domingo, 10 de agosto de 2025

Mar nos olhos

 

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, o sol poente.
Escrever poemas na pele
e salgar as ondas
que te nascem no cabelo.
Olhar-te fim de dia
sobre o azul que trago
e estender o céu...
Fazer-te casa no peito,
de areia fina, o leito
(ainda horizonte)
onde te abraço.

Ter mar nos olhos
e nos teus, quiçá, um barco à vela.
Abrir sobre nós a janela
e viajar para além da vida.
Deitar-te em mim, sobre os sonhos
e adormecer,
sem ter que saber velejar.
Entrar-te a correr pelas mãos
e ficar
onde o acaso acontecer.

Ter nos olhos o infinito
e a ti também!

 

 

5 comentários:

Francisco disse...

Diz-se ser o amor um acaso. Mas há algo mais forte do que apenas o acaso em si, mesmo sem ocasiões e incondicionalmente, nem preciso de o exemplificar, talvez nem consiga sendo eu tão... Ah, prático, acho eu. Mas esse seria o amor familiar.

Quanto mais escrevo mais erro, porque não é com o pensamento que se ama, e eu não paro de pensar no amor. Não deixo de o romantizar, de lhe dar cores e cheiros sem os conhecer primeiro. Que coisa.

Nunca o soube e vou sabendo menos, como amar. É um caminho onde nem sequer sei que passos dar, quanto mais que trilho percorrer. Sei-o que não é sozinho, e aí peco por nunca ter vivido com mais ninguém para além de mim mesmo - Escrevi algures que, de tanto me procurar fechei-me em mim mesmo, com medo de me perder. Fugia daquilo que não queria, correndo atrás de tudo menos do que me daria vida. De que me vale, agora, saber que o que faço é o que me via fazer, que o que penso sou eu por dentro, se o que digo não corresponde àquilo que um dia procurei dizer...

Quanto mais terei eu que crescer, para começar a viver? Porque raios fui eu o próprio que se algemou e deixou as chaves no esquecimento? De que me vale agora a liberdade de viver, quando os pulsos feridos do passado que me agarrava, (a que eu me amarrava) latejam de dor quando procuro aquilo que não se encontra, não se vai atrás nem se cria... Que é o amor, esse sente-se, e mais nada!

Rita PN disse...

Francisquinho, acabei de ler o teu comentário e pensei "mas que idade tens tu? Alma antiga?". A forma como escreves tem sempre dor associada... sofrimento, o passado... trazes sempre o passado nos ombros, nas mãos, nos bolsos, nos olhos, na ponta dos dedos...
Lagar. Desprende-te. Faz as pases contigo e vive. Ninguém sabe nada do amor, o amor é que nos sabe a nós... Cada qual em si e no outro.
No meu caso, é exatamente por nada saber, que o escrevo. Se o visse com os mesmos olhos, que teria eu para dizer a respeito? Nada.
Nem silêncio...

Francisco disse...

O que mais me amarga a alma é saber que do passado, só mesmo a visão dele, que não carrego nada para além daquilo que já nele gostaria de ter vivido (que gostava que acontecesse, e que passou no tempo).

Arrastei-me durante muito tempo... Mas venho sempre aqui falar de mim, que nunca digo nada de jeito.

O que tenho que fazer não é largar nada, é começar a agarrar naquilo que quero que siga comigo, ao invés de guardar especulações, sonhos e emoções. Principalmente o último, deixar de aprisionar aquilo que sinto, pois por mais que escreva sobre isso, não estou a ser sincero, nem no sentir nem para comigo - Nem para quem o sinto... Pois é criação, manipulação, são palavras, e sou eu a escrevê-las não a contá-las. (Não houve a experiência, há apenas a vontade).

Bah... Eu fico triste comigo, de vir para aqui deixar sempre o meu lado - Nem lhe digo negativo, digo mesmo ''meu lado'', pois não me separo em Bom/Mau, é um dos erros que o tempo me ensinou a corrigir...
Dependo muito do tempo, só espero que não me acabe o mesmo, antes de poder «tê-lo».

Lost disse...

Belíssimo!

Francisco disse...

Pus-me a ler poemas teus, comentários meus e respostas tuas, assim como me fez ir ler poemas meus, comentários teus e respostas minhas... Sinto-me mais em paz hoje, também escrevo menos, tendo ficado na memória o peso que a tudo dava menos.
Gostei de voltar atrás e ler o que me escrevias, e o que das palavras que usaste fiz minhas. Também fiquei admirado em ler o que dizia, podendo muito bem dizer tudo hoje que ainda teria sentindo. No entanto, cambaleia menos o braço, é me menos voraz a mente e não se faz farto o pensamento... Uma leveza que sinto e demonstro ao escrever menos. Porque quanto mais escrevia mais pensava, mais sonhava no sonho e não fazia acontecer. Tornou-se o pensamento inimigo da vida, porque não se questiona a natureza, nem se chamaria ela tal coisa se o Homem não pensa-se. Fiquei mais leve, levando ainda tudo cá dentro. Se um dia da leveza levantar os pés do chão, se não das palavras mas do sentimento fizer asas, talvez escreva coisas mais belas, se beleza é o que está nas estrelas. Um abracinho Rita, e obrigado pelas republicações :)

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