Sempre que se apresentava à vida, tinha os sonhos no porão e a viagem por fazer. Chegava cansada. O caminho que a levava nunca, a cada paragem, a retornava a si. Eram sempre partidas - que as há de ir, de corja e de quebra – e assim o eram, entre o destino e o desejo de chegar. Conhecia-lhes somente três passos, esses primeiros, ao início do desvio – D E S. Meia vida, meia palavra, meio caminho. Pela metade, sempre pela metade.
No bolso o mundo, na mente o mais, no peito a ferida. E o peso. O peso de não levar, leves, os sonhos pela mão.
Transumante, diante das paisagens sobre si, seguia. A busca, a estrada, a crença, o futuro e o pão. O livro de páginas secas, salgado o olhar de mar revolto. O sangue, as pedras, as chagas, as noites ao nascer do sol, a luz silvestre das flores sós, o caminho, o caminho, o caminho…
Sempre que se apresentava à vida, era outra, mas sempre igual. Os anos, diziam-lhe, não lhe passavam pelo rosto, pelas mãos, pelo corpo. [Mas, “Quem é por dentro outra pessoa”?]
Chegava sempre cansada a lugar nenhum, com a mala no porão e a vida por viver. Ela por se ser. O Futuro por nascer.
Sobre os quilómetros de luta, o ranger dos passos em soalho de pressa e o silêncio… [“Quem é que o saberá sonhar?]
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
quinta-feira, 20 de maio de 2021
Transumância
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Hipoteticamente
Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...
-
Esperei por ti ao pé da ponte florida, na esperança vã enfeitada se adentro p'lo mar dos meus olhos, te visse vinte e oito passos apres...
-
Vem sentar-te comigo à beira Tejo, futuro, que se faz tarde; e o por do sol anoitece no limiar de um peito que arrefece às mãos do solstíci...
-
Incorro em pasmaceira de jumêncio sempre que se abate o silêncio para lá da chuva que cai. Tudo padece, nada apetece, a apatia envaidece e ...
Sem comentários:
Enviar um comentário