terça-feira, 6 de junho de 2017

Para lá da Primavera

Rodou lentamente a chave, deu três voltas e soltou o trinco da porta que abria passagem à sala das lembranças. No chão, a carpete cobria-se de pó com a exata tonalidade daquele que, ao amanhecer, ela passava delicadamente a pincel pelo rosto. No tecto, o candelabro ainda a iluminava, suspensa pelo pescoço de um prego vestido de luto e guardada pela moldura de um quadro de memórias, cuja tinta escorria já pelas paredes.
Às voltas pela sala e a caminhar para dentro, com o peso dos anos a rasgarem-lhe os bolsos, sentia-se como se a dor furasse, sem piedade, o tecido frágil de que era feito, para mais facilmente escapar, abrindo um buraco por onde a própria existência se esvaia. 
Julgara-se de aço. Por toda a sua vida. Julgara-se de aço enquanto as lágrimas não lhe oxidaram o rosto e a fragilidade das rugas das papoilas breves não a levaram, a ela, no seu ameno vestido vermelho, para lá da Primavera.

10 comentários:

Robinson Kanes disse...

Bela metáfora! Para não variar. Gostei muito deste. TOP!

Maria disse...

Uau Rita...

Kalila disse...

Lindo! Já publicaste isto? Tive uma sensação esquisita, como se já conhecesse... Ou então é tão bom que me fez lembrar nem sei de quê, estou arrepiada.
Beijinhos, amiga.

HD disse...

Tão bom e sentido à flor da pele!
Maravilhoso, parabéns :)

Rita PN disse...

Muito obrigada, querido HD! :-)

Rita PN disse...

Tu tens os sentidos tão apurados! Tinha si, há algum tempo. Modifiquei apenas algumas linhas e republiquei! Obrigada pela atenção e por te permitires entregar à maré dos sentimentos! Uma beijoca, doce sapinha!

Rita PN disse...

Rita PN disse...

Muito obrigado meu querido Robinson :-)
E eu adorei ver o sábio escrever TOP! ahahaha

(PS: hoje não consegui comentar o teu post, mas tenho um sério comentário a fazer... tomorrow!)

Robinson Kanes disse...

ahahahah

(O que virá aí)

Rita PN disse...

Ora vai lá espreitar...

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