domingo, 22 de março de 2020

REFLECTINDO SOBRE: Hoje, a semana passada, quarentena, união, fracturação, famílias, individualidade, rotinas e outras coisas


Há uma semana atrás, era nossa a sensação de comando da vida. A sensação de que, se assim o entendêssemos, quase tudo seria alcançável e possível, mesmo quando nos desencontrávamos de nós próprios no meio da rotina, dos sonhos, da ambição ou o dia não nos corresse de feição.


Há uma semana atrás, também nos zangávamos, entristecíamos e gritávamos... mas sabíamos que também isso iria passar.
Há uma semana atrás, tínhamos inúmeros lugares para onde "fugir" de nós, dos outros e dos nossos. Era nossa a certeza de sermos donos do tempo. Era nossa a liberdade da fuga, com que enganávamos as contradições ou a infelicidade que nem sempre se querem combater, enfrentando-as, com tomadas de decisões, quantas vezes difíceis.


Há uma semana atrás, era nossa a certeza de um amanhã à nossa maneira, e de "um destes dias" fazer apenas o que apetece, de ter o tempo e o espaço individual necessário ao bem estar emocional ali à mão, o de saber que na nossa ausência alguém protegia e ensinava as crianças, lhes aturava as birras, lhes dava de comer, para que no final do dia fossem apenas nossos os melhores momentos, brincadeiras e abraços.


Há uma semana atrás, tínhamos a certeza de que as relações implicam cedências, respeito, partilha, adaptação, cumplicidade, amizade, concordância no direito de discordar, capacidade para enfrentar adversidades e o desconhecido. Mas, há uma semana atrás, também conhecíamos o sabor do desalento, do desencanto, do cansaço, da dúvida e da saturação...
Porém, mantínhamos activas as escapatórias possíveis. Afinal, a semana passada, era nossa a convicção da omnipotência.


E eis que, de súbito, sem que os pré-avisos vindos do Globo nos alertassem eficazmente para outro cenário, é nossa a incerteza, o medo, o desconhecido, a instabilidade, a zanga, a tristeza, a inquietação e a insegurança... mesmo dentro da nossa própria casa.


A imposição de uma quarentena trouxe-nos como novidade a necessidade absoluta de recolhimento em família, sem que outra escolha nos fosse apresentada. Sem que a rotina nos alimentasse a vida e nos desculpasse as faltas...


Hoje, é necessário satisfazer todas as necessidades básicas, emocionais e pedagógicas dos filhos, é necessário conhecê-los para além das actividades de fins-de-dia, das birras de supermercado, da sopa que não termina, dos heróis dos desenhos animados, da história antes de adormecer. É necessário suprir-lhes todas as ausências que também se lhes impuseram, controlar os medos, mantê-los saudáveis entre quatro paredes, sendo, para isso, também necessário dispor de doses extra de atenção, dedicação e amor.


Se já são adolescentes, é preciso, de rompante, saber entrar, compreender e viver com o mundo dos filhos, assim como ter estofo para lidar com todas as suas privações, frustrações, opiniões, conflitos, tentando impor-lhes convivência, rotina e hábitos caseiros a que nenhuma das partes estava habituada.


E, a par, vemo-nos a braços com uma relação confinada a um espaço reduzido, onde, se por um lado existe a oportunidade de a reinventar, mediante a descoberta no e do outro, da partilha do tempo outrora ausente, de momentos a dois, da divisão de tarefas, de aprendizagens conjuntas, do olhar mais demorado, da cumplicidade agora mais viva, da presença e das conversas adiadas ao longo dos tempos, é também verdade que o momento que se atravessa é propício a discórdias profundas sem fugas possíveis.


Desde logo a educação dos miúdos, passando pelos hábitos e pelo desmazelo de cada um, da culpabilização do outro, da gestão do tempo e dos recursos, do stress, da incerteza, do medo, da condição, do afastamento que mantinha a união... sem esquecer as fragilidades anteriores da relação, assim como (alguma) possibilidade de descontentamento, desalento, de dúvida, de infelicidade ou aparência...


Mas, pensamos, ainda a semana passada existíamos nós (o nosso eu) ... e o nosso tempo.
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Quero com isto alertar para a necessidade, enquanto seres humanos e, por isso, racionais, de não se romancear demasiado o momento e ter em mente que a realidade de uma imposição abrupta de união poderá, em certos casos, revelar-se fracturante. Isto fará com que estejamos abertos e disponíveis para ajudar, se necessário.


Quero com isto alertar, para que se aprenda com os exemplos dos outros, desde logo com o aumento exponencial dos divórcios na China, assim como dos números da violência doméstica, para que possamos criar as nossas próprias defesas, a fim de evitar o que depender de nós poder ser evitado.


Quero com isto alertar para que o amor, a felicidade e o bem-estar interior são o nosso maior tesouro e que há que ter bem firmes as certezas quanto ao lugar onde queremos realmente estar e com quem. Assim como ser verdadeiros no que à aceitação de factos e acontecimentos reais e diários diz respeito.


Se ainda a semana passada não existia espaço nem tempo para a reflexão, hoje temos todos uma excelente oportunidade de pensar construtivamente na mudança que temos vindo a adiar, na vida e no nosso futuro, para que o possamos criar da forma mais forte, sustentável, unida e feliz possível.
Sendo, também, nosso o tempo de entender que a sorte dá (muito) trabalho e que felicidade está na simplicidade das mais pequenas coisas da vida, quantas vezes à vista, enquanto nos cegamos para elas.


Tenhamos a ousadia de arriscar sermos felizes, porque ainda estamos aqui.


 

2 comentários:

cheia disse...

O mais importante é pensarmos que queremos continuar a ficar por aqui.

Boa semana

Rita PN disse...

Mas com qualidade e detentores do maior número de momentos de felicidade possíveis, creio.

Boa semana e força :)

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