terça-feira, 16 de outubro de 2018

Névoa

Há, fora do tempo, 
outro tempo que nos fazia; 
no território das horas inatingíveis,
à boleia do navegar de um veleiro
p'lo tecido azul da tarde.


À proa da névoa, em manto branco envolto,
o alongar do deserto fez-se certo em meu peito.
E p'la sombra prolongada,

morria a lua dilacerada, à noite na baía.
Não podia, porém, saber que era meu o cadáver
que ali sorria,
com a memória da lembrança adiada,
dos sonhos que ainda trazia.


Hoje, trago a roupa cansada 
da solidão deste quarto.
E os sapatos, de sola ausente, gritam
elevando-se ao silêncio das letras 
que à meia-noite me confortam, 
sempre que me vem à boca a saudade dos beijos que já não dei...
no seu travo a licor amargo
de um amor que não se cumpriu.


Heresia ou eco de um destino breve,
que cedo e agreste
a bordo de um veleiro anónimo partiu.

2 comentários:

David Marinho disse...

Fechar ciclos sem se cumprirem às vezes é solução.

David Marinho disse...

Sei...
És forte, ok?

Hipoteticamente

Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...