sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Hei-de beber do amor

Hei-de beber, da taça dos teus lábios,
o amor, ao entardecer.
E hei-de o saber, anunciado
pelo ruído de curiosidade da vizinha,
sem cuidado, ao ver-te descer a rua, a correr
e cair-me nos braços
por mil embaraços no coração.

Hei-de te ter,
visão dos meus olhos ao anoitecer,
estrelas de um céu onde sonho
e acordo, para continuar a beber
da taça do amor que os teus lábios
me servem, quando, pela manhã,
raiarem os teus cabelos de sol
na minha almofada.

Hei-de escrever,
pelas ruas da saudade,
sobre a calçada do eco dos passos,
quando saíres, pela manhã,
e abrir, amarela, a vista da janela
do campo de girassóis
dos teus caracóis na minha lembrança.

Hei-de fazer correr tinta
por versos imersos na ausência
dos teus dedos nos meus.
Porque será a distância
a única coisa em que tocam,
para além da elegância desta caneta
que te fez:
Criação da minha mente.

Hei-de beber do amor!

 

1 comentário:

Francisco disse...

E por mais que (nos) queime, criação mesmo que ela divina, não será nada se não um lamento prolongado, um choro interno e um grito de silêncio que ressoa, não para fora, mas por a nós dentro!

É belo o amar, e tão grande o desgosto de se amar sozinho!

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...