O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Retirava da vida a inspiração e da Natureza, a matéria necessária a cada criação.
Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira trazido pelo senhor Carvalho, lenhador da nossa aldeia.
- Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.
E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.
- Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.
Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.
-Não te sinto o coração, velho madeiro, mas dar-te-ei o meu.
E foi assim que vi nascer o que, na altura, não entendia, a Poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.
-Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.
O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.
O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior Poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.
- A poesia não são palavras que rimam, meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.
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