sábado, 2 de novembro de 2019

Não há vagar

Não tenho vagar para te ler,
se teimares em aparecer
entre as letras do jornal.
Nem tenho vagar para ti,
se me vieres com parcas conversas
do dia em que eu te sorri
já com a vida às avessas.
Não tenho vagar para pensar
na tua amarga semântica,
tão pouco para me deixar levar
p’las leis da tua quântica.

Já te disse, não tenho vagar!
Não te atravesses pelo caminho.
A m’nha estrada eu faço-a sozinho
não te quero a acompanhar-me.
Não. Não tenho vagar
para te olhar ao espelho,
já dentro de mim.
Gritei-te: estou bem assim!
Abri a porta e pus-te a andar.
Porque é que voltas,
quando sabes que para ti não tenho vagar?
E aí ficas. À minha porta,
na ombreira de uma vida vã.
Na esperança destroçada
de quem espera sentada
pelo dia de amanhã. 

Hoje não tenho vagar
E amanhã também não o terei.
Sempre que estive contigo
Oh tristeza,
para mim foi tempo perdido,
uma história que eu mesmo findei

17 comentários:

miss queer disse...

"não tenho vagar", há quanto tempo não ouvia/lia isso! 😍
conquistaste-me logo nas três primeiras palavras, trazem-me tantas recordações.
está lindo, Rita! :)

Rita PN disse...

"Não tenho vagar" é tão tipicamente alentejano, não é Queer :)
Fico feliz que tenha despertado e transportado para boas recordações. Assim como fico feliz por teres gostado.
Que não se tenha vagar para a tristeza!
Muito obrigada pelo comentário e um beijinho!

miss queer disse...

é! faz-me lembrar a minha avó, as minhas férias no Alentejo... obrigada! não tenho palavras para te agradecer por isto. ❤
não, não podemos! temos de ser felizes. e este teu poema vai ficar guardado e ser lido vezes sem conta.
beijinho, boa noite.

Rita PN disse...

Maria disse...

oh Rita... estou sem palavras.
adorei

Rita PN disse...

Bom dia alegria!
Maria, muito, muito obrigada!
Fico bastante feliz por teres gostado.
Que também tu, para ela, não tenhas vagar!
Uma beijoca

Maria disse...

Chic'Ana disse...

Está mesmo muito bonito, gostei! =)

Maria Mocha disse...

Puxa! Um poema com muita qualidade! E revi-me no conteúdo. Ando sem vagar...

Rita PN disse...

Ana, que bom! Muito obrigada pelo comentário. Uma beijoca e um dia feliz!

Rita PN disse...

Minha querida Maria, olha eu toda contente pelas tuas palavras!
Se esse teu "sem vagar "for para a tristeza, ainda mais contente eu fico!

Sol, raio de Sol sua guerreira!!
Uma beijoca

Robinson Kanes disse...

Quando o vagar é pouco e a espera é longa, pobre daquele que ainda alimenta a esperança :-)

Rita PN disse...

Nem diria melhor, Robinson! Tão exacto quanto isso!
Neste caso, pobre é a tristeza, que sentada ainda espera! :-)

fashion disse...

Rita PN disse...

Crónicas de uma menina da mamã disse...

"Não tenho vagar" é tão alentejano, adorei. Aliás adorei o poema inteiro, está espectacular Rita, parabéns!

Rita PN disse...

De facto! Expressão nascida e criada no Alentejo! :-)
Muito obrigada pelo comentário, Kikas! Um beijinho

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