quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Desigual

[Canção]


Era o sol nascente,
mais uma manhã,
num mundo exigente
puxando a corrente
futuro presente,
cela de amanhã.

Era a agitação fiel
e o burburinho,
o canto das aves sempre baixinho
e as flores já não davam mel.
Era o trânsito arrastado,
homens de olhar apagado,
mulheres de rosto cansado
e crianças sem brincar.
Eram janelas estridentes
vozes iradas, descontentes
horas tardias, negligentes
apatia do luar.
E sempre que o mundo
no horizonte se punha,
era o cansaço quem se impunha,
era tempo de abrandar.

Era uma manhã desigual
adiada a rotina
mal lida sina
p'la cigana ao passar.
Eram quatro, as paredes
lotadas de gente
de outra gente carente,
varandas por quintal.
As lojas fechadas,
grades nas fachadas
dos prédios elegantes
nascidos de fronte para o céu.
E é agora réu todo o afecto
que não sob o tecto
do coração que sustém o véu
à noite insone.
Paira uma nuvem de incerteza
sobre cada cabeça;
tudo deixou de ser colorido.
E num futuro dorido,
não ficará tudo bem.

O telefone toca,
a televisão alerta,
o medo disperta
e o trabalho de ontem ainda está por fazer.
Os miúdos não comem,
são tantos os que morrem!!!
É preciso não esquecer
que outros há, ao relento
sem pão, sem alento
nem abraços onde se recolher.
Ninguém nas ruas
tudo deixou de ser...
e parecem já suas
as razões do anoitecer.

- Mãe, como é que cabem tantos mortos no céu?

 

 

2 comentários:

amorlíquido disse...

Melhor que este poema, é lê-lo com o Yiruma como música de fundo.
Já era fã dele. Passei a ser tua também. Parabéns pela verdade e sensibilidade com que escreves!
Boa semana

Rita PN disse...

Muito obrigado pelo carinho das palavras e pela sensibilidade que trás. É inegável. Obrigado também por ouvir, enquanto lê, ou mesmo sem ler. Por vezes, quantas..., a música expressa o que eu não consigo, ou permite que se acentue a mensagem...
Obrigado de coração por vir aqui, a este cantinho. E obrigado também pelo que bos oderece no seu. É um lugar tão bom para se ir um beijinho

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