
Ilustração de Flávio Horta
Dormíamos, a maior parte das vezes, no chão. Os colchões pneumáticos depressa desapareciam ou se deterioravam. Na mochila transportávamos qualquer coisa semelhante com um cobertor e três injeções, às quais recorríamos caso fosse necessário combater uma picada de inseto, ou a mordida de um animal, durante o destacamento.
Embarquei, em Portugal, em Fevereiro de 1963, no gigante Vera Cruz, um paquete de trinta mil toneladas, capaz de transportar dois mil soldados. Fui por tempo indeterminado. Acabei 36 meses aquartelado no mato.
O camuflado era a pele, parte fundamental do equipamento, assim como as botas e a placa de identificação onde constava o número, o nome do soldado e o tipo de sangue. Tínhamo-las de sobra, para alguma eventualidade. Do armamento faziam parte o sabre e a outra, a quem chamávamos "Fiel Companheira de Mato", a G-3. Eram ainda transportadas duas MG-42, arma de grande porte por quem os guerrilheiros ganharam grande respeito.
Durante as patrulhas, as principais funções eram o reconhecimento e defesa. Batíamos terreno e comunicávamos por gestos ou códigos fonéticos. Se necessário, recorríamos ao rádio, transportado por um dos companheiros. De acordo com os locais e situações, alternávamos entre composições em “V” ou linha reta.
As missões duravam até ao render do pelotão, podendo estender-se até vinte e quatro horas. Durante esse tempo, o descanso não era mais que quimera. Parávamos, por escassos minutos, para comer qualquer coisa ou aliviar o peso da G-3, sendo a nossa segurança garantida por um grupo de sentinelas do contingente.
Por cada vinte e quatro horas no mato, passávamos quarenta e oito no quartel. Horas essas, passadas a escrever à família, a jogar à bola, a dormir ao relento e a mergulhar nos rios ou lagos mais próximos. Tinha, muitas vezes, a sensação de que o tempo duplicava, tal era a lentidão com que se arrastava. Ali, só quem tinha pressa era a morte, que sempre nos chegou sem pré-aviso ou telegrama. A vida não. A vida sempre tardou. Em parte não embarcou, foi deixada em solo luso, na esperança de que a sorte nos retornasse capazes de a voltar a vestir. Impecavelmente, assim sem vincos nem pregas, com o devido assento do fato que levei ao teu casamento. Ficava-lhe bem não ficava? Eu a ele. Diz lá rapaz, o teu avô ainda honra a indumentária tanto quanto a circunstância. Vesti a tua felicidade, como poderia ela não me cair bem?
[Voltemos ao cais]
Não obstante, no regresso, eu não coube na vida. Nem ela em mim. Sobrava o vazio. As pontas caídas das bainhas por fazer. Os punhos desgastados sem a possibilidade de um avesso. Espaços abertos sem botões e botões incapazes de fechar os espaços. Essa era a lacuna entre o que sou e o que era.
Incapaz de me mostrar nu, envergando apenas a pele dos fantasmas que ainda hoje me assombram, procurei novas formas de vida. Novas modas. Novos interesses. Vestia-os e olhava-me ao espelho, sempre com um estranho a tomar a dianteira, ali de fronte, parado a olhar para mim. Quieto. E eu estático. Não falávamos. E embora sinta que o conheci, ainda hoje não sei o seu nome.
Um alfaiate não cose vidas.
22 comentários:
Muito, mas muito muito bom! E mais não digo, seria estragar um texto brilhante com um relato digno de filme.
Muito, mas muito obrigado! E mais não digo, seria estragar um comentário para o qual não tenho resposta e que me transcende!
:-)
O regresso à vida civil constitui sempre um grande problema para quem esteve numa guerra, mas é ainda pior quando temos um país que não olha pelos seus veteranos.
Essa é a grande verdade...! nunca lhes foi prestado o devido apoio. são questões muito sensíveis e que merecem especial atenção tanto a nível familiar, como do exército, como do próprio país.
Quem escreve assim ou esteve na guerra ou esteve precisamente na guerra; ou embarcou de facto no Vera Cruz ou, não sendo de facto, embarcou na mesma; ou andou de camuflado vestido ou, sem o vestir, sentiu-lhe o peso; ou percorreu mato e picada de G-3 ou, sem sair do sítio, mas com o mesmo peso às costas andou pelos mesmos trilhos.
E como partiu, regressou. E mesmo que não tenha partido, o regresso foi uma fatalidade. Para ambos. E agora sentem-se estranhos...
Quem escreve assim ou se conhece ou, de facto,se conhece!
Associo-me ao que disse Robinson Kanes. Não há, pois, comentário aqui. Só palmas!
Vejo que a beleza cativa comentários sábios. É muito respeito, de facto, o que se sente diante de um texto assim. Impondo-se por isso a fruição apenas ou então abordagem com extremos cuidados. É o que sucede com as maravilhas. E os comentários que até agora li também o são.
Eu só posso estar extremamente grata pelas palavras com que me presenteiam! Para além de ternas, são um alento ao sonho, mais alto e maior, muito para além das linhas que por aqui vos vou revelando.
Nunca escrevo numa espera por reações, tão pouco sei quantos são os que me lêem, mas ao receber as vossas reações, de uma coisa eu estou certa, são os melhores leitores do mundo.
Não pelo que possam elogiar. Isso não. Mas pela forma como descrevem as emoções em que embarcaram quando me lêem. Isso é a maior gratificação para alguém que (ainda) nem é escritor...
Obrigada a todos.
Uma vénia a vós leitores, pela capacidade de mergulharem mais fundo nas vossas próprias emoções.
Bela resposta!
:-) Só por vós faz sentido!
Bela resposta!
Bela resposta!
:-)
bom dia
o meu pai nunca disse nada sobre o que se passou nos seus três anos de Ultramar. mas a minha mãe foi devolvendo pedaços dele às filhas. ele acordava a meio da noite com ataques de pânico e medo de morrer. ainda hoje ele guarda silêncio. é uma parte dele que não compreendo por causa do seu silêncio.
No mesmo barco, seis anos mais tarde. Falta saber qual foi o palco.
Boa noite
Os traumas de guerra não fáceis de ultrapassar, alguns são mesmo inultrapassáveis. Há quem tenha regressado e consiga falar sobre, mas também há quem jamais o consiga fazer. Infelizmente é um assunto tabu em Portugal, tanto que tão pouco é abordado nas escolas. Muito do que lá se passou é absolutamente intrigante.
Não deve ter sido fácil....
obrigada pelo carinho nas tuas palavras
Não foi nada fácil! As guerras nunca são a solução. São grandes traumas, para qualquer nação. Não gostamos de falar delas, porque "recordar é viver".
Bom resto de semana
Estás de parabéns Rita. Por todas as razões.
O meu pai foi daqueles que embargaram neste navio, no caso dele, com destino a Angola.
Como em todas as guerras, há a linha da frente.
Aí, em batalha, perdeu um amigo de infância.
Morreu-lhe nos braços.
Concordo com quem, em jeito de comentário, fala de como os veteranos foram...e são, tratados.
Sim, este é o país que faz, apenas, dos "capitães de Abril, heróis.
Este é o país ( tantos outros foram igualmente colonizadores em África ) que rotulou os seus compatriotas de "Retornados".
Aliás, tem uma certa graça.
Repara, tendo alguns destes coitados nascido naquelas terras portuguesas,
até hoje não percebem para onde retornaram!
Fox, muito obrigado pelas palavras. De facto, é um tema sensível e votado ao esquecimento ou invisibilidade conveniente... Desde que ganhei consciência e aprofundei o meu conhecimento (junto de ex-combatentes, uma vez que a informação disponível ocultava sempre o realiamos abrupto da questão), me incomodou a forma como são istos, considerados e tratados estes homens ("por perigos e guerras esforçados/ mais do que permitia a força humana"). Decidi escrever, criei um projecto na minha cabeça que, talvez um dia, possa concluir. Porém, ainda escrevi uma meia dúzia de cartas como esta, em que um avô deixa estilhaços de memória a um neto.
Quanto ao que relatas, de um amigo de infância morrer nas mãos do teu pai, este artigo fala nisso https://contame-historias.blogs.sapo.pt/as-valas-22718 .
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