Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade daquele que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego vestido de luto e guardada pela moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, abrindo um buraco por onde a própria existência se esvaia.
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, a ela, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.
O meu olhar é nítido como um girassol Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando pra direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança, se ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... (Alberto Caeiro)
terça-feira, 6 de junho de 2017
Para lá da Primavera
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Hipoteticamente
Dista-nos um quarteirão de luar onde, na sombra, os detalhes se ensaiam, os elementos se vestem de harmonia e onde todas as ruas parecem reg...
-
Esperei por ti ao pé da ponte florida, na esperança vã enfeitada se adentro p'lo mar dos meus olhos, te visse vinte e oito passos apres...
-
Vem sentar-te comigo à beira Tejo, futuro, que se faz tarde; e o por do sol anoitece no limiar de um peito que arrefece às mãos do solstíci...
-
Incorro em pasmaceira de jumêncio sempre que se abate o silêncio para lá da chuva que cai. Tudo padece, nada apetece, a apatia envaidece e ...
10 comentários:
Bela metáfora! Para não variar. Gostei muito deste. TOP!
Uau Rita...
Lindo! Já publicaste isto? Tive uma sensação esquisita, como se já conhecesse... Ou então é tão bom que me fez lembrar nem sei de quê, estou arrepiada.
Beijinhos, amiga.
Tão bom e sentido à flor da pele!
Maravilhoso, parabéns :)
Muito obrigada, querido HD! :-)
Tu tens os sentidos tão apurados! Tinha si, há algum tempo. Modifiquei apenas algumas linhas e republiquei! Obrigada pela atenção e por te permitires entregar à maré dos sentimentos! Uma beijoca, doce sapinha!
Muito obrigado meu querido Robinson :-)
E eu adorei ver o sábio escrever TOP! ahahaha
(PS: hoje não consegui comentar o teu post, mas tenho um sério comentário a fazer... tomorrow!)
ahahahah
(O que virá aí)
Ora vai lá espreitar...
Enviar um comentário