terça-feira, 30 de maio de 2023

Excesso

Completo, o dia abre espaço à noite,
à lotação das sombras
ao cheiro das estrelas
aos repetidos caminhos do regresso,
entre filas e faróis fatigados.
Ao longe,
o silêncio:
rasgado pelo uivo dos cães tardios.


Toma a dianteira, o desconhecido,
desafiando-o:
rotineiro
habitual
automático
mecânico.
Para onde nos dirigimos?


Há um excesso que nos empurra e atropela:
emoções
informações
expectativas
ambições
e pressa. Muita, muita pressa
de chegar e não parar
até que se chegue
[sem lá se estar]
ao lugar de onde, ainda agora, se partiu.

Corpos de cansaço e fadiga
abandonados à força dos dedos
sustendo a fronte, à vida
e às ideias inacabadas,
onde se adormece e habita.


Há um excesso que nos devora, conduz e domina.

6 comentários:

Eugénio disse...

Penso que a vida toda ela é excessiva.
Um poema óptimo, adorei.

Abraço
Eugénio

Francisco disse...

Querer tudo de todas as formas e não haver forma de ter tudo!

O que lá se tem, é nosso e não o é, pois alguém lhe tocou, também. Quando pararmos de nos olhar tanto para dentro, e que a flor do vizinho também nos torne o dia mais colorido, as suas conquistas as nossas vitórias, os filhos dos outros as (nossas) crianças, e a decência em cuida-las como às nossas, seremos mais assim, com todos por perto, e teremos mais também, não andando a mente à procura mas sim a processar, pois não há espaço, e também o há, para fazer parte do mundo e não apenas viver nele!

Rita PN disse...

Obrigado pelo comentário, Francisco. Precisamos de mais contemplação e menos pressa. A viver estamos sempre.

Rita PN disse...

Talvez sejamos nós quem escolhe que assim seja. Cada vez menos sabemos lidar com as paragens, com o silêncio, com o espaço desocupado (tão necessário). De tudo temos pressa e a vida tem sempre fim.

Obrigado pela visita, Eugénio.

Eugénio disse...

O amor pelas coisas belas ajuda a travar o tempo. Há tanta vida à nossa volta! A escolha é nossa, de "beber, beber a vida sofregamente" como a Florbela Espanca dizia, ou desperdiçar em coisas intangíveis, coisas que não existem. Mas o seu poema existe e adoro-o por isso, por existir.
Abraço
Eugénio

Francisco disse...

''A viver estamos sempre'', - nem que seja ao lado da vida.

É isso mesmo, contemplar a vida, aquilo que ela tem e o que temos dela, daí o meu comentário acima. É pararmos de correr atrás do nada, e sentarmo-nos com alguém (ou sozinho), a observar tudo.

Mas não há propósito na vida e em viver se não for com alguém ou para tal; sozinhos? Somos animais, tendo até esses hierarquias e sociedades, tão ou mais funcionais, às vezes, que mesmo as nossas.

E quanto não escreveria mais eu, sobre tudo isto... mas não te quero maçar.

Um abracinho Rita, e obrigado por continuares a nos escrever!

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