Hoje, a transgressão e a intervenção, dois dos grandes motores da história, deram lugar à contestação e à exibição, sobretudo digital. A moda talvez tenha sido a única arte capaz de prosseguir, disromper e progredir. Muito do que a música sempre foi capaz de fazer - e deixou de ser - através dos movimentos e correntes das épocas, da atitude e do visual, da filosofia associada aos estilos e bandas, através dos quais se expressava identidade, envolta numa cultura dinâmica e expansiva, disruptiva e transformadora, tanto quanto ameaçadora e provocadora, capaz de rasgar sistemas e máquinas.
Foram Eras pautadas pela reinvenção e necessidade de rebelião, mas também pela preocupação de que a música não fosse só uma canção feita à medida da rádio, mas que fosse, sobretudo, um marco contra o bolor dos valores vigentes e um veículo de união e transformação social.
Todos os movimentos de cancelamento actuais se têm verificado altamente bloqueadores da criação, tal como as ideias conservadoras e os novos ideais sociais. Não há espaço, predomina o sufoco, a repressão, o dedo apontado porque tudo é ofensa moral e há um lugar certo para cada um e para cada coisa.
Por outro lado, assistimos à comercialização da imagem da Arte, ou da imagem por trás dela, numa Era instantânea que obriga à constante presença digital para que não se seja esquecido. As visualizações, os likes e os seguidores ditam ícones e êxitos. Tenta seguir-se o que de maior impacto as redes revelam, copiando modelos artísticos, estilos de vida, seguindo tendências comerciais, ousando pouco e, mesmo assim, necessitando de passar no teste das massas. É já tudo pouco surpreendente, pelo contrário, demasiado semelhante e sem a magia visceral da disrupção.
Tudo isto é contraproducente. Tudo isto é oposto à criação. Contudo, tudo isto, se aliado aos tempos que vivemos (de degradação política, económica e social) é material suficiente para incitar a transgressão, o confronto, a intervenção e provocação do sistema. Porque uma nova Era virá. Vem sempre. E já tarda.
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