Quero querer, ou será que queria,
um dia...
esquecer a lembrança
que recordo quando adormeço?
A que levaste contigo para onde nunca partiste,
lugar sem nome onde presente estás e de onde voltas,
quantas vezes eu fechar os olhos e te sentir.
Queria querer que essas viagens em que te posso ouvir
te trouxessem no esquecimento do que nos faltou viver...
Neste tempo sem morada, nesta saudade sem ausência,
em que a distância é lugar onde habito,
fechada no baú de recordações dos tecidos antigos
com que o coração se vestiu
e que jazem, agora, em farrapos de memórias que quero despir.
O que foi que deixaste quando partiste?
Ou será que não foste?
Levaste o corpo?
Livre.
Deixaste em mim a alma?
Viva.
Deambulas tu pelos dias vazio de mim, nascendo de novo.
Morro eu por transbordar de ti.
Quero querer, ou será que queria, um dia…
devolver-te o tempo em que te vivi demais?
Quero querer, ou será que queria?
Antes que morra e te leve comigo,
quero!
2 comentários:
Acho que se tornou hábito, aparecer por aqui à procura de palavras e perder-me nas tuas, impossibilitando as minhas de surgir.
O problema da vida é que não é ela um livro, ou nós não lemos apenas um de cada vez... Capítulos se passam e nós pensamos estar a avançar na história, mas os outros livros ainda se mantém abertos, apenas com as páginas estagnadas daquele momento que nos cansou a alma e deixamos abandonado.
Por mais que se queira, nós não temos o controlo de lhe retroceder ou fechar, ele ou avança, quando nós o agarramos de volta, ou espera que seja lido, até o terminarmos... Depois de finalizado vem o pensamento, que guarda o que queríamos e o que não tanto, revelando-se como neste poema que deixaste apresentado. Acabou, mas a pós-leitura é ainda mais dolorosa, especialmente quando o final não é aquele que queríamos ou esperámos. Ainda mais quando é da nossa vida que aquele capítulo se trata...
Mas de que adianta eu, perdido já nos meus pensamentos, apresentar este tema... Eu sei o que é. Eu faço o mesmo, e não é por possuir a solução que a saiba utilizar. Acho que nunca soube muito bem o que fazer com o que tenho cá dentro... Estraguei-me porque não me usei. Deixei-me levar com o tempo e apodreci do que poderia ter sido, sendo agora deambulante pensador, da vida, das coisas, no que eu fui, sou e serei...
Olha, (não sei se gostas ou não) mas encontrei-me a ouvir esta música enquanto lia o teu poema
https://www.youtube.com/watch?v=FhDTVq8C-Yc
Meu querido, ando em falta com as respostas aos teus comentários, não estou esquecida, mas não tem sido oportuno parar bocadinho com tempo de qualidade para vir dar a atenção que considero merecida.
Quero, antes de mais, agradecer passares sempre por aqui e deixares palavras construtivas e boas reflexões.
"Acaboua pós-leitura é ainda mais dolorosa, especialmente quando o final não é aquele que queríamos ou esperámos. Ainda mais quando é da nossa vida que aquele capítulo se trata." - essa é a questão, ser da nossa vida que os escritos retratam... sobre memórias, capítulos que até gostaríamos de apagar, mas não é possível. Acontecimentos que, num dado momento não previsto, tomam um rumo que nunca imaginários ser possível, que nos despeça, desintegra, nos mata por dentro, nós desilude com uma dimensão que transcende o entendimento, nos fere no momento e dói prolongadamente... Porque é de nós e da nossa história que se trata. Às vezes ainda dou por mim a pensar "mas eu poderia ter feito alguma coisa? " Não. Todos erramos, mas este caso o meu erro crasso foi ter acreditado em alguém que afinal não existia, apenas se fazia passar por tal, se aproveitou, utilizou, feriu com intensão e premeditadamente, jogou até não mais ser possível. O meu corpo e instintos muitas vezes me alertavam para algo que não era normal, aquele pressentimento estranho, um sentir duvidoso relativamente à pessoa e situação, o não sentir que estava tão segura assim, o não bater certo de muita coisa, o partilhar momentos com um estranho, por vezes. É muito complexo. Mais do que possas imaginar. Mas tenho o direito à liberdade de expressão e só entende quem está por dentro da questão.
Sei que lê tudo isto, porque continua a visitar este espaço com assiduidade. Não sei se gosta de ler, se tem prazer na minha dor... Mas a poesia é a minha catarse.
No fundo, "se um escritor se apaixonar por ti, tu nunca morrerás". Talvez seja o caso.
Adorei a letra e a música. Muito obrigada ❤
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