domingo, 28 de dezembro de 2025

Trivial

Estamos todos abastecidos de solidão.
A trivialidade da morte
num jogo de sorte,
num golo de vida.
Subindo o presponto,
do indivíduo,
à bainha por fazer:
memórias.
O regresso à tardinha,
aos cheiros que a vida tinha
aos reencontros por fazer.
A rua a descer
direita ao bar
habitualmente vazio,
dois tostões na mão:
preço do coração que se traz.
No copo,
saudades de quem ainda não se conhece
e do lugar onde amanhece
sem nunca termos lá estado.
Distopicamente:
calado, o silêncio preenche
a casa inacabada que se traja.
Construção empírica e pilares de ferro
racionalmente fundido:
descrente ao nascer,
dogma defendido ao envelhecer.
Transcendente
autista
demente
alienado
estranho
fechado:
o Poeta permanece
sem nunca se concluir.
Paredes por subir,
telhado não tem,
às estrelas
é o chão que as sustém,
porque o céu nunca chega...
E quando chega é sempre cedo demais.

 

4 comentários:

lfdsa disse...

Brilhante! Senti-me poeticamente deprimido — no bom sentido, claro.
Houve ali um momento em que tive de confirmar se era um poema ou o manual de instruções de uma alma em remodelações profundas.
Aliás, depois de "o céu nunca chega... E quando chega é sempre cedo demais", fiquei tentado a mandar vir uma estrela do IKEA, só para ver se montava o teto emocional cá de casa.
Parabéns! É raro rir-me baixinho ao ler sobre solidão, mas tu conseguiste.

Francisco disse...

A maior solidão de um poeta encontra-se nas palavras a quem a ninguém chega.
A vida toda tremendo nas mãos segurando uma caneta, a dupla pesagem quando a escrita vinda das teclas; A vista turva com a imagem do seu mundo no papel, onde tudo o que existe veio não de lado algum que não do seu coração.
A solidão não magoa, não... A tortura vem da memória em que nossos braços não tremiam tanto, quando envoltos num abraço, quando a nossa vista não se tinha que esforçar para ver qual a criação das nossas palavras.
Aquele que cria, vim sentindo, é um Homem sozinho. Aquele que sente, vim sabendo, é um Homem carente.
Em toda a criação o propósito de fazer parte!
Em todo o sentimento o desgosto de não ser eterno, tão passageiro quanto o vento que nos despenteia os cabelos e que um dia os leva junto dos seus e sussurra numa última vez ao nosso ouvido.


António Só disse...

Poema lindíssimo! Sem palavras.

António

Rita PN disse...

Caro António, muito obrigada pela sua leitura e palavras. Fico feliz que tenha viajado por dentro, neste poema.

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