segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Princípio do Pressuposto

Sem olhar, ao espelho, a própria face.
Louco que julga saber ser o outro,
à força de não ter
vontade nem prazer
de, aos demais, o lugar entender.

Além mundo, a sua porta.
E nada mais suporta.
Que importa?

O olhar emprestado,
a voz de todos sem ninguém:
o princípio do pressuposto
por intuir ser suposto
seguir e estar disposto
ao raciocínio de outrém.

Sem a frágil piedade,
por coração de quem cedeu,
fala o Homem sobre a vida,
sobre a história e a divisa,
sobre o que nunca conheceu.

Lugar comum, o seu,
se fácil é a explicação,
ante a incompreensão
de quem sofreu.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Alma

Traz a alma na ponta dos dedos
e ao peito o mundo.
A nota que rasga a palavra,
entre os vagarosos silêncios
de uma guitarra
que, ao longe, toca baixinho.
Fluem cores no horizonte
e um cego vê para lá de um muro.
O ruído cessa
o mundo abranda
e a música abraça a esperança
que enlaça
o voo tingido de uma borboleta
a quebrar o casulo.
A vida
a viagem
a passagem
e o poente, de um sol dedilhado
que descai, persistente
sobre o regaço do mundo.

domingo, 4 de outubro de 2026

Talvez o céu

 

Derramadas as estrelas
sobre a noite quieta,
serve-se a vida
em chávena quente.

Lá fora, anamnese sonora:
dois corações que se tocam, distantes.
Dentro de si, estrangeiras:
as emoções vagueiam,
quase miragem
à margem das circunstâncias.
Transpostas fronteiras, o amor lidera
e os corações encontram-se
no espaço tridimensional
do afecto:
pele com pele
boca com boca
corpo com corpo.
Despojados de procedimentos
metodologias
normas
e tutoriais para comportamentos,
incuprem e amam
sem distância.

Perto:
lugar secreto
do agora
onde a vontade demora
e só a verdade consegue chegar.
Ficar:
distância longa,
excesso de perto.
Dois corações que se tocam, distantes.

Talvez o céu.


 

Princípio do Pressuposto

Sem olhar, ao espelho, a própria face. Louco que julga saber ser o outro, à força de não ter vontade nem prazer de, aos demais, o lugar ente...