Ninguém a viu morrer…
Em contra luz, cegueira acesa e mesa posta
ao redor sentados, desgarrados e embeiçados
pela hipocrisia de bem parecer.
Ninguém a viu morrer…
Só. Num jardim que definhou
sem gota a gota de amor regado
e onde só a trapaça medrou,
num canteiro que se quis florido,
mas desde logo ferido
pela lisura que não viu.
Em cada cravo, em cada rosa
uma pétala arrancada,
imoralidade marcada pela desonestidade de ser.
Ninguém a viu morrer…
quando ávidos, das suas lágrimas beberam
e do seu corpo comeram
- cansado e ferido -
apodrecidos que estavam,
de coração desnutrido e alma salobra.
Ninguém a viu morrer…
afogada no rio de lodo
de patranhas e engodo,
onde todos lavaram as mãos.
Ninguém viu a verdade morrer.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
A Morte da Verdade
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
A normalização como absolvição colectiva
Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...
5 comentários:
Este é um verdadeiro murro no estômago. Muito bom e bastante actual! A poesia a acompanhar os tempos...
Muito obrigado meu caríssimo sábio! É sempre uma honra receber os teus elogios por aqui.
Quanto ao murro, pois bem, para alguns será. Mas também fazem falta, de quando em vez
Ora, nada que agradecer. Se fazem... Se fazem...
E não matam ninguém, antes pelo contrário!
:-)
Enviar um comentário