segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Raras

As pessoas distribuem-se, instantaneamente, por diversos lugares. Encontramo-las por toda a parte, mas permanecem tão raras quanto as estrelas da manhã! Raras para pessoas como eu que, no fim do dia, enquanto o mundo se agita nas suas rotinas e hábitos banais, me recolho na concha e me deixo ficar. Raras para pessoas como eu que, bivalve, me divido entre a sede do que ainda está por fazer e o desejo de me ocultar, confortavelmente, na segurança do infinito que abarco em mim. Raras...


 


Inusitada e espaçadamente no tempo, passa ligeiro e de perto alguém que me escuta, me vê, me sente e repara no que, de menos óbvio, trago em mim. Assim, levemente, sem invasão de espaço, ou intensão de que a concha se abra e se mostre nua. Retraio-me e permaneço fechada, porque são tão raras as pessoas que param e atentam.


Enraizar-me em determinado lugar, temporariamente, possa esse lugar não ser mais do que um recanto meu, é uma estrada livre para o auto-conhecimento. Porque é preciso. É preciso saber que existem lugares bonitos em nós, onde podemos e devemos parar e descansar, na nossa solidão. Porque as pessoas estão em qualquer lugar, a todo o momento, cruzando diariamente o nosso caminho e emitindo demasiado ruído.


Mas são tão raras, as outras. Essas que param, atentam, sentem e reparam que nos entendem, por lhes sermos raros, também.

1 comentário:

Francisco disse...

E porque não um diálogo de dentro da concha para o exterior?

Se bem que, vendo-me nessa situação, bastava ter um ouvido que me abriria e mostraria o que mais precioso tenho em mim.
Não me escondo mais, parei de me sentir melhor por sentir mais que o próximo, não conhecendo o próximo e consequentemente nem me conhecendo a mim mesmo.
É assim que vou crescendo, largando-me aos poucos e deixar-me ficar no olhar, nos seus pensares, quiçá, também, apareça nas suas deambulações líricas de forma figurada como lhes faço.

Não os vejo raros, todos têm a sua pérola; muitos, Rita, e não sejas assim, apenas não mostram o seu brilho à luz em esplendor, logo tu que te vi brilhar tanto em mim, que digo o que digo conhecendo o (teu) brilho.

Não queria virar o texto para mim, ainda batalho nesse sentido, de ouvir e sentir e falar do meu sentir como que se sentisse o outro da mesma forma. Tempo, sempre o desejei e o tive, e agradeço-o. É com ele que aprendo, e de nada vale, descobri, viver sozinho.

Um beijinho Rita, e que venha do pensamento em prosa nova poesia!

A normalização como absolvição colectiva

Poucas formas de absolvição colectiva são tão eficazes como a normalização. Reconhece-se o problema, permanece visível, continua a ser comen...