domingo, 28 de dezembro de 2025

Trivial

Estamos todos abastecidos de solidão.
A trivialidade da morte
num jogo de sorte,
num golo de vida.
Subindo o presponto,
do indivíduo,
à bainha por fazer:
memórias.
O regresso à tardinha,
aos cheiros que a vida tinha
aos reencontros por fazer.
A rua a descer
direita ao bar
habitualmente vazio,
dois tostões na mão:
preço do coração que se traz.
No copo,
saudades de quem ainda não se conhece
e do lugar onde amanhece
sem nunca termos lá estado.
Distopicamente:
calado, o silêncio preenche
a casa inacabada que se traja.
Construção empírica e pilares de ferro
racionalmente fundido:
descrente ao nascer,
dogma defendido ao envelhecer.
Transcendente
autista
demente
alienado
estranho
fechado:
o Poeta permanece
sem nunca se concluir.
Paredes por subir,
telhado não tem,
às estrelas
é o chão que as sustém,
porque o céu nunca chega...
E quando chega é sempre cedo demais.

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Os outros, nós e a empatia

🖊 Estranhos são os tempos que atravessamos, onde a capacidade empática parece assumir o comando das habilidades a desenvolver, para que nos mantenhamos à tona e possamos auxiliar outros nesse processo.

Falar de empatia é, muito provavelmente, falar de uma das funções mais importantes da inteligência humana, intimamente relacionada com a maturidade de cada um e com a gestão das emoções.

Ser empático é poder usar a capacidade de abertura para conhecer a realidade do outro e conseguir intepretá-la, assim como compreender tudo o que é comunicado e expresso através de palavras, ou de formas de expressão não verbais. Não é necessário que se tenha, em algum momento, experienciado, sentido ou vivido um capítulo idêntico, é apenas necessário estar disponível à conexão.

Sem praticar o julgamento precipitado, um ser empático procura auxiliar e compreender o comportamento alheio, em fragilidade, conseguindo estabelecer entre o próprio e o outro um equilíbrio entre aquilo que dele se espera e aquilo que esse alguém lhe poderá, efetivamente, oferecer. Colocar-se no lugar do outro, por outras palavras; o que não é tão fácil quanto possa parecer, embora nos seja, diaria e repetitivamente, imposto.

Ao longo da História, a humanidade sempre evidenciou dificuldade em lidar com a diferença, criando, nas sociedades onde se insere, lugares cativos que crê serem apenas destinados a outros, desde logo às minorias. Por consequência, tanto a alteridade como a empatia, por serem habilidades complexas com necessidade de desenvolvimento e trabalho ao longo da vida, dão lugar à facilidade e à necessidade recorrente de classificar cada qual nesse seu lugar diferente.

E que lugar é esse? É o lugar dos fracos, da mulher, dos pretos, dos brancos, dos homossexuais, dos inválidos, dos inteligentes, dos menos dotados, dos doentes, dos loucos, dos diferentes - resida a diferença naquilo que for.

Para que nos seja possível a colocação num outro lugar, que não o da nossa situação e condição, é-nos absolutamente necessária a abertura, a consciência e a racionalidade. Sem elas nunca nos será possível o auxílio, a compreensão de comportamentos, sentimentos e emoções.
Com clareza, não nos será possível saber nada a respeito de experiências que não foram por nós vivenciadas. Todavia, será sempre possível estar disponível a acolher e ouvir a experiência do outro, permitindo que a pessoa se mostre como é e seja quem ela é, aceitando que os resultados das acções e das experiências dependem de vectores diversos com influência no nosso caminho e não apenas de factores individuais, como a responsabilidade pessoal e a determinação.

E se fosse contigo?

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Alma

Traz a alma na ponta dos dedos
e ao peito o mundo.
A nota que rasga a palavra,
entre os vagarosos silêncios
de uma guitarra
que, ao longe, toca baixinho.
Fluem cores no horizonte
e um cego vê para lá de um muro.
O ruído cessa
o mundo abranda
e a música abraça a esperança
que enlaça
o voo tingido de uma borboleta
a quebrar o casulo.
A vida
a viagem
a passagem
e o poente, de um sol dedilhado
que descai, persistente
sobre o regaço do mundo.

sábado, 15 de novembro de 2025

Há sempre


Há sempre outro sol, outra estrada,

Uma improvável flor na calçada,
um abraço onde falar de amor.
Há sempre outra hora marcada,
se a vida nos foi adiada,
bateu forte e despojada 
duvidou da sua cor.
Há sempre outro chão, outra foz,
um peito onde adormecer os sonhos!
Um cais que espera por nós,
depois do breu
dos tempos sós.

Há sempre verde uma esperança
em quem, por nós, fica e avança,
para que a lua nasça e nos fascine.
Há sempre, no sabor doce da lembrança,
uma eterna e cândida herança
que o amor nos concedeu.

E se incerta a hora tardar,
Há uma luz no teu olhar
que te indica a direção.
Nos tumultos desta vida,
não há sombra nem ferida
que perdurem…
à luz mais bela e antiga
do teu nobre coração.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O Artesão de Poemas

O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Retirava da vida a inspiração e da Natureza, a matéria necessária a cada criação.

Era eu ainda criança quando o vi, pela primeira vez, abraçar um tronco de madeira trazido pelo senhor Carvalho, lenhador da nossa aldeia.

- Alberto, este é íntegro o suficiente para ti. Não merece a morte pelas cinzas. Dá-lhe vida, ancião.

E o meu avô segurou cuidadosamente nos braços aquilo que, para mim, não era mais do que um pedaço de madeira grande e pesado. Os seus olhos fixaram-no, ternurentos, como quando olhavam para mim. Tive a sensação de que embalava uma criança. C’os diabos, que imaginação a minha, aquilo era só um tronco morto e sem vida.

- Entenderás a seu tempo a poesia da vida, meu rapaz.

Pousou o tronco e afagou-lhe o dorso, suavemente, como quem desperta os sonhos das mãos.

-Não te sinto o coração, velho madeiro, mas dar-te-ei o meu.

E foi assim que vi nascer o que, na altura, não entendia, a Poesia, esculpida pelas mãos do meu avô.

-Clarice. Clarice, a tua avó meu rapaz.

O meu avô Alberto era artesão e poeta. Tinha sonhos nas mãos, mas não sabia escrever. Esculpiu os mais bonitos poemas, entre os quais a minha avó, que nunca cheguei a conhecer.

O meu avô Alberto não sabia ler, mas sentia. E sentir foi o que fez dele o maior Poeta da nossa aldeia e o maior mestre artesão da história daquele lugarejo.

- A poesia não são palavras que rimam, meu rapaz. São palavras que se sentem. Eu e a tua avó fomos poesia e os nossos nomes não rimavam.

 

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Mar nos olhos

 

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, o sol poente.
Escrever poemas na pele
e salgar as ondas
que te nascem no cabelo.
Olhar-te fim de dia
sobre o azul que trago
e estender o céu...
Fazer-te casa no peito,
de areia fina, o leito
(ainda horizonte)
onde te abraço.

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, um barco à vela.
Abrir sobre nós a janela
e viajar para além da vida.
Deitar-te em mim, sobre os sonhos
e adormecer,
sem ter que saber velejar.
Entrar-te a correr pelas mãos
e ficar
onde o acaso acontecer.

Ter nos olhos o infinito
e a ti também!

 

 

domingo, 13 de julho de 2025

A guerra não cabe numa caixa de sapatos

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Nota prévia: Republicação de uma das crónicas que escrevi àcerca da Guerra Colonial Portuguesa. Baseadas em testemunhos reais, por mim recolhidos, com um toque de ficção que em nada fere o realismo da História.
De avô para neto, estas crónicas são cartas de vida deixadas para que a memória e o tempo - mas também os tempos - não nos atraiçoem. 

 

A guerra nunca foi restrita a quem nela combateu. Não foi, nem será, uma realidade menor, dobrável e condenada ao esquecimento, se arrumada numa caixa de sapatos antiga. Há, nos pés dos homens, sapatos cujo desgaste das solas é indissociável do desgaste da vida. 

Diz-me meu neto, quantos sapatos tens e quantos trilhos traçaste?
Não mo digas, acaso sejam mais os sapatos guardados do que os quilómetros de vida por ti percorridos.

Nunca o conforto dos pés – em caminhos que não são os nossos - deverá suplantar o conforto da vida. É no desgaste das solas que o Homem se vê.

Desde o começo que a guerra afetou a sociedade – mesmo que o sistema o negasse. Primeiro, com o sofrimento da despedida daqueles que, como eu, partiam para África. Depois, com as notícias das primeiras mortes e feridos, que foram uma constante durante os anos que se seguiram.

 Na frente de combate não era frequente privarem-nos de ração – que combinava com a nossa nova face primária - armas, munições e fardamento. Contudo, na retaguarda, subia o número de feridos, que se amontoavam nos pequenos hospitais militares, inadaptados e incapazes de suprir as necessidades e os cuidados de que os homens careciam.
Nascia assim, aquilo a que, no seio das Forças Armadas, se chamou Exército de Deficientes, que eu suavizo e apelido de cagulo bolorento do Exército.

Na verdade, esta linha do exército não parou de aumentar, eram cada vez mais os jovens soldados que, na flor da idade, ficavam cegos, contraíam doenças graves – algumas incuráveis - viam os seus membros amputados, ou desenvolviam distúrbios psicológicos. Jovens, cuja flor nem tempo teve para murchar, tamanha foi a violência com que viram as suas pétalas arrancadas. (Tu não sabes, não tens como saber o que é sofrer uma poda definitiva na vida, meu neto. Mas sabem-no eles, esses, aqueles para quem jamais a vida se renovou. Tão pouco com a chegada da primavera). 

Durante a guerra, foi notório o crescedum de caixões transladados. Privilégio daqueles cujas famílias podiam pagar, posto que os custos da morte não eram suportados pelo regime, nem pelas Forças Armadas Portuguesas. Os outros, sem posses, não podiam fazer face às despesas de transladação. Ou eram enterrados nas zonas de combate, (por falta de meios de transporte) ou, com maior sorte, viam a sua última morada gravada numa chapa, nos cemitérios erigidos pelas forças militares, junto às suas bases operacionais.
Sorte?  - Questionarás. -  Sim, essa força sem propósito, imprevisível e incontornável que desencadeia acontecimentos mais ou menos favoráveis para o indivíduo. Entre morrer vivo e assim continuar, apenas existindo, até ao derradeiro cair do pano, ou ser enterrado no mato, que se morra definitivamente - e de uma só vez - e se seja enterrado com dignidade.

Os deficientes da guerra, a face mais visível e transparente dos confrontos, aquela que, ainda hoje, a sociedade mais dificuldade tem em encarar, foram, na época, considerados “inválidos”. Homens que representavam um verdadeiro e pesado fardo para as famílias, que se viram, pelo Estado, obrigadas a esconde-los, como se de impostores se tratasse, caso não lhes fosse atribuída morada nos hospitais militares. Isto porque, oficialmente, Portugal não se encontrava em guerra e a aparição em praça pública de corpos amputados, homens em cadeiras de rodas, cegos ou transparecendo distúrbios vários, poderiam levantar interrogações incómodas para o regime, a respeito do que que era, afinal, a realidade vivida nas colónias de África. 

Um regime cujos passos eram incontestáveis, mas que não mostrava as solas. Um regime cujos sapatos, à medida que pisavam terreno pantanoso, eram de imediato substituídos. Um regime que fechava em caixas as vidas que, pela pátria, eram dadas. Muitas delas detonadas, por minas, num passo em frente – alguns dirão em falso - por aqueles que em nome de Portugal combateram.

Pensa agora meu neto, quantos são os sapatos que tens e quantos trilhos, com História, tens vindo a percorrer. 

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...