Atravessar a humanidade deserta
de mochila às costas
e beber do sossego das pontes
que me unem.
Externa, do lado oposto do mundo,
ligo-me p'lo coração
às paisagens suburbanas,
ao chilrear das aves no campo,
à ternura bucólica de uma tela,
que pela janela,
baixa-mar dos meus olhos,
entra serena.
Atravessar a devastação
das almas vazias e esperança morena,
ardida a chama,
por que ao mundo vieram?
Naufragar nas cândidas águas de um rio.
Ser nenúfar.
Flutuar num pântano.
Não saber de nada.
Nem de mim.
Partir.
Rufar como tambores em surdina,
gritar como o silêncio
e, para lá da rotina,
ligar-me p'lo coração à paixão
de um poema vivo.
Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Travessia
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7 comentários:
lindoooo
muito obrigada minha querida Fashion
Muito bonito, como sempre.:)
Li, como se ouvisse a declamar! No final aplaudiria e diria! Bravo!!! Um beijinho ⚘
Muito obrigado pelo carinho :)
Carla, tão bom receber as suas palavras! Sorri. Muito obrigada pelo carinho e pela leitura! Um beijinho grande
Será que se consegue escrever um mundo tão diferente e apresenta-lo a este, tão negro e egocêntrico?
« Para lá de mim, a humanidade.
Para cá, a caminho do meu ser,
as pontes, o mar, o sol, as flores,
os vales, o arco-íris, as fontes,
o luar, o amor e o acreditar que
externa, do lado oposto do mundo,
hei-de chegar, eterna e devagar,
a leves braços humanos
onde inteira possa ficar
...
E ser poesia.»
Conseguimos fechar os olhos e ver tudo isso, quando, ao abri-los, nada nos será tão belo como quando são por palavras?
Eu aqui falo por mim, que sou passivo a tudo o que vejo, e só depois desse momento lhe atribuo-o as palavras que ficaram com desejo de serem ouvidas, e que não lhes ofereci esse privilegio, deixando-as a pertencer ao silêncio.
Sempre me pertenceu isso, ver as coisas dessa forma, porque nunca me vi capaz de realmente iluminar algo com o simples olhar ou proferir as palavras certas numa qualquer ocasião... Ao contrário de nas palavras, onde, mesmo que involuntariamente, ao ler encontro luz ou negritude nas coisas que leio ou faço. E, as palavras certas surgem depois de revista a composição, não sendo as variáveis algo tão perturbador como no momento, e assim oferecendo um certo conforto por apresentarmos mais ou menos o que queríamos ter dito... Até assim o falho, a maioria das vezes, fazendo-me refletir o quão errado não é então o meu pensamento no momento em questão...
Sempre acreditei que as coisas se resolviam de formas simples porque as complicações deviam-se a meras futilidades, ou implementações pouco práticas. Acreditava que as palavras poderiam mudar algo, quando tão bem apresentadas... Mas hoje, apenas encaro-as como um outro meio para propagar seja lá o que elas carregarem.
Não se pode viver em dois mundos, pois a rivalidade entre eles será travada no nosso corpo, na nossa mente. Sofreremos porque queremos o bem num mundo caótico. Queremos a cor numa paisagem a preto e branco...
Queremos iluminar o que rouba a energia da luz.
Queria eu... Viver na poesia. Na intensidade que ela oferece à vida. Em encontrar os inalcançáveis sonhos e desejos, e saber que um dia os viveria... Porque os escreveria... Queria eu... Viver na poesia.
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