de não se romancear demasiado o momento e ter em mente que a realidade de uma imposição abrupta de união poderá, em certos casos, revelar-se fracturante. Isto fará com que estejamos abertos e disponíveis para ajudar, se necessário.


Quero com isto alertar, para que se aprenda com os exemplos dos outros, desde logo com o aumento exponencial dos divórcios na China, assim como dos números da violência doméstica, para que possamos criar as nossas próprias defesas, a fim de evitar o que depender de nós poder ser evitado.


Quero com isto alertar para que o amor, a felicidade e o bem-estar interior são o nosso maior tesouro e que há que ter bem firmes as certezas quanto ao lugar onde queremos realmente estar e com quem. Assim como ser verdadeiros no que à aceitação de factos e acontecimentos reais e diários diz respeito.


Se ainda a semana passada não existia espaço nem tempo para a reflexão, hoje temos todos uma excelente oportunidade de pensar construtivamente na mudança que temos vindo a adiar, na vida e no nosso futuro, para que o possamos criar da forma mais forte, sustentável, unida e feliz possível.
Sendo, também, nosso o tempo de entender que a sorte dá (muito) trabalho e que felicidade está na simplicidade das mais pequenas coisas da vida, quantas vezes à vista, enquanto nos cegamos para elas.


Tenhamos a ousadia de arriscar sermos felizes, porque ainda estamos aqui.


 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Sobre o Amor...

... (nos dias de hoje)

Já quase ninguém quer amar. Quer-se apenas estar, conhecer melhor alguém ou conhecer alguém melhor; quer-se explorar algo que nos desperta interesse ou quer-se somente companhia; quer-se a aparência de não se estar só, alguma partilha (mas não uma partilha por inteiro) ; querem-se sorrisos, mas sem despertar sentimentos; quer-se conforto e segurança, mas sem se estar realmente lá. Querem-se domingos aconchegados, ou fins de semana bem passados, mas sem exceder o convívio semanal. Querem-se palavras de carinho por mensagem, mas nunca os telefonemas sem motivo a meio da noite, quando o pensamento desperta e não adormece sem matar a vontade de ouvir a voz do outro lado:
- Estavas a dormir?
- Estava...
- Liguei apenas para te deixar um beijo. Dorme bem.

Quer-se, mas não se quer... Porque amar se tornou um exercício demasiado complexo e rebuscado, exigente e sujeito a regras utópicas, regulamentado por um código de ética e etiqueta social que nem sempre se encontra ao nosso alcance.

Lê-se aqui e ali que o amor é cor-de-rosa, mágico e perfeito. Que os casais deverão comportar-se como principes e princesas, roçando a perfeição enquanto individualidades e enquanto casal.
Retratam-se as relações como tamanho brio, que qualquer discórdia de ideias deverá ser confitada para não azedar. O amor, nos dias que correm, transformou-se num prato gourmet (não sendo, por isso, servido em todas as mesas, tão pouco acessível a todos).

Mas a magia não é nem está no amor. Está naquilo que se faz do amor, com o amor e pelo amor.
Porque o amor não está no que se mostra ou possui, no estatuto social, num acto de conveniência ou na necessidade momentânea. O amor está no que se sente e se faz sentir. O amor está em se acordar despenteado e não existir preocupação em que nos vejam ao natural, está nas olheiras das noites mal dormidas, está nas preocupações diárias, ou no beijo de bom dia antes de se lavar os dentes. Está no abrigo do abraço roubado. Está em não se ter vergonha do outro, nem de parecer tolo aos seus olhos... Está na indiferença após um dia conturbado, na discórdia e na discussão, em chorar ou chamar a atenção, em enraivecer ou pedir mimo, em conversar sobre tudo e nada, ou no acto de ficar em silêncio. Está no endoidecer, no entristecer, no desencanto e desalento, na desilusão... Em todas as cedências e pedidos de desculpa (com ou sem motivo ou razão). O amor está no café e no filme de sexta-feira à noite, no presente sem motivo, numa festa ou nas loucuras conjuntas de uma noite de copos entre amigos.

O amor está no olhar disfarçado, no sorriso rasgado, no beijo roubado, na presença que nos fascina ou incomoda. Está na falta de coragem para arriscar ou seguir em frente. Está no cheiro da almofada, na camisola emprestada, na carta rasgada... Está nos segredos da madrugada...
Está no negar que em nós ele existe... e no outro também.
Está na simplicidade e é imperfeito, chegando, quantas vezes, disfarçado e sem aviso:
- Quando chegares avisa-me.
- Vai com cuidado.
- Agasalha-te.
- Estás bem?
- Gosto de te ver sorrir.
- Lembrei-me de ti.
- Como correu o teu dia?

Hoje em dia temos à disposição uma multiplicidade de opções e tentações que nos conferem vastas experiências relacionais no curriculum. Tudo se tornou demasiado fácil, fútil, efémero e igual e, por isso, pouco interessante.
Mas, por maior e mais variada que seja a oferta que a vida nos apresenta, não sei se existirá algo melhor do que adormecer nos braços (figurados ou não) do amor. E com o amor a morar em nós...

sábado, 24 de novembro de 2018

Combóio fantasma

 

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Ao meu lado um lugar vazio. Existia sempre um lugar vago, frívolo, carente ou frustrado.
Um homem de fato fingido. Um rosto bem feito de saudade. Uma lacuna de oito centímetros entre um salto alto e um queixo rebaixado. Um olhar translúcido e hiato que me fitava disfarçadamente.

Uma carruagem lotada num comboio que parou. O contraste entre o tom elevado das vozes e os sofridos nós nas gargantas. 

Respirava-se sofregamente, mastigando palavras de desagrado, que se traduziam nas mais variadas frustrações diárias.
Uma revista caiu. Estendeu-se uma mão, que vi desaparecer entre as páginas despidas de vida. Um chapéu voou, na procura da liberdade de pensamento. E aqueles óculos diante de mim, flutuando no ar, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, nervosamente inquietos? Procurariam olhos capazes de ver? O choro de uma criança que, percebi, não reconhia o batom da mãe que, num vermelho escarlate lhe gritava o atraso. E ao fundo, à esquerda, ora de fronte para mim, ora enfrentando a realidade, uma gravata azul escura, bem apertada, que depressa entendi ser a forca de um farda desgastada.

Ouvi o barulho do meu silêncio ocupar a carruagem nos quinze minutos que se seguiram. Ainda me restava um quarto de hora e o mundo parado. 

Ao meu lado um lugar vazio. Adiante, um lugar vazio. Atrás, um novo lugar vazio. Uma criança, cinquenta e sete ninguéns e um pronto-a-vestir a bordo.

O revisor anunciava: “Senhores passageiros, a avaria encontra-se reparada. Previsão de chegada ao destino às oito horas e cinquenta e oito minutos”.
O comboio avançava e cinquenta e oito era também o número exato de vidas que continuariam por consertar. Afinal, nem eu havia compreendido, até ao momento, que o lugar à noite vazio ao meu lado, eras tu quem o ocupava.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A morte da verdade

Ninguém a viu morrer…
em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,  
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.

Ninguém viu a verdade morrer.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

(Im)perfeitos

Escritos por nós e sobre nós próprios,
rascunhos de passos a lápis traçados e limpos;
apagados que foram os rastos
das pontas das vidas perdidas
que se arrastam
entre as borrachas que se passam
e limpam o chão
das pegadas errantes que deixamos.


Versos mortos num colchão
à noite acordado e manchado,
p’la tinta da caneta com que tememos escrever
o presente, assente em estacas movediças
e cobiças alheias;
rasurados que estamos
e emendados que precisamos constantemente de ser!
Que terrível seria aparecer
vestido de folha de redação da primária,
de vermelho riscada, a transparecer
erros comuns.

- A caneta, deuses terrenos,
só a necrologia humana:
“Morreu por extinção o erro, às mãos da perfeição de Ninguém."

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...