Fechei com cuidado a última mala, lá dentro uma vida. Curta, mas uma vida – e fechei também a porta atrás de mim.
Não olhei nem parei para ouvir a voz das memórias, por mim deixadas ao abandono, num sem-nada-de-espaço recentemente desguarnecido de qualquer réstia de vida.
Três malas e eu. Vinte e oito degraus descendentes e um comboio para apanhar.
Arrastei os pés, pesados e morosos, até ao primeiro lance de escadas. Equilibrando-me entre o peso do meu desalento e as malas, descaí de uma só vez. Alguém deixara aberta a porta do pátio para me auxiliar a passagem, pensei.
«Na vida, as saídas são-nos frequentemente facilitadas, enquanto que as entradas requerem algum engenho e arte, não sendo acessíveis a todos.»
Sentia agora o peso das chaves, as mesmas que outrora me haviam permitido atravessar aquela mesma porta. Pousei no chão as malas, mais leves do que eu me sentia e levei a mão ao bolso. Apertei-a por um instante e voltei a retirá-la, vazia.
«Também na vida há portas que depois de atravessadas, não nos levam a lugar algum.»
Apressei-me a chamar um táxi. Ardia em mim a urgência de partir. Durante o caminho não proferi uma palavra. Observei aquelas gentes, os prédios, as árvores, os autocarros que passavam, as esquinas das ruas que se cruzavam, para juntas nos levarem adiante.
Despedia-me de uma parte de mim, daquela que na próxima hora eu haveria de abandonar na plataforma da estação.
Abri a carteira, retirei a última nota e paguei. Reconfortou-me saber que ainda dispunha de um bilhete para o próximo comboio.
«Também os comboios são uma constante da vida.»
Um comboio, três malas e eu, após vinte e oito degraus descendentes.
Sentei-me junto à janela e observei através dela, pela última vez, quem ali, por mim, havia sido abandonada no banco da estação. Ao seu lado um par de sapatos, as pegadas por eles deixadas e um molho de chaves.
Descalça e sem peso nos bolsos, segui.
«Os meus pés não mais encaixarão dentro de pegadas antigas. Deixarão novas, no decorrer da minha mais recente viagem.»
Numa mala a infância, noutra a adolescência e na última aquilo a que vulgarmente chamam princípio da vida adulta. Em mim, vinte e oito degraus já vividos com todas as suas lições, aprendizagens, erros e acertos. E dois bolsos vazios, prontos para acolher as chaves das portas que se abrirão para novos sonhos.
10 comentários:
Um dos meus favoritos, e já vão sendo muitos!
Parabéns.
É tão bom saber :-)
Muito obrigada, Rob :-)
Que linda metáfora de mudança :)
Nem sempre é mau ter os bolsos vazios, para poder enchê-los com peças novas de um puzzle que só o futuro nos pode ajudar a completar *_*
Está tudo bem, Ritinha?... Os degraus não deviam ser "ascendentes"?
Os sonhos não deviam ter portas, muito menos chaves!...
(O texto é lindo mas preocupante, amiga. Sei que saiu novo livro teu e não te sinto feliz...)
Beijinhos.
Deviam querida... mas não são. Há momentos em que vês tudo na vida a andar para trás. Momentos em que te vês obrigada a abandonar caminhos por ti construídos, a adiar sonhos mais uma vez, a procurar outro rumo que não o levado até então... e te sentes inútil.
É este o meu estado de espírito desde que fiquei desempregada...
É ter-me visto obrigada a mudar tudo radicalmente e a aprender a lidar com o "vazio" de muita coisa em mim...
Eu sempre trabalhei 6 dias por semana, dez horas por dia, sempre lutei para ter as minhas coisinhas, o meu cantinho, o meu carro e as contas pagas... sempre me esgatanhei por me sentir realizada e por ver os meus sonhos ganharem forma... e nestas alturas é muito complicado... sinto-me à deriva e um tanto ou quanto perdida...
Beijinhos meu doce. E obrigada
Não sabia, amiga... É uma situação horrível mas de certeza que não estás sozinha no mundo, deixa que te amparem até te recompores e a vida sorrirá em breve, tenho a certeza. Desanimada é sempre mais difícil alcançar seja o que for. É levantar a cabeça e seguir em frente, conto com isso em ti! Força, amiga!
Nem mais, é por aí a visão!
Agora vazios, para que se possam encher novamente.
Uma beijoca, querido HD*
Há dias em que estou cheia de garra, noutros cai a ficha, porque há sempre algo te obrigada a ter a realidade presente.
Não estou sozinha, graças a Deus! Mas sabes, é muito o sentimento de inutilidade, por vezes de impotência perante uma situação que não depende só do teu querer mudar.
Depois a minha terra é muito pequena e não é nada fácil arranjar trabalho, para ir embora o € não chega para as despesas e só me dá vontade de chorar... Há tanta coisa que eu quero fazer e sinto-me de mãos e pés atados... Podia ir estudar novamente, nunca é demais, mas levanta-se a questão das despesas de deslocação. Para quem tem objetivos, sonhos e não sabe viver assim, é frustrante.
És muito jovem, amiga, não é tarde para nada nem cedo para coisa nenhuma. Tu vais conseguir, mas é com calma e amor a ti própria, com essa disposição nada se consegue a não ser ficar doente...
Pondera, por exemplo, usar a escrita ou outra arte que tenhas. Ou gosto pessoal em qualquer coisa, sem ser emprego convencional...
Estamos todos contigo!
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