domingo, 13 de julho de 2025

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

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Nota prévia: Republicação de uma das crónicas que escrevi àcerca da Guerra Colonial Portuguesa. Baseadas em testemunhos reais, por mim recolhidos, com um toque de ficção que em nada fere o realismo da História.
De avô para neto, estas crónicas são cartas de vida deixadas para que a memória e o tempo - mas também os tempos - não nos atraiçoem. 

 

A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Não foi, nem será, uma realidade menor, dobrável e condenada ao esquecimento, se arrumada numa caixa de sapatos antiga. Há, nos pés dos homens, sapatos cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.

Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.

 Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os homens careciam.
Nascia assim, aquilo a que, no seio das Forças Armadas, se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de cagulo bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis - viam os seus membros amputados, ou desenvolviam distúrbios psicológicos. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas. (Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida, meu neto. Mas sabem-no eles, esses, aqueles para quem jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera). 

Durante a guerra, foi notório o crescedum de caixões transladados. Privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, sem posses, não podiam fazer face às despesas de transladação. Ou eram enterrados nas zonas de combate, (por falta de meios de transporte) ou, com maior sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios erigidos pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.
Sorte?  - Questionarás. -  Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar, apenas existindo, até ao derradeiro cair do pano, ou ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado com dignidade.

Os deficientes da guerra, a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar, foram, na época, considerados “inválidos”. Homens que representavam um verdadeiro e pesado fardo para as famílias, que se viram, pelo Estado, obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse, caso não lhes fosse atribuída morada nos hospitais militares. Isto porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade vivida nas colónias de África. 

Um regime cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e quantos trilhos, com História, tens vindo a percorrer. 

23 comentários:

Robinson Kanes disse...

Mais um testemunho daqueles!

Gosto do modo como está a ser feito, diferente de muitas publicações mediáticas e por vezes feitas de acordo com certas conveniências.

Dos melhores relatos que tenho lindo! Simplesmente genial!

HD disse...

Adorei os relatos e o sentimento patente.
Quanto aos sapatos, é a metáfora perfeita para o conto! :)

Rita PN disse...

Meu querido Robinson, grata por tão grande apreço a esta minha... aventura. É um privilégio ter-te como leitor e seguidor atento, assim como também o é, ter-te como crítico construtivo e incentivador.

Um dos meus objectivos ou, se preferires, poderás chamar-lhe força motora, é o tentar colocar preto no branco as evidências até agora alvo de alguma manipulação e censura, por força dos interesses e, tal como referiste, alguma conveniência na ocultação de factos.
Sendo que o principal objectivo é, dar a conhecer (e ficar eu mesma a conhecer) melhor e mais a fundo, a realidade de um capítulo da nossa história não tão distante assim... 50 anos nos separam...

A diferença entre os meus relatos e os restante, talvez se deva à transparência com que descrevo certas e determinadas passagens e ao facto de ser eu, quem encarna uma personagem que, na realidade, é um ex-combatente. É um trabalho complexo mas que estou a adorar, o de mergulhar numa pele que não é a minha, viver no presente o passado de outrém e sentir, em parte, tudo aquilo que o outro sente. Ou que eu imagino que sentiria numa dada situação. Talvez seja o humanismo. Não sei... tu melhor que eu, me dirás o que sentes e por onde viajas ao ler.

Um obrigada daqueles bem grandes! E um beijinho!

Rita PN disse...

Obrigada querido HD!
Vou confessar: os sapatos surgiram-me tão naturalmente que só no final, tive a verdadeira noção do peso que conferiam à história. Às vezes surpreendo-me a mim mesma com as metáforas que crio.

Uma beijoca e vê lá, não queiras ter sapatos a mais ;)

HD disse...

Não troco de sapatos à mais pequena ilusão de dor ;)

Robinson Kanes disse...

Ora, eu é que agradeço.

Se precisares de mais contactos diz, conheço algumas personagens e histórias que viveram esse conflito, alguns também já cá não estão… mas ficaram histórias de arrepiar.

Nem é tanto pela ocultação, alguns livros e documentários são demasiado virados para o espectáculo, para a guerra vista por quem nem esteve lá, ou então com uma personagem que tenta sobressair entre os demais. Estes relatos de gente de verdade, de gente humilde e que viu a guerra à sério são muito interessantes.

Dou-te um exemplo, os relatos da guerra de Lobo Antunes (declaração de interesse: não gosto do senhor como escritor. Como pessoa não sei, não o conheço) sinto-os vazios e de alguém que não sentiu a guerra verdadeiramente mas faz questão de se considerar um combatente daqueles. Não os sinto tão genuínos como estes relatos… Parabéns!

Rita PN disse...

Rob, muito, muito obrigada! Claro que sim, aceito tudo quanto forem boas histórias de quem as sentiu na pele. Isso seria óptimo.
Se tiveres alguma coisa por escrito, podes enviar para o meu e-mail! Todo o contributo é muitíssimo bem recebido.

Eu vi recentemente um documentário em que não fiquei a saber nada sobre as vidas humanas que nas terras África combateram. Aliás, fiquei, no final, quando mostraram as campas onde o lado descansa muitos descansa. De resto, tratou-se de política. Nada mais que isso, enaltecendo uma outra figura mais importante (?) das FAP.
E os soldados combatentes? Volto a perguntar...
Falta o factor humano em muitos documentários. Muitos parecem realizações cinematográficas idealizadas e filmadas de acordo com um guião político.
Claro que a parte política é essencial para que se possa entender muito do que por lá se passou, mas e os nossos Homens... Heróis anónimos da Pátria...

Lobo Antunes, na verdade, foi como médico e não como combatente. As emoções acabam por ser diferentes. Conheceu duas realidades, as dos hospitais militares e a do campo de batalha, embora não se tenha entregue a ele.

Os meus são verídicos, embora contenham um toque meu!

Rita PN disse...

Robinson, o SAPO deu-te ouvidos! Hoje o post foi destaque :-)
Nem queria acreditar...

Robinson Kanes disse...

Já não era sem tempo :-)

Rita PN disse...

intimidaste o batráquio :)

Robinson Kanes disse...

Acho que não tenho poder para tal. Mas vejo muita "porcaria" (e aqui o culpado não é o batráquio, nem lá perto) a circular e muita gente que tem um pensamento interessante a ser apagada… mas isso, mais uma vez, não é um ataque ao batráquio. É um ataque ao que se vai vendo em todos os "canais".

Rita PN disse...

Não culpo, de forma alguma, o batráquio pelos detritos que por aí se escrevem. Mas atribuo alguma responsabilidade não só ao senhor anfíbio (só para não voltar a dizer batráquio :P ), como a muitos outros canais que os promovem, muitas vezes em detrimento de escritos bastante construtivos e de interesse para o comum mortal.
A questão é, se por um lado as elites da literatura começam a ser desmanteladas para que se abram portas a novos autores, sendo alguns deles verdadeiros talentos emergentes, por outro, com a globalização da escrita e dos próprios meios de comunicação, tornou-se demasiado fácil chegar aos outros e ao mundo digital. Todos nós podemos ter um (ou vários blogs), anónimos ou não, que podemos utilizar como ferramenta de trabalho, como exposição de ideias, como espaço de diversão, como livro aberto, como cantinho poético, etc,etc...
Acontece que, é muito mais concorrido um blog sem conteúdo construtivo, mas onde se pode mandar umas "bocas" e umas "larachas", do que um blog que apela à reflexão e onde se escreve (melhor ou menos bem) bocadinhos de literatura. Se falarmos de poesia então...
Consequentemente, se o buzz é maior nos primeiros, são esses que mais facilmente serão divulgados. Há toda uma estratégia e o número de clic's e visualizações também é um indicador de desempenho. (Também aqui existem medições).
O mesmo acontece com os blogs que viram livros. Alguns têm conteúdo, não discuto esses. Outros... são apenas mediáticos e geram vendas. Mas se aprendes alguma coisa com eles? Hmmm... pois, talvez dependa do conhecimento até agora por ti adquirido.

A democratização da escrita é muito bonita, a globalização dos meios também é fantástica, a abertura a novos rostos é excelente... mas atrás vem sempre o que não interessa assim tanto... talvez porque não exista ainda um filtro.

Atenção: não estou a atacar ninguém em concreto. Foi apenas uma exposição de ideias.

Robinson Kanes disse...

A culpa está em quem promove e em quem aprecia… depois depende também de escrever para as massas ou não. É uma escolha do autor. No meu caso concreto, ao escrever para mim, tenho noção de que não atinjo as massas, não é esse o meu objectivo. Também o faria, bastava começar a alinhar numa estratégia de marketing bem definida e "voilá". Mas já temos tanta coisa…

Como te disse considero que as artes são para todos. A opinião e o direito de escrever (seja arte ou não) também deve ser para todos… o problema é quando todos escrevem e o barulho é tanto que a qualidade fica absorvida…

É uma escolha que se faz…

Sei como funciona a estratégia de marketing em site e redes sociais, até sei das compras de "clicks" e de comentários, no Facebook por exemplo… cabe ao consumidor ir ao encontro do que acha justo e daquilo que gosta obviamente. O mercado dita a regra, embora eu também acredite que o mercado é manipulável…

Eu sei que não, apenas estás a apontar uma realidade. Discutir a realidade ajuda-nos a evoluir.

Mais uma vez, parabéns!

Rita PN disse...

Se há meta que não tenho é escrever para massas. Não quero. Não me interessa. Não me atrai agradar a muitos. Satisfaz-me sim, escrever para os certos.
E contigo é igual. E é notório.

Concordo. A arte é para todos, assim como o direito de escrever. E quem de direito o retire, não eu. A única questão que coloco é se este será o caminho...
Se no passado era de menos, no presente começa a ser demais... talvez o futuro permita encontrar o termo certo!
(Pelo meio, escrever também se tornou moda e é bem visto. Diz-se até umas verdades e umas coisas bonitas. Mas escrever é uma coisa, literatura é outra. Eu, por exemplo, escrevo. Mas não sou escritora. Falta-me calo, falta-me viver mais, aprender mais, ler mais... na verdade, nem sei se algum dia o serei, porque ser escritor é completar-se enquanto individuo que escreve. É o atingir de uma meta. E depois dela, o que há? Eu não quero ser completa... quero aprender continuamente nas linhas por onde vivo e deixar espaços em branco. Porquê? Porque o vazio me é necessário para voltar a criar.

Continuando,
A liberdade é um direito que a todos assiste, como tal, quem sou eu para censurar escolhas?

Quanto ao marketing e ao mercado, subscrevo as tuas palavras. E sim, os clicks são patacas, assim como os likes as geram. Quanto ao mercado, diz-me um mercado que não seja manipulável? Quando se trabalha uns aninhos no retalho moderno e se avaliam estratégias, se interpretam números, se analisam indicadores, se é (até) um indicador e se tem cabeça para perceber o que se passa atrás do pano... tudo é manipulável. Principalmente o consumidor.
Eu não devia dizer isto mas, quantas vezes o cliente comprou o que "eu queria" e não o que inicialmente tinha em mente? Porquê? Porque eu tinha que querer o que alguém me ordenou que quisesse... e se atentarmos na publicidade e nas estratégias de marketing... Bom, disto percebes tu a montes!
Portanto, o mercado é manipulável, os consumidores são manipuláveis, os vendedores são obrigados a ser manipuláveis e a aprender a manipular.

E com isto tudo não quero manipular aqui a opinião de ninguém :)

Sim, é a discutir/debater a realidade que se evolui!

Obrigada por exisitires!

Robinson Kanes disse...

A quantidade da oferta não foi acompanhada pela capacidade de pensar, de decidir, de fazer escolhas mediante valores, necessidades ou até pelo filtro certo… penso que esse é o problema. Se uma parte de mim diz que é óptimo que assim seja, outra deixa-me a pensar…

Hoje em dia diz-se que é impossível mudar o mercado, pois se o mercado deseja temos de oferecer. Isso é Fantástico! Contudo, é como dizes, quantas vezes não se cria a ideia de que o mercado quer e não é isso que sucede… o mercado é manipulável, agora se efectivamente temos que nos adaptar a ele? O meu lado profissional diz que sim, no entanto também devíamos indagar se não por vezes não somos controlado por mecanismos de mercado.

Temos de ter em conta que os valores também mudaram… eu fui educado para não abdicar de valores primordiais. Por exemplo, desde pequeno que sempre ouvi: "não peças trabalho a ninguém, esses favores pagam-se, luta por ti, jamais cedas por muito que precises!". É óbvio que apesar de não ser um "velho", pelo contrário, essa educação está desactualizada… ou seja, os valores mudaram, posso pautar-me por segurar esse comportamento, no entanto, tenho noção que não é isso que o mercado quer… nas outras coisas é o mesmo. Será que interessa saber a verdade? Muitos dirão que sim, outros tantos dirão que não… o problema é quando o mercado, seja ele qual for, começa a ter consequências negativas na transformação da sociedade… sou uma das pessoas que tenta ser mais inovadora, por exemplo, por vezes com algumas culturas (como a portuguesa) até demasiado inovador, no entanto… em alguns campos estamos a ir longe demais.

Deixemos que cada um escolha… :-)

Obrigado eu!

Maria Araújo disse...

Estou deliciada com o que li e os com comentários entre si e Ronbinson, ainda mais.
Li o comentário de escreveu no blog da Kalila "amor às kuartas" sobre as pesquisas que faz das guerras coloniais e despertou o meu interesse quando se referiu aos soldados desaparecidos em combate, esquecidos pelos governantes de então.
O meu irmão mais velho combateu na Guiné, 2 ou 3 anos antes do 25 de Abril de 1974.
No passado mês de Abril, a propósito das comemorações deste dia, vendo fotografias de família que eu gosto muito de relembrar, desta vez um número que aparece numa das fotos chamou a minha atenção, decidi pesquisar o que seria.
E cheguei lá.
http://cantinhodacasa.blogs.sapo.pt/25-de-abril-de-2017-1328922

Não vou especificar nada, não conseguiria explicar o que tenho lido e o que me capta a atenção, pela qualidade da escrita, dos testemunhos de guerra e da veracidade dos factos passados em Angola, Moçambique e Guiné.
Envio-lhe um link de um blog de ex-combatentes que pode ser interessante para a sua pesquisa.
Este é da Guiné, mas sei que há também Angola e Moçambique.
Gostaria de lhe dar os links, que na altura encontrei, mas como o meu interesse era na Guiné, debrucei-me neste.
Penso que destes link poderá chegar ao grupo de Angola e Moçambique.
Prometo vir cá lê-la, incluindo o seu blog nos meus favoritos.


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search?q=desaparecidos+em+combate

http://ultramar.terraweb.biz/index.htm

Rita PN disse...

Muito, mas muito obrigada pelas suas palavras e pela visita a este cantinho.
O Robinson é o sábio aqui do "bairro" Sapo. É um privilégio enorme poder trocar ideias com ele. É alguém que nos acrescenta sempre algo mais ao conhecimento e enquanto pessoas. Se não for seguidora do Robinson, aconselho vivamente :-)

É com enorme gratidão que guardo os links que me deixou, que serão, sem dúvida, uma mais valia para esta minha aventura por tempos nos quais ainda nem era nascida. Tenho uns curtos 28 anos apenas, mas este é um tema no qual tenho particular interesse. Não me recordo de ver a Guerra Colonial Portuguesa nos livros da escola, tão pouco de o tema nos ter sido apresentado e explicado. Sempre foi abafado ou ignorado, guardado em caixas de sapatos e escondido nos sótãos de memórias abandonadas. Aquilo que sei fui lendo em livros, fui vendo em documentários e ouvindo pela boca daqueles que por lá estiveram. E foi no cruzamento de relatos reais, com a informação pública que documentada que me apercebi que nesta Guerra havia algo mais que não se convinha saber e que, por isso, era ocultada alguma verdade e também o lado humano da questão.
Decidi por mãos mãos à obra e fazer a minha investigação e trabalho de casa. Escrevo os relatos que me são contados, assentes em factos verídicos e coloco um nadinha de ficção e muito humanismo. Porque é o lado humano e as emoções que me interessa relatar.
O projecto será um livro, caso consiga levar avante este trabalho.

O seu contributo é muito bem vindo. Um beja haja por ter passado por aqui.
Vou agora passar no seu cantinho :-)
Um beijinho

Maria Araújo disse...

Olá.
Descobri o blog do Robinson há algum tempo e lembro-me de uma altura trocarmos, entre nós, Rita, Robinson e eu, algumas palavras.
Tenho muito para ler no blog do Robinson que é, indiscutivelmente, uma pessoa com bons conhecimentos de quase tudo, uma pessoa que nada impõe, partilha as suas ideias, e muito mais que nem sei descrever.
Sou uma muito pequena leitora neste mundo da blogosfera, nem sempre tenho a capacidade que gostaria para comentar a riqueza dos textos que escrevem.
Mas quando comento, faço-o com prazer.
Admiro muito a qualidade de jovens que aqui deixam os seus conhecimentos e experiências e no caso da Rita, nem me atrevo a dizer nada.
Em relação aos links, sei que vai ficar deliciada ( uma palavra que talvez não fique bem aqui, pelo assunto tão delicado que em nada ajudou os portugueses. Deixou, sim, muitas feridas, muitas mágoas, não só nos jovens que foram para a guerra, mas também nas suas famílias) com os testemunhos, muito bem escritos, que nos prendem a atenção. Quanto mais se entra na sua leitura, mais se quer ler.
Desde o início,o meu irmão e alguns amigos, foram contrariados cumprir o serviço militar, cá em Portugal .
Para a minha mãe foi um suplício. Uma mulher muito nervosa, sofredora, dedicada aos filhos, porém sem mostrar afecto. Mas os filhos entendiam o seu jeito de amar (tinha 2 anos quando faleceu a mãe, foi criada pela mulher do 2º casamento do pai, e que ela não gostava).
Quando ele foi para a Guiné, foi a infelicidade dela, a angústia, o pavor: de tudo.
Um aerograma que não chegasse dentro dos dias que considerava o limite de o receber, era o desespero.
A caixa do correio do prédio fica em baixo, o nosso andar era ( e é) o 2º. Quem ia à caixa do correio ver o que havia de notícias, era eu.
Bastava demorar um minuto mais que o que ela considerava normal, levava-a a pensar que abrira o aerograma e havia uma má notícia.
Eu dizia-lhe que as más notícias chegavam por telegrama ( naquela altura e até há alguns anos, os telegramas eram a via mais rápida de comunicação.
Meu irmão era divertido, tinha um jeito especial para contar anedotas, mas a tropa fê-lo tornar-se dependente da bebida, sobretudo cerveja, e fumava muito.
Mas era um grande homem, pretendido por muitas mulheres, quando jovem.
Infelizmente, faleceu de cancro da laringe, com 55 anos, cerca de seis meses depois de a maldita doença dar sinal.
Estava separado da esposa, fui eu que cuidei dele.
Gostaria de lhe contar histórias que ele contava da Guiné, e do povo Guineense, mas na verdade não me recordo.
Esta conversa, desculpe, para a congratular, e tão jovem que é, pelo seu interesse em conhecer o que muitos não querem saber.
É invulgar alguém querer escrever sobre um assunto tão delicado e que a maioria das pessoas, e governantes, não lhes interessa reviver.
Está esquecido na história que me parece que nunca foi estudado na História de Portugal.
Boa sorte para a sua pesquisa e se um dia escrever e publicar um livro, peço-lhe que me diga.
Quero comprar e com direito a autógrafo.
Beijinho, Rita.




Maria Araújo disse...

É uma bela metáfora.
Encaixa muito bem neste seu texto.

Rita PN disse...

Muito obrigada, Maria :-)

Rita PN disse...

Pois foi, julgo que no artigo que o Robinson escreveu a propósito da Padaria Portuguesa.
De facto o Robinson é tudo isso que a Maria descreveu! A blogosfera só tem a ganhar com bloggers assim!

Quero agradecer-lhe a sua partilha pessoal. Tem pontos com todo o interesse para mim. E quanto aos links, Já espreitei e muito, mas muito obrigada. O site dos antigos combatentes já o havia lido quase todo, os outros ainda não. Foram sem dúvida uma mais valia.

No blog da Kalila tem mais 4 links (parecem um único,as são 4) com mais artigos a respeito da guerra escritos por mim, aqui no blog.
Se quiser ler, será um gosto.

Claro que sim! Não será muito brevemente, mas quero muito lançar e será com todo o gosto que darei o devido autografado é que constará da minha lista de agradecimentos na colaboração.
Se quiser partilhar algo mais, pode utilizar o meu e-mail que se encontra disponível no meu perfil do blog.

E mais uma vez, o meu enorme agradecimento pelas palavras dirigidas!
Um bem haja.

Maria Araújo disse...

Foi nesse post, sim!
Obrigada pelas palavras.
Quando escrever um e-mail, fá-lo-ei pelo gmail. Prefiro ao do Sapo.
Boa semana.

Rita PN disse...

Foi o Robinson que me disse para espreitar o seu comentário, na altura :-)
Foi um prazer.
Óptimo, eu também o mail que tenho no perfil é o gmail.
Não tenho e-mail do Sapo.
Obrigada e uma ótima semana também para si.
Um beijinho

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