Tenho um baloiço de corda suspenso uma nuvem.
É do alto do seu voo que te observo, docemente suspensa. Os sonhos parecem maiores quando vistos daqui. E tu, tão mais pequeno – como eu, quando dele desço e olho para cima. Reparo que também o fazes.
Irei trazer-te cá, para comigo sonhares mais alto. Prometo.
Mas hoje não. Estou com pressa para descer.
Aqui em baixo tenho uns sapatos de sato alto que uso quando quero ser mulher.
Comecei descalça, mas a visão rasteira não me permitia olhar além, para lá do horizonte comum. Aprendi, então, a equilibrar-me a seis centímetros do chão, travando guerras e batalhas com que a vida constantemente me desafia. Estender o campo de visão é uma das mais-valias destes sapatos.
Hei-de mostrar-tos, quando me cruzar contigo num final de dia. Altura em que saio de cena, tiro os sapatos e calço todos os segredos que há por revelar em mim. Não tentes, porém, descalçar-me. Prefiro levar-te ao baloiço.
É durante a subida que sinto mais do que quilo que quero, talvez menos do que seja capaz.
Sento-me contigo no meu baloiço, agarro as cordas da vida com força e dou balanço ao corpo, consciente de que cada recuo nos fará subir mais alto depois.
É daqui que se sonha e ainda não chegámos ao céu.
Vejo as tuas mãos agarrarem, ligeiramente acima das minhas, as mesmas cordas. E sinto o teu corpo balançar, agora, ao ritmo do meu. Entre avanços e recuos subimos mais alto e tocamos o céu.
Caem-me dos pés os segredos, que te havia pedido para não descalçares. Tu reparas. E sorris ao interpelar-me:
- Não me mostraste os sapatos!
- Preferi os sonhos. Os sapatos nunca nos trariam ao céu.
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