
Comia-se mal e passava-se fome. Muita fome. A desorganização que se vivia e a falta de meios aéreos ditavam que não fossemos abastecidos corretamente. Existia, porém, algum apoio logístico a nível alimentar, mas apenas quando nos encontrávamos junto às viaturas. Se tal não acontecia, a nossa alimentação era baseada em ração de combate. Duas latas de atum e sardinha e um pacote de bolachas de água e sal, já com bolor. À exceção de um ou outro cabrito roubado, abatido e assado por nós, ou de meia dúzia de papagaios que por ali se matavam.
Alturas houve em que a escassez alimentar tomou proporções tais, que passámos a alimentar-nos de mandioca crua, do pouco que conseguíamos roubar nas povoações e daquilo que nos era dado a troco de favores que iam desde os curativos aos sexuais.
Nesta altura éramos já - e apenas só - animais do mato regidos por instintos, em busca da satisfação das necessidades mais básicas e primárias do homem.
Não me orgulho João Pedro, não me orgulho de perder a racionalidade e permitir que o desejo carnal se transformasse em algo tão básico como apenas fome de carne, que saciei em vários corpos diferentes.
Não sei quantos filhos deixei. Nem se os cheguei a fazer. Um homem quando age assim não é digno do milagre da vida.
Corpos. Eram apenas corpos. Tanto os que caiam em combate e que jaziam e apodreciam ao nosso lado, como os outros. Os delas. As que nos serviam o pecado tição.
Exceção feita à delícia do beijo da poesia negra – Shaira.
Recordo os seus lábios carnudos nos meus, num beijo que começava terno, calmo e molhado, mas que depressa me dominava e possuía. Entranhava-se em mim. Pedindo-me que me entranhasse nela. Que entrasse nela e me demorasse.
Não teria mais do que os seus dezassete anos e as proporções poeticamente exactas, num corpo que me pedia para ser lido e sentido ali mesmo, no intervalo preciso entre a hora da morte e o exato segundo onde o meu coração começava.
11 comentários:
Andas a fazer serviço público!
Estes artigos mereciam mais destaque.
Partilho a opinião do Robinson, merecem ser divulgados estes relatos sobre a Guerra Colonial
Mergulhada em águas profundas da nossa história, a ouvir quem as experienciou e a ler o pouco que encontro sobre um tema há anos silenciado e que acaba no esquecimento da sociedade actual.
Foi um período dramático. Muitos dos nossos ex-combatente, ainda hoje sofre de stress pós-guerra. Não lhes é fácil falar. Não lhes é fácil recordar. Não lhes é fácil viver na presença do passado, num constante sobressalto. Para outros, o que passou passou. Falam abertamente e gostam do ensinamento que transmitem. A todos eles, um sentimento comum: "Não somos lembrados senão em dias de cerimónias militares e aquando das comemorações do 25 de Abril. Quantas vidas foram dadas em nome da pátria? Essa mesma pátria que com o passar dos anos nos mata - a nós, os que deus salvou - e nos esquece."
Quanto ao destaque é como tu mesmo (hoje) evidencias-te, o buzz dos assuntos na ordem do dia são bem mais interessantes...
Obrigada por passares e por leres (aquilo que a muitos vai passar ao lado.. talvez por excesso de árdua realidade).
Muito obrigada pelas tuas palavras, Francisco! É bom saber-vos a lê-los!
O comentário que deixei em resposta ao nosso Robinson, serve igualmente de resposta ao teu comentário.
PS: grandes sonetos, os teus Ainda não tive o sossego necessário para percorrer a fundo o teu blog, mas do que li gostei. Amanhã passarei por lá tranquilamente e deixar-te-ei os meus comentários!
É com gosto e paixão que leio… infelizmente não estamos a aproveitar estes pedaços de história que ainda estão vivos… temo que quando tivermos interesse nesta matéria (se o tivermos) talvez já possa ser tarde...
Grata uma vez mais pelo carinho das palavras, no quesito meu cantinho diz respeito.
Quanto a não deixar morrer esta parte da história, farei a minha pequena parte.
Crónica, conto, ficção, realidade?... Narrativa de imensa força telúrica e trágica, atomicamente enriquecida. O que lhe confere uma enorme carga poética.
Uma sinergia entre realidade e ficção, introduzida apenas com o intuito de criar uma dualidade de emoções. Assim, os actos humanos e vivos contrastam com a dificuldade e fatalidade... Com a morte.
Grata pela apreciação poeticamente aconchegante!
De algum modo, a ficção é sempre isso, invenção e realidade. Sucede que a Rita não perde o chão nunca, nem o céu. E de repente estatela-se este e aquele sobrevoa, nunca se perdendo porque a poesia não deixa e, como todos sabemos, pode muito a força da gravidade.
É a vida, Rita, e a morte, pois é. De mãos dadas como nos recusamos a ver e, no entanto, como sempre estiveram. Uma carícia na testa a marcar o alvo...
Nunca estive na guerra - outras foram as minhas andanças - mas até parece que sim quando a leio. A arte tem esse efeito, sendo: cria comunhão - entre autor, obra e quem a experiencia; entre quem andou no meio calcorreando o cenário e quem ficou ou se manteve ao largo.
Gosto tanto da forma como se expressa! Eu não estou a ler um comentário ao meu texto, estou a ler vida! Muito, muito Obrigada :-)
Não. Está a ler precisamente (e muito obrigado pelo que diz) um comentário ao seu texto. Tudo o que eu já disse e venha a dizer neste seu lindo blog, é dos seus textos que nasce. Se associações no decurso me vão ocorrendo... a culpa é deles...
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