AVISO: Leitura potencialmente perigosa, pela complexidade da mensagem reflexiva que se impõe.
Não aconselhável em caso de incompreensão da mensagem, via poética, que habitualmente trago.
Nodecorrer dos dias, e ao longo dos tempos, mantivemos com o “material” uma relação de dependência que, equivocamente, nos concedeu uma falsa sensação de poder, de posse ou de superioridade, como forma compensatória.
Vivendo exteriormente, para a imagem, para as rotinas e consequente recompensação, fomo-nos afastando de nós, dos nossos propósitos, daquilo que somos, do que gostamos, do que nos mantém unos, de tudo o que verdadeiramente nos impulsiona, acrescenta e atribui sentido à existência. Passámos a ser (porque também assim nos apresentamos) um determinado título, uma profissão, o vizinho do carro vermelho, o dono da empresa X, a mulher/marido de Y, o indivíduo que veste fato... mas quem somos, por trás do acessório?
A realidade que à data vivemos, entre outras premissas, veio mostrar-nos o quão frágeis e vulneráveis somos face a acontecimentos extrínsecos, incontroláveis e imprevisíveis. Veio fazer-nos pensar na insignificância do valor “material”, que em nada nos diferencia, diante de um cenário de pandemia que se abate e que a todos nos designou como alvo. Veio lembrar-nos da importância de nos questionarmos sobre três do mais importantes lugares da vida:
1 - Para onde nos dirigíamos?
2- Onde ficámos? Ou onde estamos?
3- Para onde queremos ir?
Veio fazer-nos sentir que o conforto se adquire materialmente, mas que, em confinamento, só nos confortará o que espiritualmente formos capazes de atingir (não por via religiosa), na procura pelo equilíbrio emocional. E isso não se compra.
Presentemente, desprotegidos, diante de uma ameaça invisível capaz de nos levar a nós e aos nossos, sem que exista um critério de escolha, fica o sabor amargo da impotência, perante o choque frontal com a constatação do quão verdadeiramente finitos e pequenos somos.
Resta-nos observar o mundo e observar-nos a nós. Caminhar para dentro e ser capazes de nos encontrarmos connosco, de nos conhecermos no escuro, como à semente que germina no interior da terra, em silêncio, antes de se mostrar planta à luz do dia.
Resta-nos saber olhar para o espelho e ver através dele. Não só o reflexo do presente, mas também o caminho já percorrido, para que, com firmeza, nos possamos questionar sobre o depois.
Resta-nos a esperança, feita de indignação e coragem. Indignação para que sejamos capazes de apreender o que não está bem e a coragem para que o possamos mudar o possível.
Resta-nos a criatividade e a arte da reinvenção.
Resta-nos a observação, sem somatizar a realidade circundante, uma vez que, só dessa forma, será possível reunir a energia (positiva) necessária à transformação do velho em novo.
Resta-nos a iluminação interior, conseguida através da consciência e clareza a respeito da nossa missão, assim como da conservação da vontade e honestidade do seu cumprimento.
Resta-nos ser, apenas, sem acessórios, para conseguir encontrar o caminho da superação, da libertação, do distanciamento a causas externas, mas também o rumo mais certo após a tempestade.
Porque o mundo, esse, continuará no mesmo lugar, mas a vida não.
O que ontem tínhamos por garantido (erroneamente), poderemos já não ter, e aquilo que pretendíamos alcançar poderá já não ser atingível ou real. A sociedade não será a mesma e a crise não será apenas económica, será sectorial e social, com toda a devastação e mudança que isso implica.
E se agora não é altura para nos dividirmos entre fortes e fracos, doravante prevalecerá a força interior. Essa força que vem de dentro e só cresce se ousarmos praticar o auto-conhecimento (por mais que nos assuste conhecermo-nos) . Essa força que só se revela se soubermos para onde vamos e por que vamos. Essa força quantas vezes desnutrida e enfraquecida, camuflada por aquilo que mostramos e/ou gostamos de parecer ser.
Essa força que é preciso alimentar. Essa força que não derruba ninguém, mas ajuda a levantar.
Essa força espiritual não assente no “material” nem na religião. Essa força. A força de cada um. A força de quem se é verdadeiramente.
A luz!
2 comentários:
Um excelente texto.
Boa noite
Muito obrigado pela apreciação e leitura. Uma noite tranquila para o amigo também.
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