domingo, 29 de janeiro de 2017

O livro do tempo


 


Do presente, não conhecia mais do que o momento exato. Nem uma hora para trás, nem cinco minutos adiante. Vivia entre o agarrar tremulamente o copo de água, o espaço que o separava dos lábios e entre a demora do vazio, desse mesmo copo, a ecoar novamente na bancada. 


Persistia nos vinte passos arrastados que o separavam do sofá, onde o seu corpo vago caía e se deixava ficar. Diante dele, ocupando o espaço vazio, o presente.
A incapacidade de acompanhar o tempo, havia, ao longo dos últimos anos, imposto uma longa distância entre Domingos e o filho, sentado um metro à sua esquerda.



«Ontem a tua mãe estava muito bonita. Mas hoje ainda não a vi. Que será dela?»


Madalena morrera durante o parto, quarenta anos antes; Duarte não chegara a conhecer a mãe.


«Ó pai, lá está você, a mãe já não se encontra entre nós.»


«Disparates. Só dizes disparates. Pensei eu que te fazias um homem, continuas igual. És tu e o Tó Zé do Edgar, ainda a semana passada lá estive na tasca, só disparates, um cachopo daqueles filho de boa gente. E tu vais pelo mesmo caminho.»


Tó Zé tinha agora 58 anos. E Domingos 83, a avaliar pelas muitas histórias contadas pelas rugas das suas mãos; noutros tempos, era certo, quando a destreza era outra. Agora, já nem a sua própria história vestia. Vivia a uma distância de 40 anos dos vinte passos arrastados que o separavam da realidade.
Estendeu lentamente o braço e concentrou-se na abertura dos dedos da mão. Agarrou um livro pousado na mesa de apoio, à sua direita, e levou-o até si. Exatamente até si. Escrito pelo filho Duarte, mal Domingos poderia saber que a história nele contada era também a sua.


«Gosta do livro pai?»


«Tem bom ar. Eu é que não tenho aqui os meus óculos para ler qualquer coisinha.»


Aos olhos de Domingos, com ou sem a precisão das lentes, as letras nada mais eram do que aglomerados de linhas em páginas, todas elas iguais, sem sentido algum - assim lhe pesavam os dias. 


 


“E sem conhecer as histórias que o livro contava, voltou a esticar o braço, a concentrar-se na abertura dos dedos da mão e a pousá-lo na mesa de apoio, à sua direita.
Também o presente havia por ele sido deixado num qualquer recanto da sala, que julgo não saber precisar, para não mais o viltar a viver." 


Findos, o livro e mais um serão de domingo. 


 


16 comentários:

Maria disse...

Tu andas-te a perder...
Belo texto!

Rita PN disse...

Maria, espero que me ande somente a encontrar. Ter a bússola avariada depois de tanto correr, não me dava jeito nenhum ahaha : )
Obrigada querida Maria! Um beijinho grande!

Maria disse...

fashion disse...

Querida Rita: Percebi agora pela leitura do teu belo texto que tinhas de ser, já, uma escritora consagrada e descobri que és mesmo. Fiquei muito orgulhosa de ti!!! Vou procurar o teu "quero escrever-te" porque eu quero ler-te!! beijinhos

Rita PN disse...

Muito obrigada pelas tuas sempre queridas palavras, Fashion!
Escritora consagrada é para pessoas grandes, eu tenho uns meros 27 aninhos em reta final. Tenho muito para aprender, muito para ler e muito para escrever. Talvez apenas tenha já vivido mais do que o necessário para tão pouca idade. Motivo pelo qual sou quem e como sou.
Este 'Livro do tempo' será materializado e tornado real, a seu tempo. O 'Quero Escrever-te' é tenrinho a nível de escrita, mas adulto nas mensagens que transmite.
Foi publicado através de um concurso de escrita criativa.
Já leste o texto que publiquei antes deste? Vais gostar!
Um beijinho muito grande e obrigada mais uma vez!

fashion disse...

Tenho a certeza que vou gostar muito. Qual é o texto antes? Aqui no Blogue? Porque pensas que viveste mais do que o necessário? Sabes que sempre tive essa sensação?
beijinhos

Rita PN disse...

Fashion, aqui no blog "Três malas eu. Trinta e cinco degraus descendentes e um combóio".

Essa pergunta tem uma resposta complexa. Talvez porque tenha passado por demasiadas situações díspares, num curto espaço de tempo. Por ter sido obrigada a crescer de rajada, por desde cedo ter sentido demasiado a vida é tudo o que ela encerra.
Costumo dizer muitas vezes que por conhecer o limite da tristeza, nunca deixei de acreditar numa felicidade sem limite. Isso reflete os dois extremos aos quais já cheguei, e tudo o que vivenciei e vivencio nos entretantos.
Em 27 anos, talvez tenham sido experiências a mais. Demasiados capítulos para tão poucas páginas de vida.
Mas tudo tem um porquê. E se assim foi, é porque assim tinha que ser. Graças a tudo isso sou quem sou. Tudo me foi necessário. Ou gosto de assim pensar. Embora por vezes me apeteça descansar de certas lembranças.
Vivi mais do que o necessário, mas, citando o meu Pessoa, "viver não é necessário. Necessário é criar".
E foi esse meu "mais que o necessário" que me criou e continuará a criar extensões de mim, em tudo o que faço.

Só pessoas ditas especiais vivemmaisdo que o necessário. Tu és uma delas!

HD disse...

Que belo excerto. Parabéns :)

Rita PN disse...

um muito obrigada :)

Malik disse...

Rita PN disse...

Por vezes, é preferível chamar-lhe apenas realidade. Sem a adjectivar. O adjectivo confere-lhe um peso, salvo a redundância, demasiado pesado. Tendo, também, um grande impacto no nosso psicológico.
Realidade. Tão somente e apenas realidade.
Gosto de a escrever assim, um tanto mais suave, para que possam ser transmitidas algumas (mesmo que poucas) emoções positivas.
Ser um bonito texto é sinal de que essas (poucas) chegaram até ti.

Obrigada


Malik disse...

Rita PN disse...

A tristeza estará sempre presente nos muitos Duartes que por aí existem. Não tem como não estar.
Depende somente do Duarte deixar-se consumir por ela, ou enfrentá-la, arranjando estratégias que minimizem o peso da realidade...
Elas existem e são parte de integrante de cada um de nós. Descobri-las, requer ginástica mental, tempo e algum mau estar interior... É verdade. Mas no fim vale a pena. Saímos sempre mais fortes! ( :

Malik disse...

Rita PN disse...

Verdade... Primeiro a revolta, depois a aceitação. E só posteriormente a paz interior. Em tudo na vida.
Um beijinho e obrigada!

Malik disse...

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