segunda-feira, 30 de abril de 2018

Ser ou não ser... Eis a questão!

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Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas


 


 


 


 



Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.



- Fernando Pessoa -



 


 


Nasci uma, duas, três, quatro ou cinco vezes. Talvez mais, em vinte e nove anos de existência.
Descobri-me a mim e ao mundo, a cada um dos meus nascimentos. Reaprendi-me e reaprendi outros, tantos quantos na minha vida ainda hoje presentes estão, ou passaram...
Fiz-lhes, também a eles, o luto em diversas ocasiões, assim como assisti aos seus posteriores nascimentos (de alguns, de outros limitei-me a funerais).
Quem nos diz que somos os mesmos ao longo das experiências e vivências, pelas quais aqui, ao mundo, viemos?
Eu fui quem no presente já não sou. E sou, quem no passado não teria bagagem para poder ser. Sou um acumular de experiências e acontecimentos, de pessoas, realidades e aprendizagens. Constantemente mudo e me transformo, tangente a tudo o que me molda e envolve, me vive, me sente e me faz.
Tive uma dezena de mães, e irmãos foram tantos quantas as Ritas que com eles nasceram. Cá em casa, já não vivem os mesmos. Ainda ontem nos sentámos à mesa, os atuais, não os de outrora, voltando à descoberta uns dos outros.
De amores, também com eles nasci e morri. Sendo que, relativamente a mim, de igual forma assim lhes sucedeu.
As amizades, as que o tempo não esborratou, como borrões de tinta aos quais já só recordamos a cor, também sofreram metamorfoses. Umas vezes lagartas, outras borboletas de asas vivas.
Já exorcizei, já matei e já enterrei em valas comuns pedaços de mim. Através de palavras, é certo. Não às armas! Sim ao amor e à poesia de cada momento.


Partilhar a vida, conosco e com os demais, implica e sempre implicará ajustes, cedências, momentos de individualidade, outros de partilha, flexibilidade, mudança e aprendizagem. Erros, acertos, despedidas, chegadas, finais e novos começos.


Não somos os mesmos: filhos, mães, pais, irmãos, netos ou avós. Maridos, mulheres, namorados ou companheiros. Amigos, vizinhos ou colegas. Não somos nós, os mesmos que fomos ou viremos a ser. Também não o são, aqueles que ao nosso lado ou em redor, se encontram.
Nada é permanente. Sendo nós o resultado de Tudo.


 


 



Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.


Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


 


- Álvaro de Campos 



 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Solidão


"Fomos longe demais, para voltar aos canteiros onde há Rosas." - Pedro Homem de Mello


 



Vestia um casaco longo e pesado, como os anos que contava. Frias, as mãos expostas, ainda acenavam às crianças que brincavam.
De poucas palavras e feições ausentes, raras seriam as ocasiões em que a presença lhe era notada, nos diversos lugares onde efetivamente se encontrava. Um casaco longo e pesado e um par de mãos frias e expostas eram, indubitavelmente, naquelas tardes de Primavera, um lugar comum, onde diversas Rosas habitavam.
Dona Rosa, seu nome, doava com frequência o que de si restava no coração. De braços imóveis, estendidos, caídos e longos como o casaco que vestia, acenava, por vezes com o olhar, e procurava nas mãos quentes de quem com ela se cruzava, ternura.


Esperança e um gesto de mãos, um carinho directo ao coração, retribuído.


De ombros curvados, acompanhando o peso da solidão vazia que vestia, confundia o seu próprio nome com as flores frágeis, desfolhadas depois de mortas, dos ramos delicados que se ofereciam. Sem espinhos nem rosas permanecia, Dona Rosa, de mãos expostas e alma vazia.


 


Dona Rosa, um entre tantos outros nomes de que a solidão se veste, muitos conhecem. Mora até em nossas casas, sob o peso de um casaco comprido que curva o coração e lhe expõe, frias, as mãos da Primavera.


 


 


 


 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Quimeras

Quimeras!
Das janelas abertas,
telas brancas anoiteciam
e monocromáticas, figuras se erguiam
passando-me ao lado...
Alado bailado, só. Completamente só.


A noite descia rasa e descalça
para me sonhar na sombra inquieta e livre;
mas encalça a surdina das flores macabras
que me viviam no (para)peito
e desfeito, rolou o silêncio do vaso,
as cigarras e o acaso verde-azul
que ali nascia
Rua a baixo corria...
Rua a baixo sentia
as mãos ladras da noite vadia
devorarem-me, só. Completamente só.


Escorriam das paredes das esquinas Renacentistas
"Maldições Sobre Filósofos",
enquanto Descartes dormia
E a "Utopia" de Thomas More adormecia,
a par da noite que negra possuía
todas as cores da tela de Michelangelo,
"O Juízo Final" acontecia!


Sucedia que, por vezes,
traças vorazes lhe comiam negras
as vestes de cerimónia,
como punhais luzindo.
Rendilhado estrelado manto, sorrindo.
Ladainhas de estrelas, e delas fugindo,
as mártires sombras da madrugada caindo,
dizimadas pela luz das telas brancas
Janelas abertas
Quimeras!


Quero ir até à mais forte luz,
tocar-lhe e chegar além.
Cegar-me da escuridão
E quero findar-me no grau superlativo absoluto...
...
Quero reencontrar-me! Só.


É preciso (re)ensinar os pássaros a cantar nos beirais.
É necessária a melodia do dia ao nascer.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Monólogo

Podias ser só a luz
dos astros ao cair da noite.
Podias ser só o voo, 
inquietação de uma pomba livre,
no meu peito.
Podias ser a vaga que rebenta na areia,
cântico de sereia que me embriaga
o leito onde me deito, a braços
com os versos de amor dos poetas noturnos.
Podias ser só a intempérie, 

tempestade congérie de infurtúnios 
que me inundam o entardecer dos sonhos,
pôr-do-sol da vida, horizonte inacabado...
Podias ser só a navegação
de um casco de navio à deriva
no meu coração, calmamente abandonado
em mar-alto e revolto.
Podias, ai se podias...
Limitar-te ao amanhecer claro dos meus olhos, 
onde te perco, 
me reencontro,
me desvio e retorno
a encontrar-te.
Podias ser...


(Podia)
ser só o meu princípio inacabado.


(Mas sou, sem poder sê-lo, tanto mais... e nunca findo!)


 


 


 


 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...