Agasalhados pela ditadura da vida frenética, enquanto o tempo nos engolia pouco a pouco, fomos acreditando que nada podia parar. Nem nós. A vida comia-se rapidamente, sem pensar muito nela, preferindo a trivialidade das conversas, o fast-food visual ou os empadões de ideias feitas – que os há para todos os gostos.
A realidade foi, por nós, sendo reduzida ao que há de mais concreto, elementar e absoluto, através da subtração da nossa capacidade de a interrogar e pensar além, renunciando à liberdade – enquanto seres pensantes - da contemplação, da expansão, da transformação e da inconformidade. Abolimos, a esta mesma realidade, a soberania para ser o que é, à medida que lhe condicionámos o âmago e a síntese primordial: a substância e a alma, a transcendência e o impacto, o espanto, o pasmo, a estranheza, a surpresa, a magia e o sobressalto. No seu lugar plantámos o concreto, o racional, o objecto, o inteligível e acessível, o óbvio, o concebível e decifrável.
Ao desconhecido, negámos a entrada nas rotinas, erguendo muros físicos, espirituais, sociais e políticos, distorcendo distâncias e negando toda e qualquer oportunidade de acesso ao exterior. Encurralámos-nos, num mundo global.
Das janelas várias, abertas num espaço comum, confortavelmente distante de nós, acompanhámos mais de perto o desenvolvimento da ciência, do marketing, da tecnologia, do virtual onde nos debruçamos, curiosos e iludidos, sem medo de cair. Mas fechámos a porta às artes e à filosofia, por já não sabermos andar descalços e sentir a vida com a sola dos pés.
Sem substracto, parámos de forma sagaz e abrupta o crescimento de um outro mundo - o interno - assente na busca e na escuta do que é maior e nos supera qualquer carência e necessidade de recompensa material.
Submissos ao despotismo do tempo, fomo-nos empurrando para o fim de semana, à vida para o mês seguinte, ao coração e à alma para outro século (contradizendo a urgência com que António Ramos Rosa escrevia “não posso adiar o amor para outro século/ não posso”).
A braços com a cegueira de uma crença absoluta - enquanto o outro mundo, por dentro, se desmoronava - detivemo-nos nos versos de Carlos Tê, tantas vezes rodados na interpretação de Veloso: “Houve um tempo em que julguei/ que o valor do que fazia/ era tal que se eu parasse/ o mundo à roda ruía”.
E agora, que parámos, é nossa a percepção de que nada ruiu, excepto nós próprios, à mercê de uma ameaça invisível. Ameaça essa, que exige que se ergam barreiras e fronteiras ao contacto humano, à realidade tangível e à vida rotineira, tal e qual a conhecíamos. Ameaça essa que, por oposição, nos exige que se destruam os limites por nós impostos à realidade incorpórea (enquanto dela quisemos fugir), sob pena de não haver bote que nos salve.
Não sei se algum dia, num outro dia, terão sido muitos os que, de forma regular, experimentaram a atitude contemplativa, numa projecção larga e transcendente, através de um outro olhar – silencioso – sobre a vida. Não sei se terão sido muitos os que souberam manter uma relação profunda - de interioridade - consigo e com o mundo, encontrando o silêncio e voltando o ouvido para dentro, para que num espaço mais íntimo se pudessem descobrir. Não sei se terão sido muitos os que não recearam os caminhos estreitos e a companhia da própria sombra. Os que se interrogaram, questionaram, escutaram, observaram, sentiram e viajaram além de si, além do ser, além do óbvio. Não sei se terão sido muitos os que descobriram o privilégio e a possibilidade de visionar, ignorando os telhados opacos das mentes catastroficamente fechadas, sobrevoando-os.
Não sei. Mas se não outro dia, haverá sempre um dia em que nos veremos a tal obrigados: “só a alma convive com as paragens estranhas”. Há mundo para além do mundo.

4 comentários:
A realidade de quem vê mais longe, de quem tem a capacidade de viajar ao seu " interior" e de descobrir que vá mundos para além do mundo....
É como escreves preciso olhar para além das ideias " formatadas" que temos...olhar a própria natureza que se adapta às circunstâncias, tempo e está mais bonita, mais pura...
Há dias que tenho a sensação que nós " humanos" não aprendemos nada....e tenho pena porque diante dos nossos olhos está " uma enorme lição de vida" . " mas só a alma convive com paragens estranhas" essa é a grande capacidade que falta ao ser humano.
Muito obrigado pelas palavras deixadas e pela leitura.
Também tenho dias em que penso que nada aprendemos, e outros em que temos diante de nós, sem precisar de correr para a descobrir, a oportunidade de aprender esta lição. Receio que em breve nos abraçaremos ao material, e não às pessoas e emoções humanas, cuja falta tanto apregoamos por estes dias.
Trabalhar a interioridade não é para todos, sabemos... Mas é para alguns, alguns que poderão fazer a diferença.
Há uma frase de Almada Negreiros que diz "As pessoas que mais admiro são aquelas que nunca se acabam". E são. A infinitude, alcançada também por esta via, mas não só, é fascinante.
Ainda nos falta aprender a viver com a alma.
Um beijinho
Melhor texto que já li desde que me iniciei no mundo dos blogs.
Rita, honestamente, espero que comeces a ponderar, hoje mesmo e não noutro dia, para quando será o teu livro! O mundo precisa de um abanão que faça as pessoas refletir. Sobre o quê? Está tudo no que escreveste.
Sem palavras, mesmo. Feliz dia
Sem palavras para agradecer ❤️ a força, o incentivo, o feed-back, o carinho, a leitura.
Não creio que seja só eu a contribuir com abanões, o seu cantinho está cheio deles. E tão bons!!!
Um dia igualmente feliz façamos a nossa parte, quem sabe um dia a sorte seja maior do que o sonho, e as mãos certas confiram asas aos textos.
Um beijinho
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