Esperei por ti ao pé da ponte
florida, na esperança vã enfeitada
se adentro p'lo mar dos meus olhos
te visse trinta passos apressada.
Chegavas-te a mim com três laranjas no regaço
em tom d'embaraço por não te saberes explicar,
na demora em me abraçar, cem braços de rio por navegar
mil palmos de terra por explorar
e dez mil milhas de sonhos por cumprir.
Deixei-te rir, nervoso miudinho
de quem não me conhece o dorso
e sabe que nele terá que embarcar.
Aqui, deste lado da ponte, não há quem sou.
Mas acolá, onde os pássaros cantam,
onde as flores encantam
e onde a humanidade nasce em ramos de alecrim,
há um jardim de sonhos encantados,
por mim semeados
(enquanto te esperava do lado de cá)
cantei o credo, cândida à fonte
para que os regasse, até que a hora chegasse
e em ti brotasse a vontade de me ter.
Felicidade que andais perdida com três laranjas no regaço...
em passo baço, de quem não luziu ao nascer.
Vem sentar-te nas minhas costas
e deixa-me ser escrava de tuas viris vontades
alimenta-me com o sumo da tua laranja
e deixa o excesso escorrer pelo meu queixo...
(não é desleixo) e lá em baixo,
no lazarento jardim dos meus sonhos,
será fértil tudo o quanto dele beber.
Vem, que por ti ainda espero ao pé da ponte.
1 comentário:
Porque será tão difícil esquecer? Para que quer a memória o passado, os sonhos e a saudade... Se no fim perde-se no tempo, sofrendo.
Quantos jardins não regamos nós, já exaustivamente, com medo de os perder?
Quantas pontes já não serão os nossos braços erguendo, tremendo esses do esforço...
Quantos sonhos não nos estarão a levar à exaustão, correndo nós fadigados atrás dos mesmos.
Porque o fazemos?
... Não o sei, mas de uma forma o sinto. Pois sou homem e faço parte, e muito não se explica.
As árvores criam raízes em volta do que lhes dá vida, sendo isso parte de si.
O Homem cria laços em volta do que foi a sua vida, sendo isso ele mesmo. É por isso. Deixando para trás o passado é deixarmo-nos lá também, e tudo o que com ele fica.
Se o caminho é feito em frente, também ele foi outrora o que percorremos, e o que está atrás estará visível enquanto a estrada (da vida) for a mesma.
''O futuro é que é importante'' Mas que futuro haverá, se não «estivermos» nele?
Bonito poema, e lindo o sentimento por detrás dele!
Um beijinho
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