segunda-feira, 15 de maio de 2023

Húmus

As minhas janelas não dão para lado nenhum.
Não há nada que se me mostre através delas.
As estradas e figuras que entrevejo
não me levam a lugar algum;
perdeu-se o Homem e o ensejo
Lá no alto, pelo asfalto.



Há nos meus olhos cansaços vários
decorrentes do esforço exabundante
de sonhar desejos deficitários
p’la mão de Virgílio,
nas margens do Letes de Dante.


Constantemente me adio os escombros,
inevitáveis, quando à meia, a noite cair
e o céu me esborrachar de vez a cabeça.
No inferno, todos se vão rir
e na terra não há quem não me agradeça a retirada.
Que maçada…
todos escolheram o domingo para morrer
e até nisso eu saí controversa.
Nem no princípio nem no fim. Exatamente a meio
onde a semana dispersa.
Avessa, pedi para assistir ao meu funeral,
enterraram-me, por isso, primeiro o caixão
(que dele quero morrer longe).
Queriam-me os sonhos em valas comuns?
Não.
Sequem as lágrimas choradas
e desacreditadas de religião.
A minha única fé é sonhar!
E quem sonha, nunca sonha em vão.


Alimentar-vos-á o húmus
da minha ressurreição
porque se morro, não morro toda de uma só vez
e o que por terra cai,
levantar-se-á outra vez
sem que vós me entendeis a mão.


Querem graça?
Peçam o óbulo à porta da igreja
que a vida não vai de bandeja
e eu 'inda estou no meu funeral.


As minhas janelas não dão para lugar nenhum.


1 comentário:

Francisco disse...

Gosto da tua escrita ''mais pesada'', isto porque sinto as palavras doces leves, ou pesando menos na leitura...

Há algo de fantástico por detrás da felicidade, e não digo o motivo dela, digo o oposto. Não quero dizer que é lugar amistoso, mas nunca o decorei de tão interessante que se pode tornar vaguear pelos escombros do que foi um dia algo.
Como escreves este poema é um dia como gostaria de escrever os meus, pois já vi que a leveza em mim pertence apenas a experiência, o que quando (se quando chegar) aprimorar a construção dos mesmos, não me vejo leve. Nunca me vejo leve ao escrever, e quando o faço sinto que não sou eu a fazê-lo. Tudo pesa, a tudo atribuo camadas, em tudo me quero expressar e em tudo me perco...
Quero a idade para adquirir a experiência, e a experiência para expressar a idade.

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