sexta-feira, 27 de abril de 2018

Solidão


"Fomos longe demais, para voltar aos canteiros onde há Rosas." - Pedro Homem de Mello


 



Vestia um casaco longo e pesado, como os anos que contava. Frias, as mãos expostas, ainda acenavam às crianças que brincavam.
De poucas palavras e feições ausentes, raras seriam as ocasiões em que a presença lhe era notada, nos diversos lugares onde efetivamente se encontrava. Um casaco longo e pesado e um par de mãos frias e expostas eram, indubitavelmente, naquelas tardes de Primavera, um lugar comum, onde diversas Rosas habitavam.
Dona Rosa, seu nome, doava com frequência o que de si restava no coração. De braços imóveis, estendidos, caídos e longos como o casaco que vestia, acenava, por vezes com o olhar, e procurava nas mãos quentes de quem com ela se cruzava, ternura.


Esperança e um gesto de mãos, um carinho directo ao coração, retribuído.


De ombros curvados, acompanhando o peso da solidão vazia que vestia, confundia o seu próprio nome com as flores frágeis, desfolhadas depois de mortas, dos ramos delicados que se ofereciam. Sem espinhos nem rosas permanecia, Dona Rosa, de mãos expostas e alma vazia.


 


Dona Rosa, um entre tantos outros nomes de que a solidão se veste, muitos conhecem. Mora até em nossas casas, sob o peso de um casaco comprido que curva o coração e lhe expõe, frias, as mãos da Primavera.


 


 


 


 

5 comentários:

Robinson Kanes disse...

Sempre a brilhar! Parabéns!

Rita PN disse...

Obrigada, querido Robinson. Pelas palavras e pela visita! Por visitantes como tu é que ainda vale a pena vir até cá deixar um pouco do transbordo dos meus sentidos.

Robinson Kanes disse...

Repito o mesmo em relação ao meu espaço! Eu por cá vou ficar :-)

Rita PN disse...

Um agradecimento ao quadrado! Ehehehe :-)

Robinson Kanes disse...

:-)

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