sábado, 27 de março de 2021

A política, o indivíduo e a sociedade

Ainda me dizem: "Vem por aqui"


Não raras vezes me advertem "não te metas na política".
Pergunto: será isso possível?
Ou até: estarão mesmo a aconselhar-me a não participar da construção social?
"Não, não vou por aí" (Referência de ao poema Cântico Negro de José Régio).


A política, quer se queira e se aceite, ou não, é parte daquilo que somos, de quem somos, estando presente de forma informal e natural nas mais diversas actividades e acções humanas do dia-a-dia.
Senão vejamos, as tomadas de decisão diárias, a definição de regras e formas de gestão da vida familiar, decisões sobre onde incidirão as reduções de custos. Mas, também, a forma como os interesses individuais, os gostos, os princípios, os valores, as opiniões e as vontades têm impacto nas relações com os outros e na comunidade onde nos inserimos.
Dito de outra forma, a política é necessária e inevitável e está presente em casa, na escola, no trabalho, na associação desportiva, na associação de moradores, no indivíduo, no Estado e na Nação.


Não será, por isso, de estranhar que, ao chamamento dos descrentes, questione: "Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem/Para eu derrubar os meus obstáculos?"


"E nunca vou por ali"...


Já na Grécia antiga, crê-se que oito milénios antes de Cristo, aquando da formação das primeiras cidades-estado (Pólis), tenha surgido uma palavra (muito semelhante a uma outra que vulgarmente utilizamos) para designar aqueles que podendo participar activamente na vida da comunidade, se demitiam dessa participação, recusando-a: os idiotés.
Pois bem, sabendo, então, que a política é o instrumento de ação de transformação da sociedade e que é da natureza humana viver nela, não será minha pretensão ser uma idioté e negar-me a busca e pelo bem comum (dentro daquilo que considerar ser minha missão).


Sei que a política me dá (nós dá) um propósito e direcção, consoante as nossas ideias e valores, sei que, por natureza, "o homem é um animal político", nas palavras de Sócrates (o filósofo, para que não restem dúvidas) e sei-o, porque há milhares de anos que participa da vida da cidade/sociedade e se preocupa com o colectivo. Mas sei-o, sobretudo, porque desde cedo que me interessei em perceber qual seria, e como seria, o meu papel nessa mesma sociedade. Todos somos agentes de mudança, por mais pequena que ela seja, se assim quisermos.


A simples tomada de decisão de querer ser independente foi, na altura, um acto político. Arrendar uma casa, trabalhar, pagar as contas, decidir sobre quantas horas podia ter o aquecedor ligado no inverno (sendo que, na maioria dos dias não dispunha de possibilidades para o fazer), decidir sobre se bebia um café ou se comprava pão no dia seguinte, se trabalhava mais horas para conseguir mais uns trocos, ou se ia a uma festa com amigos, decidir sobre onde poderia cortar, ainda mais, para fazer face às despesas ditas essenciais como saúde e alimentação.
Da mesma forma, assumir o retrocesso e incapacidade de fazer face aos custos da independência, na situação actual em que vivemos, tendo que regressar a casa da mãe, foi igualmente uma decisão política.


O facto de ter começado a trabalhar há 12 anos, na última crise económica, e de ter vivido nela e com ela, obrigou-me sempre a esfolar os joelhos, a reinvenções constantes e, também por isso, a uma vontade crescente e incansável de ajudar e participar na mudança de paradigma, ou no melhoramento das condições de vida dos jovens (já, por diversas vezes, me ouviram o "grito"). E, de facto, gostaria de os ver mais activos e participativos, aos jovens, nas questões da nossa cidade/sociedade, que é como quem diz, não se demitindo do seu papel de cidadãos, de indivíduos políticos e do ser social.


Quanto a mim, "não vou por aí", quando me dizem "alguns com olhos doces,/Estendendo-me os braços, e seguros/De que seria bom que eu os ouvisse/ Quando me dizem: “vem por aqui”!".


Não, não está só nas mãos das novas gerações, admiti-lo é sinónimo de demissão de funções sociais, é anular o indivíduo político em direitos e deveres e, enquanto cidadãos, é aceitar a submissão às escolhas e decisões de terceiros (talvez seja mais fácil). Mas é também desistir, no presente, de lutar pelo futuro de filhos e netos (e o exemplo é contagioso).
A política tráz o futuro por dentro e está sempre ao virar da esquina, nos transportes públicos, no acesso aos cuidados de saúde, no acesso ao ensino, no direito à reforma, no direito à habitação, no direito ao trabalho, no valor do salário e nas políticas laborais, nas tomadas de decisão diárias, nos impostos e no desenvolvimento, ou não desenvolvimento, da comunidade onde nos inserimos. Está em tudo e em todos e, por isso, não só nas mãos de alguns. Tão pouco dizendo respeito apenas a outros.
Não sejamos ideotés e façamos, cada um, a nossa parte.


O perigo de não querer saber, de não se querer envolver, de não se ter interesse em participar é, sobretudo, o alheamento e a falta de conhecimento e de capacidade para discernir sobre assuntos de peso considerável nas actividades diárias do cidadão, tomando, muitas vezes, como verdadeiras realidades distorcidas, afirmações sectárias e crenças limitantes que culminam, em última instância, no embarque em fake news.


Jamais me digam para não seguir os meus próprios passos.


 

5 comentários:

Zé Onofre disse...

Olá
Meu nome Zé Onofre
Nos tempos de Salazar/Caetano e logo a seguir ao 25 de Abril, muitos diziam "a minha política é o trabalho". Quando ouvia essa resposta já sabia com quase 99% de certeza que estava em presença de um defensor do Estado Novo (fascista).
Hoje quando ouço dizer "eu não me meto em políticas", não me atrevo a dizer como então dizia que estou em presença de gente de direita, não, não me atrevo. O que me atrevo a afirmar é que quem afirma isso não sabe o que diz, só demonstra ignorância. Não entendem que afirmarem "eu não me meto em política", já estão a tomar partido, e certamente é porque terão medo de se comprometerem porque nunca sabem as voltas que o mundo dá e assim estarão disponíveis para receberem no regaço alguma prebenda, venha ela de onde vier.
Zé Onofre

gaivotazul disse...

Um texto que revela uma grande força interior.

Rita PN disse...

Caro Zé Onofre, talvez seja o receio, em certos casos, mas também o desinteresse noutros.
Qualquer um pode ser apartidário, para que não tenha um compromisso. Pode não se filiar, pode não pertencer, pode não se identificar, nem seguir a filosofia partidária existente. Lá está, a política não diz apenas respeito a partidos, diz respeito às acções humanas em sociedade, pelo que, apolítico, no seio de uma sociedade, é que não é, de todo, possível ser-se. Numa ilha deserta ou no meio do nada, desde que sozinho, pode. Se forem 2 já não pode. O que acontece é que, frequentemente, as pessoas utilizam a expressão "não quero saber de política" ou "a política não me diz nada", ou ainda "são todos uns curruptos", exatamente para se descartarem da sua responsabilidade de participação no seio da comunidade onde estão inseridos. E isso é, também, ausência de educação para a política (que ninguém ensina na escola), falta de interesse, de conhecimento, descrédito, demissão do papel de cidadão em consciência. (Os tais idiotés).
Quando me dizem "não te metas na política" eu consigo perceber que a mensagem diz respeito à ideia que se tem dos partidos: nichos de pessoas e interesses, organizados em grupos de influência, com a finalidade de satisfazer necessidades individuais (entende-se, próprias). E essa generalização, como qualquer generalização, é extremamente perigosa. Porque a política não é o fim, é o meio. É a forma de fazer e como fazer, as decisões, as acções, o caminho a fazer segundo uma determinada filosofia, ideias e ideais. A finalidade é, claro, o bem comum (na política de Estado. Na política lá de casa a finalidade será sempre bem do indivíduo).
Mas ainda assim, a decisão de me meter ou não é minha, até porque tentar influenciar também é fazer política :)

Rita PN disse...

Alguma, sim

Zé Onofre disse...

Fátima
Parece que estamos em sintonia.
Obrigado pela sua resposta ao meu comentário.
Zé Onofre

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...