segunda-feira, 10 de abril de 2017

Passam todos por passar

Já não conheço ninguém
no entanto, a todos vejo e oiço a voz da indiferença,
quando passam. Passam todos por passar
sem olhar para quem fica,
para quem não foi,
para quem não seguiu
num passo cheio de falsa pressa
que sem entrega,
alcança lugar nenhum.
Passam todos por passar,
como as sombras com que lavaram o rosto de manhã
passaram-nas uma, duas, três vezes – ensaboadas -
na esperança vã de – destronadas - as nódoas da vida
ensanguentadas não lhes mancharem o amanhã.



Passam em linha reta, como se eu não estivesse aqui.
De mim, apenas os seus olhos se desviam;
estou roto, sujo e cansado - mesmo assim eles não viam.
Que ignorância trazem no olhar...
Luzisse eu e ofuscaria.
Mas não. Não quero que me conheçam pela luz.
Se me querem conhecer, mergulhem na mais profunda escuridão,
no lamaçal das incertezas, no pântano que me engoliu os sonhos,
no deserto onde fui abandonado e onde fuzilado,
o meu passado morreu.
Desçam à caverna e aprendam a ver no escuro.
Tropecem na lâmina afiada que vos corta e arranca – sem dó -
um bocado de carne.
(ó que imperfeito estou! A cicatriz que ficou não condiz com a beleza.)
Bem sei. São marcas de guerra.
- Mas a estética… é isso que vos causa dor? -
Cortem-se e chorem. Derramem lágrimas de dor. Sentida!
Conheçam o ardor de um peito que sufoca sem amor
e depois, renasçam.
Sentem-se aqui comigo nas escadas do metro
rotos e sujos, a descansar do peso dos sonhos que ainda carregam.
Ou será que não os trouxeram?
É isso que aqui estou a fazer, a descansar e a ver-vos passar
todos iguais uns aos outros. E vazios.


Desenganem-se. Não quero esmola.
Não sou mendigo, nem pedinte.
Sou ouvinte do amanhã.
Como me achais igual a vós?
Vós que o sois, pedintes. Precisais de sonhos, mortais!
Vinde! Sentai-vos aqui, é este o vosso o trono.
Ficai.
Eu vou fazer-me ao caminho.


9 comentários:

Robinson Kanes disse...

Acredito que estamos no seguimento de uma decisão já tomada… :-)

Rita PN disse...

Uma entre as várias que ainda virão ;-)

Sempre perspicaz nas análises feitas, caro Robinson! Um beijinho

P. P. disse...

Excelente.
Um retrato dos nossos dias.

HD disse...

Mais um belo poema muito atual, apesar do contexto ;)
Tem um bom balanço, reflexe algumas indecisões iniciais superadas :D

Rita PN disse...

Obrigada HD! De facto. Encerra superação, vontade, determinação e a sempre importante humildade. Numa outra face da moeda, transparece a superficialidade, a indiferença, o vazio, a descrença, a rotina, a automatização e o preconceito no seio da sociedade.

Rita PN disse...

PP, muito obrigada pela visita a este cantinho e pelo comentário. Poderemos considerá-lo um olhar transparente sobre a sociedade vazia de sonhos e algum preconceito, a par de uma imagem de superação e humildade.

P. P. disse...

Sem dúvida!

Kalila disse...

Boa jornada, amiga!
Beijinhos.

Rita PN disse...

Obrigada sapinha querida :-)
Uma beijoca!

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