domingo, 5 de abril de 2020

Nem mais, nem menos (paradoxos e desigualdades em tempos de pandemia)

Poema reeditado, do qual me recordei após a leitura do artigo de Maria Clara Sottomayor sobre a dedigualdade social em tempos de pandemia. Um artigo cuja leitura aconselho, aqui.


Não creio que sejas tu mais do que outros.
Tao pouco, que exista alguém que a mais se eleve,
se posto lado a lado com o mendigo
que dorme ao relento da vida.
Envolto no sopro de um cobertor de memórias,
sob um alpendre que lhe ignora, irrisórias,
as tempestades e intempéries que o papelão abriga.
Casa de papel onde o coração dormita.

Chego a invejar-lhe o corpo e alma,
essa que sente tudo quanto por ela passa,
por ínfimo que seja,
por mais desprezível que nos pareça,
por mais banal que se tenha tornado às nossas mãos.
Um corpo sem senãos, que com pouco se enjeita
de alegria partilhada
e onde nunca o supérfluo se ajeita.

Frequentemente largo,
o amargo cheiro das pregas vazias:
Assim se parece a nossa necessidade de enchumaços,
pecados de luxuria pendurados
nos ombros, nos braços e enchendo-nos a barriga.
Almofadamos os pés,
enterrados que estamos em créditos até aos joelhos
para bem-parecer até às orelhas.

Não creio que seja ele menos do que tu,
ou eu, mais ou menos que qualquer um de vós.
A diferença entre nós mora num arranha céus
de cem andares. Onde somos vizinhos.
No rés-do-chão sente-se pouco,
e os que muito sentem vivem às portas do céu.
- Centésimo andar a contar do vale dos mortos -
Não creio que tenhamos nós mais do quele eles.
Se uns têm mais alegria, outros têm mais prostração;
Se uns têm mais tempo, noutros é maior a dilação;
Se uns doam mais sorrisos, outros fazem as lágrimas florir,
sem sentir que, todos nós temos alguma coisa,
entre nascer e morrer, esse espaço que nos limita a existência.
Pode apenas ser ar nos pulmões,
essa qualquer coisa que temos,
mas temos.


 



 

2 comentários:

cheia disse...

A sensibilidade não se compra não se aluga, nasce connosco, faz-nos companhia, obriga-nos a partilhar com os outros, o que nos arrepia.

Rita PN disse...

Gostei imenso do seu comentário. De verdade. Coisa boa e repleta de razão.
Obrigado!

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