sexta-feira, 5 de julho de 2019

Levou-a o vento

Ao nascer dos primeiros raios de sol, na demora dos primeiros minutos após o toque sonolento do despertador, levantava suavemente a cabeça, levava o braço direito adiante e pressionava, de mão firme, o colchão. Rodava o rosto e comptemplava-a, timidamente, enquanto dormia.
Lentamente, fletia as pernas que arrastava até à extremidade da cama e voltava a demorar-se nela. Os olhos enamorados na pele clara de um rosto delicado, uma rosa nos lábios e o perfume que descaia, pétala a pétala, prolongadamente entre o pescoço e o peito indefeso.

Cruzaram-se a primeira vez entre as estantes de livros de uma biblioteca. Ela equilibrada num só pé, florindo num vestido azul, tentando alcançar um romance meticulosamente arrumado na última prateleira da secção de Clássicos. Ele de poesia nas mãos e tropelias no coração.

("E o Vento Levou", de Margaret Mitchell)

Ficou a vê-la sentar-se, pousando a mão no colo e fechando lenta e graciosamente o ângulo entre as pernas cruzadas. Os sapatos descairam para a esquerda e a mão subiu, abrindo o livro. O indicador flutuou linha a linha, sem que Clara levantasse o olhar. 

- Não é mulher, é poesia!  - deixou escapar - poema não escrito, versos interditos, estrofes que não serão para todas as mãos...
- Trovador? – interpelou-o Clara, sem o fitar.
- Escritor de sonetos. - Respondeu Raul.
- Sonetos são viagens ao coração. Só com ele sei ver.

(Um livro em braille).

Vinte anos se passaram e ao nascer de cada dia, Raul levanta suavemente a cabeça, leva o braço direito adiante e pressiona, de mão firme, o colchão. Roda o rosto e comptempla-a, timidamente, enquanto ela ainda dorme, clara e a seu lado, naquela fotografia:
-Foste tu quem me ensinou a ver com o coração.

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