sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Descansa agora desse teu crónico cansaço

O dia nascerá, e não serás ninguém.
Não te restarão, em mim, traços, sentidos ou memórias.
Serás como névoa pálida que se esfuma e desintegra,
e esvair-te-ás letra a letra, por entre a putrefação cadavérica
de cada uma das figuras do engodo,
tombadas às mãos da verdade. Vencidas.
Sem nome, nada serás!
Uma história anónima não se escreve,
não se faz, nem se vive.
De mim, irás ao nascer do dia virgem, como livro em branco, seco e velho,
que em poeira se desfaz.


Não serás ninguém!
Por tantos tais que em ti surgiam, ninguém soubeste ser.
Nada fica.
E o que vai, não chegou a ser
senão mais do que ilusão do meu querer.
Pinto-te transparente numa tela,
expondo-a na parede ausente da lembrança, e deixo-te lá, onde nem o tempo se recorda de o ter sido.
Descansa agora, desse teu crónico cansaço


de não seres mais que patranhas, de ninguém me seres,
de nada mais seres, 
porque...
O dia nascerá, mas tu não.

Uma história anónima não se escreve.

Não principia, não tem meio, nem fim. Inexiste. 
Como tu em mim. 
Como tudo em ti. 


 

13 comentários:

Ana Mestre disse...

Uma história anónima não se escreve...
Perfeito!

Bom dia.

Rita PN disse...

Ana, bom dia
Infelizmente, ainda existem aqueles que não desistem de escrever a sua história tendo por base a patranha descarada. Sendo quem não são, para mim, deixam de ser alguém. São ninguém. O universo acerta sempre os passos e a mentira não se esconde por muito tempo.


Ana Mestre disse...

Tão Verdade !

Francisco disse...

Palavras tão diferentes das recentes que tens mostrado... Que sejam elas um indício para atravessares esse teu estado.

Um beijinho :)

Rita PN disse...

É sempre chegado o dia do "basta". Tudo o que a minha mente sabe, já faz tempo, o meu coração não queria aceitar. Resta sempre aquela esperança de que tudo não passe de um pesadelo. Mas as evidências vão sendo cada vez mais notórias aos olhos de toda a gente, não podendo ser só os teus que não vêem, porque não aceitam que aquela seja a realidade. Que tenham caído num embuste.
O coração apenas leva mais tempo para aceitar o que a cabeça já sabe.
Morreu. O dia nasceu, e era uma vez um alguém que já não é ninguém.

Lost disse...

E que belo dia nasceu. :)

Rita PN disse...

Lá fora amanhecia, o sol nascia e a janela outrora triste, vestia agora o canto das primeiras aves. A luz coloria as flores e, de amor próprio, ela renascia.

HD disse...

Quando não escrevemos a nossa história...as histórias dos outros nunca serão tão assim tão boas! :-D
"Há quem viva escondido a vida inteira" *_*

Rita PN disse...

Há quem escreva histórias fictícias, de quem não se é. E essas, para mim, são nada.
Essa citação é a correcta ;-)

HD disse...

Nada contam ;-)

Rita PN disse...

Absolutamente. Para contar patranha e ser descoberto, mais vale estar sossegado :) Até porque a imagem que fica e que passa será tudo menos a que se pretendeu... A honestidade e averacidade são tudo, apartamento da humildade de se ser como e quem se é. Quanto não vale sermos nós, do que fingir e não ser ninguén.
Depois de muito chorar, porque tolinha fui, agora deixa-me rir!

Carla Abreu disse...

Rita PN disse...

Tenho a sensação que a Carla entendeu bem este poema... infeluzmente. Quero agradecer-lhe o carinho e o facto de ter aqui vindo deixá-lo. Um beijinho

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