Nunca dediquei poemas a ninguém,
ao invés disso escrevi-os,
de tal ordem que pedi que lhe cantassem a desordem
expressa naquela cadeira, onde me sento,
carpideira, desde o principio do mundo.
Às vezes, confesso, não tenho assunto
e ali fico, visita de Poeta moribundo
ignóbil, vil, asqueroso e sujo
como o Amor que nunca cantei.
Imaginei, porém, pura, digna, sobranceira e nobre,
sob o véu casto da Poesia que me cobre,
que percorria contigo todas as ruas do coração.
Pois não.
Nunca dediquei poemas a ninguém,
salvo a quem quero, de mão dada
e de soslaio, olhar embaraçada,
sob a vontade endiabrada
de lhe colher o sol do peito.
E se, por defeito, nenhum outro poema te for feito,
capaz de mim,
espero por ti aqui,
neste verso onde me deito
inábil, inútil, incapaz e sem jeito de te dizer:
Quero andar contigo de mão dada por todas as ruas.
1 comentário:
Este poema – ou confissão – pulsa com essa hesitação tão nossa, entre o silêncio e o gesto, entre o que se escreve e o que se vive.
Obrigado por este momento de silêncio cheio de ecos. Deu-me vontade de andar por aí, à procura das ruas onde as mãos se encontram sem saberem como.
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