domingo, 14 de outubro de 2018

Quero

Quero querer, ou será que queria, 
um dia... 
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver...
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência, 
em que a distância é lugar onde habito, 
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste? 
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma? 
Viva.
Deambulas tu pelos dias vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria? 
Antes que morra e te leve comigo,
quero!


 

2 comentários:

Francisco disse...

Acho que se tornou hábito, aparecer por aqui à procura de palavras e perder-me nas tuas, impossibilitando as minhas de surgir.
O problema da vida é que não é ela um livro, ou nós não lemos apenas um de cada vez... Capítulos se passam e nós pensamos estar a avançar na história, mas os outros livros ainda se mantém abertos, apenas com as páginas estagnadas daquele momento que nos cansou a alma e deixamos abandonado.
Por mais que se queira, nós não temos o controlo de lhe retroceder ou fechar, ele ou avança, quando nós o agarramos de volta, ou espera que seja lido, até o terminarmos... Depois de finalizado vem o pensamento, que guarda o que queríamos e o que não tanto, revelando-se como neste poema que deixaste apresentado. Acabou, mas a pós-leitura é ainda mais dolorosa, especialmente quando o final não é aquele que queríamos ou esperámos. Ainda mais quando é da nossa vida que aquele capítulo se trata...

Mas de que adianta eu, perdido já nos meus pensamentos, apresentar este tema... Eu sei o que é. Eu faço o mesmo, e não é por possuir a solução que a saiba utilizar. Acho que nunca soube muito bem o que fazer com o que tenho cá dentro... Estraguei-me porque não me usei. Deixei-me levar com o tempo e apodreci do que poderia ter sido, sendo agora deambulante pensador, da vida, das coisas, no que eu fui, sou e serei...


Olha, (não sei se gostas ou não) mas encontrei-me a ouvir esta música enquanto lia o teu poema
https://www.youtube.com/watch?v=FhDTVq8C-Yc

Rita PN disse...

Meu querido, ando em falta com as respostas aos teus comentários, não estou esquecida, mas não tem sido oportuno parar bocadinho com tempo de qualidade para vir dar a atenção que considero merecida.

Quero, antes de mais, agradecer passares sempre por aqui e deixares palavras construtivas e boas reflexões.

"Acaboua pós-leitura é ainda mais dolorosa, especialmente quando o final não é aquele que queríamos ou esperámos. Ainda mais quando é da nossa vida que aquele capítulo se trata." - essa é a questão, ser da nossa vida que os escritos retratam... sobre memórias, capítulos que até gostaríamos de apagar, mas não é possível. Acontecimentos que, num dado momento não previsto, tomam um rumo que nunca imaginários ser possível, que nos despeça, desintegra, nos mata por dentro, nós desilude com uma dimensão que transcende o entendimento, nos fere no momento e dói prolongadamente... Porque é de nós e da nossa história que se trata. Às vezes ainda dou por mim a pensar "mas eu poderia ter feito alguma coisa? " Não. Todos erramos, mas este caso o meu erro crasso foi ter acreditado em alguém que afinal não existia, apenas se fazia passar por tal, se aproveitou, utilizou, feriu com intensão e premeditadamente, jogou até não mais ser possível. O meu corpo e instintos muitas vezes me alertavam para algo que não era normal, aquele pressentimento estranho, um sentir duvidoso relativamente à pessoa e situação, o não sentir que estava tão segura assim, o não bater certo de muita coisa, o partilhar momentos com um estranho, por vezes. É muito complexo. Mais do que possas imaginar. Mas tenho o direito à liberdade de expressão e só entende quem está por dentro da questão.
Sei que lê tudo isto, porque continua a visitar este espaço com assiduidade. Não sei se gosta de ler, se tem prazer na minha dor... Mas a poesia é a minha catarse.
No fundo, "se um escritor se apaixonar por ti, tu nunca morrerás". Talvez seja o caso.

Adorei a letra e a música. Muito obrigada ❤

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