terça-feira, 17 de agosto de 2021

O Oleiro Eremita

A estrada de barro vermelho segue
em silêncio e sem pressa
p'las mãos de um oleiro eremita.
Há uma dor antiga
no molde da terra,
no fundo dos passos,
na nudez absoluta de um corpo de mulher
esculpido sobre as pétalas
selvagens de um coração fugidio.
Segue a estrada greda adiante,
p'lo desamparo dos dedos fatigados
da ausência das formas
onde a noite viaja
e o vento se enrosca vagarosamente.
Só o coração bate
a despedida
que o caminho não conta, não leva, nem traz. 
É pelas mãos que o amor lhe foge e lhe chega;
a vida ao quilómetro, o barro da estrada.

8 comentários:

Francisco disse...

Tão simples.
O desenho de um oleiro... As palavras de um poeta.

Mas tanto que podem dizer.

Poema muito bonito

Rita PN disse...

Muito obrigado meu querido Francisco. De facto, dirão o que cada um delas entender. Moldem-se as palavras à vida....

Francisco disse...

Vou acreditando que é a vida que vai moldando as palavras...

Ao poucos, dirão elas o que dizemos ao tempo (as experiências da nossa vida), sendo sempre estas mais à medida que vivemos.

Rita PN disse...

Tenho cá para mim que moldando as palavras à vida, a possibilidade de a embelezar é maior do que se deixar a vida moldá-las. Porque no primeiro caso posso esculpir e criar moldes com alguma liberdade, no segundo estou limitada ao que a vida é, no seu molde mais concreto.

Francisco disse...

É, tens razão.

Talvez ainda me revejo naquilo que escrevi:

''Não dá.
Não consigo.
Não deveria ser a redação a criação da vida,
Apenas a exposição daquilo que se vive.
Que desejo ambíguo possuo?
Habitar num livro?
A poesia não me chega.
Ou talvez seja eu, que não sirva para ser poeta.''

Robinson Kanes disse...

"Like" :-)

Rita PN disse...

Esse "like" foi mesmo à Robinson

Eugénio disse...

Maravilhoso!

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...