"Algoritmocracia", de Adolfo Mesquita Nunes, parte de uma constatação inquietante: as democracias contemporâneas já não são apenas moldadas por instituições políticas e media tradicionais, mas por algoritmos que organizam, filtram e personalizam a informação que consumimos.
Estes sistemas não são neutros, operam segundo a lógica da maximização da atenção, com consequências profundas. Cada pessoa passa a viver numa realidade informativa ajustada às suas preferências, crenças e fragilidades, o espaço público fragmenta-se e a base dos factos, essencial ao debate democrático, começa a desaparecer. A verdade deixa de ser o principal critério, sendo ultrapassada por conteúdos emocionais, extremos ou polarizadores que, não sendo mais rigorosos, geram, indubitavelmente, mais envolvimento.
O resultado é um ambiente em que o choque substitui o argumento e o racional, a indignação substitui a reflexão, a viralidade se sobrepõe à verdade e a mentira, tal como o discurso inflamado, deixam de ser exceções tornam-se estratégias eficazes.
Simultaneamente, a personalização extrema reforça bolhas informativas, onde os utilizadores são expostos sobretudo a ideias que confirmam as suas convicções, reduzindo o confronto e o diálogo com perspetivas divergentes e transformando o debate democrático numa soma de monólogos.
Há também uma inversão silenciosa das fontes do saber, num ecossistema dominado por visibilidade e viralidade, os influencers ganham protagonismo em detrimento da ciência e do conhecimento especializado que passam a competir num terreno que não foi desenhado para premiar o rigor e a verdade, mas a atenção e os ganhos.
Nada disto significa rejeitar a tecnologia, mas obriga a reconhecer que o espaço público está a ser reconfigurado de forma profunda.
"Algoritmocracia" apresenta-se, então, como um alerta. Mais do que uma transformação tecnológica, estamos perante uma reconfiguração profunda do espaço público e da formação da opinião. Sem maior transparência, regulação e literacia crítica, o risco é que o poder efetivo se desloque silenciosamente das instituições democráticas para os sistemas algorítmicos que moldam aquilo que vemos, a forma como pensamos e, em última instância, aquilo que decidimos.

Sem comentários:
Enviar um comentário