“Onde nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.
Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem evitar questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas, sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, a Hall Paxis convidou, a 31 de Outubro de 2020, o músico Pedro Abrunhosa, o actor Bruno Ferreira e o jornalista Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.
Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.
Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”. Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.
No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade. A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.
Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão, “nenhum homem se basta a si mesmo”, mas também sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade. Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade do acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.
Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita. A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.
Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que, outrora, já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.
Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.
Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.
Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.
Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.

6 comentários:
Tão bons temas, e não concordando em alguns pontos, espero que à iniciativa tenha sido um sucesso e que muitos tenham, pelo menos, transportado ideias para reflectir.
Tema interessante que precisa de ser mais abordado na lógica das "smart cities"... Mas depois falamos sobre isso, quando outra iniciativa estiver a ser planeada.
Muitos parabéns, Rita!!!
Obrigado pelas palavras e pela leitura. Sabes, no fundo o objectivo era exatamente fazer pensar, sem certo nem errado, o que se pretendia era uma reflexão conjunta, mas também individual, sobre a temática. Foram lançados alguns "desafios" e frases mais "acesas" com o objectivo de colocar o dedo na ferida e levar os presentes a recuar no tempo, para que se concebessem certos paralelismos importantes.
Da mesma forma, era necessário destacar o importante papel das gentes na concepção de uma cidade, assim como o importante e inigualável papel da cultura e da arte. Mas quando estiver carregada no YouTube, envio para ti a Conferência para que possas ouvir. Vais discordar de alguns pontos, mas essa é também uma finalidade da conversa. Só discorda quem pensa 😊 a próxima terá uma temática diferente, mas à data não tenho qualquer vislumbre de quando e com quem será. Mas será feita.
Um beijinho e boa semana!
Ok, então depois falamos :-)
Beijinho :-)
Pareceu-me um belo debate filosófico à maneira clássica...
Adorei ler.
Foi uma tarde bonita e reflexiva com três seres pensantes (sim, é isso que eles são)! Uma ousadia da nossa parte, promover um evento com estas características, mas que superou expectativas e se revelou necessário.
É possível assistir na íntegra, aqui:
https://youtu.be/UtxlJDEuOrM
https://youtu.be/QkstUn9g5j4 (continuação)
https://youtu.be/pQNydGYulZM (resumo)
Obrigada. Assistirei
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