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sábado, 21 de março de 2026

Florescer

Fui, sem jeito de ser,
antes do meu tempo, indagada
p'la demora no meu florir.
Sorri:
- Não há vitória sem jornada! - respondi.
Atenta aos botões
de camélias apressadas,
que te espreitam,
à janela do casaco que vesti.

- Não me queiras sem Inverno. - prossegui.
É ele o ventre materno
de onde sempre renasci.
Espera-me, aí fora!
No meu tempo,
chegar-te-ei discreta, singela
e sem contratempo,
no meu jeito peculiar
de te olhar
e sentir.
Nada temas,
nem homens, nem máquinas, nem teoremas.
Podem cortar todas as rosas
e impedir-me em versos e prosas,
mas para ti, estarei aqui.

Nasci e floresci.
A Primavera nunca se atrasa.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Libertação

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
De toda a passagem 
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura. 

Da verdade não se olvida a hora, 
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça 
ao lado certo da vida. 

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.

domingo, 28 de outubro de 2018

Para me fazer lembrar...

Hoje estou triste. Cobrindo-me a alma, a retalhada manta melancólica do calendário que passou e não levou, na sua destreza ilusionista de dar o dito por não dito, o passado que não passou.
Hoje estou triste e a apatia que me rasga a roupa e expõe a alma, cresce e trespassa-me a calma que julgo ter, sempre que a mim regressas, vindo por becos e travessas, virando avenidas às avessas para, tão distante quanto o coração de ninguém, me envolveres em memórias agitadas.
Hoje estou triste e nem o velho tic-tac do coração suspenso, no pêndulo do relógio tenso, oiço marcar o compasso do dia. Arrasta-se o domingo dentro e fora de mim, como se o fim não coubesse na hora, na data ou na demora do abraço que não se tem.
Hoje estou triste, por qualquer coisa que ficou de um poema. Estou triste e a minha razão lamenta, o que meu coração guardou.

Hoje estou triste, ainda é longe e faz-se tarde para regressar ao lugar das memórias que fizemos e plantar, no seu lugar, flores que me façam lembrar o meu sabor a Primavera.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Travessia

Atravessar a humanidade deserta
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela, 
que pela janela,
baixa-mar dos meus olhos,
entra serena. 
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram? 
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada. 
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina, 
gritar como o silêncio 
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão 
de um poema vivo. 
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes, 
o luar, o amor e o acreditar que 
externa, do lado oposto do mundo, 
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos 
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.

sábado, 25 de agosto de 2018

Da verdade, não se olvida a hora

O dia abre mão
de tudo o que passa,
se esfuma e não dura,
de toda a passagem
que fere e trespassa ,
se alonga e não cura.

Da verdade, não se olvida a hora,
e é limpo o rio onde renasço:
asas, pétalas, sonhos e cores
histórias, livros, talvez amores...
Ser nascente e ir na corrente
de quem sente, de quem se abraça,
de quem sorri e se enlaça
ao lado certo da vida.

O dia abre mão,
de tudo o que passa.
se esfuma e não dura.
E eu, o meu coração
a tudo, quanto à passagem,
olha, sente, cura...
...e perdura.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Das frágeis gavetas do coração

A saudade pesa e arrasta-se, como quem carrega pedras nos bolsos do coração, pelos dias feridos e vazios. E a dor fura, sem piedade, o frágil tecido de que sou feita. As lembranças pintam as paredes com os traços do que deixou de ser e eu habito memórias que não existem, para lá da janela que se abre sobre o meu peito. (Onde te debruçavas ao amanhecer).
Visto os farrapos da história que por nós passou… sem me levar ou permitir ficar, lugar meu no teu peito. E sigo cega, pela noite cerrada onde os teus passos ainda me alcançam e abraçam, quando ao menino perdido o sonho retorna e aquece.
Da liberdade das asas dos sonhos, apenas restaram as penas desfeitas onde me deito e descanso, ouvindo a melancolia das flores azuis que me chamam lá fora. Foste tu quem as pintou para mim, entre gestos sábios e sorrisos nos lábios que já não vejo.
Queria regressar ao jardim onde fiquei antes de ti, e reencontrar-me na esquina do lago que me devolve a miragem do que agora sou.
As gaivotas ainda sobrevoam as palmeiras, o mar ainda espreita pela janela feliz, num abraço de lua. E de mim? Só a ausência nesse espaço onde te deixei, já nos abraços de outros braços noturnos…

A saudade passeia entre lágrimas e eu, de amor feita e desfeita, não sei arrumar as gavetas do meu coração.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Amor Azul

Oiço-o bater, frenético. E ainda não são sete da manhã. 
Sinto o acomodar da angústia no meu peito, travesseiro de sonhos que me levam. Ainda não são sete da manhã e já a vejo, a luz da angústia, atravessar a janela ferida. 
Atrás dos meus olhos, crivadas, as palavras pouco claras e as memórias nítidas. Não há muito que possa fazer. Apenas deixa-las ficar.


A vida tem o rosto de um jogo macabro, como uma pedra que morre. E nós não somos mais que fuligem.
Semeia-me flores lá fora e pinta-as de azul, porque todas as restantes cores sangram antes do amanhecer.
Diz-me quem és. 
E quando os sons dos risos dos sonhos ainda ecoarem em ti, volta a dizer-me quem eras.


Sucumbo como uma rosa a quem o amor espera do lado de fora do quarto. A vida não segue um curso claro. Onde estão os lugares e os rostos que me deveriam deixar pegadas na pele? 
Ainda se o amor chegasse com o orvalho da manhã azul…
Semeia-me flores lá fora.
Passarei a olhar para elas antes mesmo de o dia nascer. Alimente-as a chuva da Primavera que, para a fazer chegar, eu uso as borboletas.


Do meu amor não sei...mas flui dentro de mim. Já passa das sete da manhã.

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...